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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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20
Mar23

628 - Pérolas e Diamantes: A caminho do paraíso

João Madureira

Apresentação3-2 - cópia 5 (1).jpg

 

Todos aqueles que sabotam mudam a razão do conflito. Todos aqueles que sabotam são o próprio conflito. Isto desde que o mundo é mundo. E desde que deus é Deus. E falhamos. Estamos sempre a falhar. E a falar. E a justificar o falhanço. E a justificar a razão. Desde que a razão é razão é só triunfo e derrota. E depois amnésia. E importamos a razão e depois exportamos cortiça. E, de seguida, importamos rolhas com que fechar as garrafas do bom vinho que exportamos. E importamos ideias e depois exportamos rótulos. E fado embrulhado em nostalgia. E pastéis de nata. E bolos do bacalhau que vamos pescar lá para os mares do norte. Há perguntas que não necessitam de respostas e respostas que dispensam perguntas. Ser ou não ser. Olá Shakespeare, está na altura de ires pregar a outra freguesia. Tudo em que nos fazem acreditar se baseia em conversões e reversões. Até o género já é motivo de dúvida. De dúvida metódica, como se fosse uma espécie de género filosófico invertido. São Tomás de Aquino tem de ir pescar bacalhau para as Caraíbas. Temos de reciclar o Natal, a Páscoa e as peregrinações a Fátima. Todos nos querem ensinar sustentabilidade como se fosse um receita de cozinha. Quero crer que Jesus ainda não é o Capitão América. Que Deus nos salve das fábulas, dos preconceitos e dos complexos de Portnoy e das reivindicações permanentes e do humor dos excelsos pedófilos de batina e clérgima a cheirar o mofo. O caminho da vitória cheira sempre a sangue, suor e lágrimas. E a benzeduras e a rezas para levantar a espinhela caída. Tudo a preto e branco a ebony and ivory e a lgbt em desfile de orgulho. Provocação por provocação, prefiro uma chega de bois do Barroso. Eu já nem é sim nem não, é mesmo sopas de burro cansado. Aux armes et caetera… Serge Gainsbourg e  je m'emmerde pour ça Cuba Livre de Coca-Cola e rum expurgado dos barbudos do Fidel Castro. E nós sempre com o futuro amarrado ao passado, a esse passado que é uma âncora pesada que não nos deixa sair do lugar. Nem quando a maré vaza ou mesmo quando ela enche. E nós a tentar respirar neste tempo presente cheio de ausências. Nós até já podíamos viver melhor neste país de bifanas e sardinhas assadas, mas todos correm atrás dos números da sorte. Todos compram raspadinhas em vez de jornais ou livros. Dizem as estatísticas que os habitantes deste país de pobretanas gastou em 2021 mais 3,4 mil milhões de euros em jogos e apostas. Este país vive entre feiras e carnavais a comprar roupa contrafeita e a fugir aos impostos. As coisas parecem mudar, mas não mudam. Nós gostamos de passar tudo a ferro, desde a roupa até à hipocrisia, passando pela monarquia, a república, pelo colonialismo, pelo fascismo e até nos sentimos bem a engomar os cravos da liberdade e a ecologia. E também a luta de classes, o dever, o desejo, o sexo, a religião. E a energia vital do Son Goku. Por isso é que há muito dinheiro para poucos e pouco dinheiro para muitos. E olhem que não é só o rei que vai nu, vamos todos e com os níveis de obesidade que há por aí o espetáculo não é lá muito bom de se ver. O melhor mesmo é comprarmos óculos de sol, sempre ameniza o desconforto. Morrem-nos as palavras de dúvida nos lábios, até dos mais incrédulos ou distraídos. E também há informadores astutos espalhados no meio do povo. Há canalhas em todo o lado. Parece que quanto mais os portugueses rezam mais Deus se separa de nós. Pudera, também com o clero que há por aí. Ao que parece até a igreja vai nua. Então e a vida eterna e a salvação das almas e o amor e a paz? O que não existe não pode ser interrompido. Quando as perguntas são difíceis e pertinentes, as respostas faltam. A verdade divina, afinal, não é feita da tão apregoada grandeza absoluta. Até Deus ficou sujeito à lei da relatividade. E então a esperança, a fé e a caridade, e a bondade e a tolerância? O melhor mesmo é não fazermos perguntas estúpidas. Basta olhar à nossa volta. Já ninguém fala a língua dos anjos. Anda tudo a brincar com o fogo. E nós a piscar inocentemente os olhos à luz. Alguns, nesta guerra de equívocos, vão ser medalhados. Este é, afinal, o país das medalhinhas e das prebendas. O problema é que não vão ter pedaço de tecido onde prender o alfinete ou a segurança. Hip-Hip-hurra… Hip-hip-hurra.

 

PS - De acordo com a versão, encontrada no livro “The War Against Jews” (A guerra contra os judeus), do historiador Dagobert Runes, a interjeição “Hep” teria sido um grito de guerra dos cruzados medievais. A palavra “Hurra”, por sua vez, seria derivada do eslavo “hu-raj”, que queria dizer “ao paraíso”. Segundo alguns estudiosos a expressão completa significaria “Jerusalém está perdida e estamos a caminho do paraíso”.

16
Mar23

Poema Infinito (656): E eu sem...

João Madureira

IMG_4383 (1).jpeg 

Ainda me lembro. Com saudade. Ainda me lembro da saudade. Ainda me lembro. Dos dias difíceis. E dos dias felizes. E do tempo interno. E do silêncio dentro de casa quando os avós morreram. E dos pais quando faleceram. E das pessoas a falarem baixinho como na igreja. E do brilho metálico da cruz. E da solidariedade na tristeza. E do peso incrível das lágrimas que nos saíam dos olhos e sulcavam as faces. E dos sorrisos trémulos como a chama das velas. E o medo a esconder o mal. E do grito dos porcos quando os deitavam no banco e lhe espetavam a enorme faca direta ao coração. E da avó a pentear-se ao espelho. E da mãe a pentear-se ao espelho. E de irmos aos míscaros. E de ir à Feira dos Santos ver o poço da morte. E a mulher barbuda. E o homem mais alto do mundo. E de andar de carrossel. E de ver o filme Os Dez Mandamentos no Cine-Teatro. E de comprar papel e tinta para me pôr a escrever cartas de amor. E do Pinto a entoar as canções do Roberto Carlos, imitando-o de tal forma que nos fazia pensar que viria a ser cantor. Acabou dono de uma retrosaria. E da moda dos meninos e meninas cocós a partirem braços ou pernas para andarem de canadianas a exibir o gesso branco repleto de assinaturas. E de ler o Mundo de Aventuras e de comer guarda-chuvas de chocolate por altura do Natal. E de ir aos grilos e aos gambozinos e de os metermos nas gaiolas. Lembro-me que os grilos cantavam e os gambozinos faziam de conta que não existiam, mas nós conseguíamos vê-los, para espanto das nossas mães. As mães acreditam sempre nos seus rebentos. Faz parte da sua nobre arte. Lembro-me ainda de comer tremoços e azeitonas que comprávamos a uma mulher que os tirava com um copo do alguidar de plástico azul e os depositava num cone feito com papel de jornal. E de jogar futebol com uma bola de trapos envolta nas meias de vidro com os fios puxados da Dona Feliciana. E de jogar ao botão, ao berlinde e ao espeto com um prego enorme, ou com uma lima já meia gasta. E de fazer arcos e flechas com as varas de aço dos guarda-chuvas e de brincar aos índios e aos cobóis. E da minha prima me pôr em cima do dorso da burreca, tinha eu três ou quatro anos, e de ela começar a correr e eu a tentar endireitar-me. E eu sem ter onde me agarrar. E ela a trotar. E eu sem ter onde me agarrar. E eu a tentar endireitar-me. E ela a trotar. E eu a tentar endireitar-me. E sem ter onde me agarrar. E ela a chispar por ali fora. E eu a tentar endireitar-me, sem ter onde me agarrar. E de eu me inclinar sobre o lado direito da cavalgadura assustada e cair sobre um muro. E também me lembro de ter ficado doente. Muito doente. Cheio de febre e dores. Entretanto, a minha mãe foi a casa da tal prima que me tinha montado em cima da burreca e, se não a tivessem impedido, tinha-a esganado com as próprias mãos. Depois veio para casa, abraçou-se ao meu pai e começou a chorar e a dizer: “Eu mato aquela puta do caralho. Eu mato aquela…” “Shhhhh… Shhhhh… Acalma-te Xana.” E lembro-me muito bem da minha mãe a pintar as unhas com verniz, enquanto me fazia companhia durante a convalescença. Ainda hoje gosto do odor da acetona. Lembro-me de sentir também o cheiro do meu próprio sono. E do cheiro morno dos lençóis. E do cheiro da aflição da minha mãe. E das ruas quietas. E dos animais calados. E do cheiro a tabaco do meu pai. E do cheiro a ciúme da minha irmã. E eu sem ter onde me agarrar.

13
Mar23

627 - Pérolas e Diamantes: Apesar da dedicação

João Madureira

Apresentação3-2 - cópia 8 (2).jpg 

Distanciamo-nos dos amigos de juventude e eles também se distanciaram de nós e mesmo eles entre si e sem que tenha havido qualquer tipo de disputa. As mudanças sucedem-se, as profissões espartilham, os filhos e os netos absorvem-nos, deixamos de nos ver e fazemos que perdemos os números de telefone. Por vezes tropeçamos uns nos outros e trocamos palavras de circunstância e histórias meio inventadas. Antigamente jogávamos bilhar ou ping-pong e fumávamos cigarros, quando os havia. Os mais espirituosos, ou generosos, eram os primeiros a meterem-se em sarilhos. Mas quando o jantar nos cai mal ou a conversa engrola, o melhor é afastarmo-nos, meter os dedos na garganta e vomitar. A paródia e a estupidez alcoólica têm os seus limites. Mas as amizades fugazes são como as nódoas negras que, apesar do aspeto, acabam por desaparecer rapidamente. Muitos são tão aborrecidos que pensam que a vida é um truque. Esfregam muito os olhos para verem estrelas. E quando os abrem já é dia e eles sem entenderem a sucessão dos dias e das noites. As meninas prosa, quando iam aos bailes da sociedade pediam um cigarro ao seu par, deixavam que lho acendem-se com um isqueiro em forma de ferro de engomar estilizado, miniatural, e tossiam de uma forma deveras delicada, permitindo  que dançassem agarrados como se fossem amantes de ocasião. Os mais concentrados borrifavam-se nos cigarros e dançavam tão compenetrados como se o tempo não existisse. Pensavam que as coisas eram como eram e que seriam como sempre foram. Mas enganaram-se. Todos. Ou quase todos. Misturar ficção e realidade dá merda. Os livros provocavam cãibras. Muitos desses leram as badanas e fizeram-se artistas sem terem arte nenhuma. E alguns de nós a educar o comportamento. A desencadearmos ilusões, a ensaiar réplicas, a intensificar problemas, a simular ataques de raiva, a esmurrar o vento, a ouvir bons conselhos e a comer caldos de galinha e a tentar entender os sorrisos irónicos e a fumar cigarros como o faziam os atores franceses e a tentar entrar na brincadeira das revoluções e a pensar que a consciência era uma coisa com classe. E a conversar horas a fio sobre infantilidades e coisas tão ridículas como a superioridade moral dos comunistas, a tentar harmonizar a revolução com os bailes dos bombeiros, ou o marxismo-leninismo com a masturbação. E a perder definitivamente o sentido de humor e o amor pela amada e a rasgar livros de banda-desenhada burguesa e a ler o Avante como se fosse o Ave-Maria e a admirar os bonecos de cera que habitavam o Kremlin. E o comunismo a derreter como as velas em Fátima. E nós a imitarmos as réplicas patrioteiras de Lenine, de Che Guevara e de Fidel Castro. E a confundir política com religião e rebeldia com má educação. E a fazermos autocríticas em grupos de militantes onde confessávamos os pecados por não termos combatido convenientemente a reação, como o Comité Central recomendava, por não distribuirmos os comunicados à saída das cerâmicas, por termos ido namorar em vez de assistirmos à reunião da célula, por termos confundido fraternidade proletária com festa de bairro, por termos abandonado baldes de cola, pincéis, escadotes e cartazes, por causa de termos sido perseguidos e atacados por hordas de bárbaros reacionários descendentes diretos de Gengiscão, por termos amigos esquerdistas, ou socialistas, ou social-democratas, ou retornados que fumavam liamba, por namorarmos com raparigas que não se interessavam pela revolução e confundiam o tal Guevara com Jesus Cristo e Salazar com Álvaro Cunhal. Eu pensava, mas não me atrevia a dizer aos camaradas ou ao funcionário do Partido, que preferia alguém que caminhasse ao meu lado em vez de me estarem sempre a indicar o caminho. Apesar da dedicação, do esforço, do materialismo histórico, do materialismo dialético, das experiências revolucionárias e das vitórias magníficas, a realidade teimava sempre em contrariar a revolução. O mundo a mover-se e o comunismo a definhar. É la se foram os filhos da madrugada, cada um para seu lado. Eu capturei algumas recordações com a minha máquina fotográfica interior. Agora a minha neta aponta para a Montanha e eu olho para ela e reparo que os seus olhos acesos se acendem como luzes no céu. Dos meus, quando olho os dela, caiem-me lágrimas que são pérolas de alegria que desaparecem como que por encanto.

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