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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

20
Jun22

594 - Pérolas e Diamantes: O movimento perpétuo da vacuidade

João Madureira

Apresentação3-2.jpg 

As nossas aproximações à desordem são sempre pífias. Antoine Waechter escreveu que luta contra ideias cuja própria existência põe em dúvida. Eu ainda não chego a tanto, mas para lá caminho. Este não é um país para perplexos. Eu gosto de alguma pintura moderna, mas não de toda. No entanto tenho de reconhecer que é nova. Mas sei que da pintura de Rembrandt, por exemplo, ninguém diz se é velha ou nova. Todos afirmamos que é eterna. Todos sabemos que o grande público não morre de amores pela arte contemporânea. Mas também todos sabemos que a arte contemporânea é um fator de progresso social, de aceleração cultural. Muitas vezes os visitantes desse tipo de exposições são até capazes de fazer pouco delas, oscilando a sua atitude entre o divertimento irónico e o sarcasmo. Pode-se estar ali a “perder tempo”, mas de forma agradável. A beleza já não é o que era. Os gostos mudaram. Como diz Michel Houellebecq, atualmente vemos a beleza como uma espécie de “vingança contra a razão”. Até na arte, a experiência e o treino são coisas diferentes. Agora há pouca beleza, pouca poesia. Tudo parece despojado de caráter. Tudo parece acolher a imprecisa pulsação do transitório. A aposta dos workshops new age incide na criação de indivíduos constantemente mutáveis, desprovidos de rigidez intelectual e emocional. Não há fidelidades, não existe sentido de pertença. O indivíduo moderno tem de estar sempre disponível para ocupar um lugar transacionável. Ele também é um valor de troca. Uma mercadoria. Agora é tudo publicidade: filmes, videoclipes, notícias, reportagens, programas de culinária, desporto, literatura, fotografia. Internet. A vontade vai-se esmorecendo. De todo este bombardeamento diário resultou uma indisfarçável falta de personalidade, percetível em cada um de nós. A filosofia passou a ser opcional e toda a atividade artística se transformou numa retórica generalizada. Tudo é uma enorme piada, uma forma de humor previsível e canhestro. Por isso é que os humoristas da nossa praça abandonaram a produção de programas humorísticos para se dedicarem exclusivamente à publicidade. Ricardo Araújo Pereira e os seus muchachos são agora os gurus de quase todo o espaço mediático: rádios, jornais e televisão. Alguns até se dedicam, com sucesso, ao nobre comércio da panificação. Por causa disso já todos duvidamos de tudo: dos políticos, dos polícias, dos juízes, dos advogados, dos banqueiros. E até dos humoristas que transformaram o humor numa espécie de vazio onde tudo cabe. Nada é para levar a sério. Deslizamos para uma atmosfera malsã, feita de risinhos parvos e falsificações. Somos todos tomados por um certo desconforto. Agora são os bobos que mandam na corte e, por esse meio, em todos nós. Esta lógica de humor de hipermercado vai-nos sair muito cara, tanto em termos culturais como ideológicos. Sem esforço intelectual voltamos todos para trás. Este fluxo de pseudoinformações que nos vende conflitos mundiais, governos maioritários e coligações minoritárias, brioches, baterias de lítio e piadas brejeiras criam a falsa ilusão de uma modificação permanente das categorias da nossa existência. Os algoritmos somos nós. Parecemos fantasmas cegos a comprar óculos numa loja publicitada por um senhor gordinho que nos ensina o preço certo de alguns produtos ou por um humorista emagrecido que vende broa vegana em lojas de Lisboa e arredores. Já não há resistência, nem discussão. E muito menos profundidade. Andamos a aperfeiçoar os meios de deslocação para pessoas que não têm para onde ir e a desenvolver os meios de comunicação para seres que já nada tem a dizer uns aos outros. A interação já não se faz entre pessoas, mas com objetos. O ser humana fala. Falava. Agora escreve numa pequena placa de vidro com os polegares, como se fosse um panda.  Sorri e dobra-se sobre si mesmo como se estivesse num iglu. A única coisa que move são os olhos e os dedos. E mata indiscriminadamente bonecos animados por algoritmos. Sai um fogo gelado de dentro de si. Agora é tudo vulgar. Vagamente vulgar como a ondulação estacionária na superfície de um charco. O movimento perpétuo da vacuidade.

16
Jun22

Poema Infinito (617): Dispersões

João Madureira

IMG_4383 - cópia 7.jpeg 

Acontece, por vezes, as pessoas serem dominadas por alegre e ébria loucura. É quando alguma coisa está para acontecer. As ruas enchem-se da música de dezenas de gaitas de beiços, cantigas de coro, sapateio de danças de roda, risos e gritos, de vozes suaves, solitárias e tristes. As canções são desconcertantes e perplexas. Especialmente as cantadas pelas raparigas. Os pirotécnicos lançam foguetes que fazem um ruído ensurdecedor. Pelo chão rastejam sombras taciturnas. Como num ecrã, os reflexos rosados tomam formas estranhas de pétalas e semicírculos ovais. Algo de estranho se passa. Nesta guerra contra o tempo, é mais fácil contar os sobreviventes do que as perdas. Ainda me lembro das palavras do tio João, depois de vir cansado do campo: “Oh, mãezinha, tenho fome, dê-me a ceia.” Por vezes, o ar parece que canta. Uma nuvem enorme prolonga-se no ar como se fosse um deus branco a expandir-se. O silêncio continua a cair sobre nós como se fosse neve. O medo e a alegria aproximam-se. E também uma sensação estranha de velocidade. Começamos a correr para trás empurrados por uma força invisível. O vento faz-nos bulir o cabelo e as pestanas leves. Por vezes é bom partilhar generosamente os bens espirituais que não possuem dimensão nem peso. A avó continua a molhar o pão no prato de azeite olhando para a luz da candeia. Vamos dissolvendo o cansaço e a sonolência. As plantinhas minúsculas continuam a ter o encanto terno da infância. Tudo parece contrário à tristeza, mas é pura ilusão. As barbatanas do tempo são pesadas. Vejo os movimentos da crosta terrestre e as fendas a abrir-se. É sempre bom ir para outro deserto, quando queremos esquecer o anterior. A memória da água nunca ajuda. A poesia é combate em tempo de paz. “Olha sempre para cima”, disse-me uma vez o meu padrinho com um olho aberto e o outro ora a fechar-se, ora a abrir-se. “O mundo necessita de gente audaciosa. A má culpa cresce dentro de cada um e depois avança por entre a multidão. Nem Deus nos consegue salvar. E até o Demónio foge de nós. Deus deve ser um pintor cego, pois não parece apreciar a sua obra.” Aquilo não era uma cultura de livros, mas uma cultura com um enorme respeito pelos livros. Coisa que herdei. Ainda tenho a impressão de que sou novo. De que somos novos. E olhamos fixamente os objetos. E os amores. Mas agora é tudo mais arqueado. Mais demorado. Mais vago. Tudo é mais disperso, mais triste. O saber e a razão são coisas inquietantes. E a culpa é um exílio interior. Acabamos todos por ir para as janelas ver a procissão passar cheia de anjos e santas e santos escaganifobéticos. Neste país paga-se bem em sofrimento. Os outros pensam por nós. Dizemo-nos encantados com a submissão. Entregamos aos outros o poder de pensar. Pensar faz sempre sofrer. E isso não depende nem do tamanho nem do peso da cabeça. Os dias dançam à nossa frente e nós sentamo-nos para os ver melhor. Nós pomos sempre muita intensidade na observação dos outros. Nas coisas dos outros. Nós gostávamos era de ser os outros, como os outros. Mas é tão difícil dançar ballet. É tão difícil deter o tempo. É doloroso terminar antes de ter começado, apressar os versos, aparar as certezas, moldar rostos e abrir olhares. Sofro da solidão da árvore sozinha no meio do fraguedo. Espero pela chuva e pelo vento para me fazerem companhia.

13
Jun22

Ensaio provinciano ou um conto angustiado

João Madureira

 

Apresentação3-2 - cópia.jpg 

Apetecia-me escrever sobre os jornais de província. E olhem que eu sou um homem de apetites. Mas não posso. Ou não consigo. Não é por causa dos jornais. Eles mesmos. Pobres coitados. É, antes, por causa da província, ela própria, a cinzentona.

A província é, por definição, provinciana, nem outra coisa se lhe pede. Ou exige. A província vive disso, de ser provinciana. Está claro que há províncias que são mais provincianas que outras. Mas, valha a verdade, todas as províncias são provincianas. Até as províncias que pensam que o não são, como, por exemplo, a província que acolhe no seu seio a Capital. Que, por definição, é também a capital da sua província, mas que é muito mais do que isso, é a capital de Portugal. Ora, e mais uma vez por definição, sendo a capital do país, não pode ser provinciana. Só se se der o caso de o país ser uma província. O que, de todo, não é verdade. Ou melhor, não é a verdade toda. Basta sair de Lisboa até aos arredores para nos apercebermos que ali mesmo, a uns escassos quilómetros do Marquês, a província emerge, circunda e conspurca a Capital. A Capital apenas não é província num pequeno perímetro que vai do rio até ao castelo, depois sucedem-se os bairros, as ruas, as lojas, os restaurantes, os cafés, as tabernas, os postos da polícia, os urinóis e pouco mais.

Temos de reconhecer que não existe uma fronteira entre a província e a capital. Mas que existem portagens, lá isso existem. Para a ida e para a volta. E caríssimas, por sinal. Uma pessoa não vai à capital em vão. Na capital, o provinciano paga caro a sua estadia. Paga cada minuto de parqueamento a peso de ouro. Isto, a dar-se o caso de encontrar estacionamento. Claro que também na província já se paga o estacionamento. Mas a província deseja desde há muito tempo a esta parte deixar de ser provinciana. E por algum lado temos de começar. E não existe desenvolvimento sustentável sem dinheiro. E o Estado, que somos todos nós, tem de arranjar dinheiro de alguma forma, e essa forma é o povo (que é o Estado) pagar ao Estado (que é o povo) o que lhe é devido, senão não havia Estado, nem povo, nem país, nem capital, nem província, etc.

Ora, como devem ter reparado, este ensaio, ou conto, está a ficar cada vez mais confuso. Mas a culpa não é minha, ou inteiramente minha, pois, eu sei, que alguma culpa terei de ter, mas não é a culpa toda, isso também sei eu. A culpa inteira é do Estado (que somos todos e qualquer um, só que sabiamente administrados por uns senhores [e senhoras, pois o Estado da Nação já deixou, de algum tempo a esta parte, de ser provinciano] eleitos por nós, que somos povo e Estado ao mesmo tempo). O Estado é que é muito confuso. Mas é da confusão que nasce a ilusão. Está claro que o Estado já deixou de ser o povo para passar a ser ele mesmo. É um pouco como o computador no filme 2001 Odisseia no Espaço, onde a máquina se torna muito, mas mesmo muito inteligente, e passa a desobedecer às ordens dos homens que a criaram, matando os mais desconfiados e aprisionando os administradores, que pensa dominar, mas sem os quais não pode sobreviver.

A ser assim, como vos conto, coitada da província. A província sente-se mal, pois também é Estado, também é povo, também é Portugal. Mas um Portugal lento e provinciano, e com isto quero dizer, com muito menos gente por metro quadrado, com transportes públicos muito mais caros, sem ministérios, sem teatro de vanguarda, sem as sedes principais dos partidos políticos, de todos os partidos políticos, pois alguns (talvez os melhores, ou menos provincianos, ou mesmo nada provincianos, por isso melhores) só existem em Lisboa, sem os políticos mais influentes, sem a Assembleia da República, sem o Palácio Nacional de Belém e o seu insosso inquilino, sem a fábrica dos pastéis de Belém, sem o Palácio de São Bento e o seu ocupante, sem o estádio do Benfica, sem o Chiado, sem Alfama, sem o Bairro Alto, porra, sem o Bairro Alto, porra, sem Alfama, porra, sem as marchas populares, sem o fado, porra, sem o fado, porra, sem o fado e sem Eusébio (não a lontra macho do Oceanário), e sem a Amália (não a do panteão nacional, que foi fadista de renome, mas sim a linda lontra fêmea do Oceanário), porra, porra, porra, e sem o ginásio clube português e sem um patriarca como o de Lisboa e sem o Santo António e sem o Parque Eduardo VII e toda a sua simbologia literária e libertária e libertadora e sem rap e sem kizomba e sem funaná e sem ministério público e sem a ponte vinte e cinco de Abril e sem o vinte e cinco de Abril propriamente dito e sem a ponte Vasco da Gama e sem o Tejo e sem os cacilheiros e, meu Deus, sem o Carlos do Carmo e os putos do seu fado, o Paulo de Carvalho e os seus meninos à volta da fogueira, o Paulo Gonzo e os seus jardins proibidos e sem o Gambrinus e o seu Eisbein com Choucroute (Chispe à Alemã), e sem a Lontra (não a do Oceanário, mas a discoteca) e sem o túnel do Marquês e sem o Parque Mayer e sem a Feira Popular e sem o aeroporto da Portela e sem o Metro de Lisboa (que é subterrâneo, pois um Metro que não é subterrâneo só pode ser provinciano) e sem os pregões de Lisboa e o Cais da Ribeira e o cacau da dita e tudo e tudo e tudo. A nós, os provincianos, falta-nos tudo. Tudo. Até nos falta a vontade de deixar de o ser.

PS (Só para homens. E podem acusar-nos à vontade de machistas. Algum proveito temos de tirar da nossa pobre condição de provincianos… e homens, pois os homens são muito mais provincianos que as mulheres, basta olharmos para os nossos deputados.) – Para que não nos considerem ainda mais provincianos do que aquilo que somos, por favor, caros leitores deste blogue, não saiam à rua de calça vincada, camisinha com o emblema da Lacoste (e não vale a desculpa de que foi comprada nos ciganos), meias brancas e mocassins. Topa-se à distância que são provincianos. Tal indumentária é ainda mais traidora do que o cheiro a naftalina. E se há coisa que denuncie a condição de provinciano é o cheiro a naftalina.

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