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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

28
Set23

Poema Infinito (681): Criação

João Madureira

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Sinto outra vez a solidão. A solidão dos montes. O silêncio. Ouvia da boca do avô o vento, o barulho da chuva, os nossos próprios passos na neve, os chocalhos dos machos e das cabras, as campainhas das vacas, o uivar dos lobos. Tudo isso gostava de ouvir. Até a melancolia. E depois, ele, punha-se a fumar um cigarro enquanto o sol descia devagar para poente. Entrava-me muitas vezes o rio no coração. A noite foi longa. A aurora desponta. Um resplendor azulado começa a apagar as estrelas. A claridade incipiente entra pelas janelas e começa a recortar os móveis e as memórias. Ali está o avô a erguer os braços como se quisesse fugir. E a avó, aninhada no escano, a tentar adormecer. Foi assim que se renderam à morte. O avô pensou: Morro antes de fazer deste meu neto um homem. Ao tentar subir no ar, bateu com o corpo no escudo nobiliárquico da casa grande do vizinho, desfazendo-o em pedaços. Vejo-me e revejo-me nas íris escuras dos olhos do pai. Penso na chuva e na passagem do vento pela rama das macieiras. Penso no vento a repetir os assobios. E nas palavras sem sentido ave-maria cheia de… cheia de… um terço, primeiro mistério… e o som repetitivo das orações e o volume dos objetos a aparecer e a desaparecer… a agressão das repetições… a submissão, os pedidos, os louvores… a chuva no telhado, o rumor da água… a repetição das orações… pai-nosso… Os nomes deles ainda permanecem em cima das coisas que lhes foram queridas, mas os seus rostos são cada vez mais imprecisos. O relógio de parede tanto encolhe como dilata as horas. Há uma dentada de tempo na parede. E mãos cheias de memórias nos baús. Era por esta altura que o avô comia figos. Abria-os para observar a sua polpa vermelha e doce e depois mastigava-os com precisão. A seguir metia a paciência dentro da sua cabeça e punha-se a olhar para longe. Trincava pão seco e bebia um cálice de aguardente. As palavras agitadas já não o alcançavam. Nem o incomodavam. A luxúria passou de pecado a incómodo. E, ao longe, as crianças cantavam atirei com o pau ao gato e o gato maltês falava francês ou inglês e os gansos voavam e corriam os burros e o cavalos e até o mafarrico em cima de mulas… e o seu neto voava até ao outro lado da aldeia e voltava. Ia e voltava. Enquanto os piões rodopiavam. E depois o sol descia rápido. E a lua não conseguia dar luz suficiente para se andar na rua sem tropeçar nas pedras. E eu ainda na beira do rio a chapinhar na água. E Narciso, mal iluminado, a tentar beijar a sua imagem. Até os deuses podem ser estúpidos. E ele, o avô, sempre a arrancar a sorte de onde ela devia estar. A minha irmã berrava e eu arrulhava. E, depois da ceia, ficávamos todos calmos e quietos até a chama da candeia começar a ondular anunciando que o pavio estava a extinguir-se. E nas manhãs dos feriados lá íamos todos roubar as maçãs da quinta da bruxa. E ela começava logo cedinho a voar em cima da vassoura como se fosse um drone guerreiro. E o avô, com a sua caçadeira, disparava sobre ela justificando que as perdizes também podem ter plumagem negra. E a Marquinhas da Ajuda rezava tanto que parecia a própria eternidade. A paisagem é bela, mas o morrer do dia e a iminência da noite começa a causar desassossego. Estremeço de incerteza. Daqui consigo ver a encosta do monte e as videiras que serpenteiam o caminho e a curva do rio que reflete o crepúsculo. Algo de semelhante terá sido o dia da Criação. A vida começa a diminuir pela base.

25
Set23

652 - Pérolas e Diamantes: Esquerda e direita

João Madureira

Apresentação3-2 - cópia 5 (4).jpg 

Apesar de todas as deceções geradas pelos fracassos e desvios das lutas sociais do século XX, continua a existir um enorme abismo entre os valores que definem a esquerda, em toda a sua diversidade, e aqueles que definem e alimentam a direita, todas as direitas. Ainda há pouco li algures que metade da população mundial sobrevive com menos de cinco dólares por dia. Provavelmente serei preconceituoso, mas sei de onde venho. O célebre filósofo britânico Bertrand Russell disse que “um homem sem qualquer preconceito – se é que existe – não pode escrever uma história interessante”. Eu penso da mesma forma. Também penso que a esquerda parece cada vez mais velha e cansada e que os seus traços ideológicos estão cada vez mais esbatidos. Mas está longe de ter morrido e de ter sido enterrada. Convém lembrar que o aparecimento dos termos “esquerda” e “direita” se ficou a dever muito ao acaso. Surgiu quando, a 28 de agosto de 1789, na recém-formada Assembleia Constituinte francesa, se colocou a questão da manutenção do direito de veto do rei sobre as decisões dos representantes eleitos da nação. Os que se lhe opunham, ocuparam o lado esquerdo da sala. Os que apoiavam a insanidade concentraram-se do lado direito. A meu ver, um dos principais erros da esquerda triunfante foi toleimar na ideia de querer transformar os senhores em servos e os servos em senhores. O assassínio em massa dos kulaks, por ordem de Lenine e Estaline, foi um dos maiores exemplos daquilo que a esquerda não podia fazer. Mas também é verdade que foi a esquerda, através das suas reivindicações em prol da igualdade, a conseguir que nas sociedades modernas e democráticas, ela se exprima através da igualdade de oportunidades, nomeadamente no sistema educativo, da igualdade entre pessoas que vêm de continentes diferentes, da igualdade entre religiões, culturas, géneros e sexos. Ou seja, a ética da igualdade tornou-se hegemónica na Europa e nos países mais desenvolvidos do planeta. Mas, e a história aí está para o confirmar, a ação da esquerda é uma tarefa de Sísifo. Rosseau, o eterno filósofo do bem, escreveu que “a primeira fonte do mal é a desigualdade”. Passados centenas de anos, o princípio continua a ser verdadeiro. Até porque, ainda segundo Rosseau, o pecado original não existe, a desigualdade não resulta de uma vontade divina e, sobretudo, o homem não é fundamentalmente mau. A sociedade democrática só poderá sobreviver e progredir se as divisões sociais não forem demasiado grandes. Para mal dos nossos pecados, o filósofo conservador inglês Edmund Burke defendeu, nas suas Reflexões sobre a Revolução em França, que aqueles que afirmam nivelar nunca igualam. E tinha razão. Mas apesar de tudo, eu ainda continuo a acreditar nos princípios definidos pela Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, de 26 de Agosto de 1789, documento que logo no seu início proclama: “Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos”, defendendo que todo o poder está na nação, de que todos os cidadãos são iguais perante a lei, de que o acesso a cargos públicos está aberto a todos e de que a lei deve ser a expressão da vontade geral. Apesar do meu ceticismo, mas como herdeiro do espírito jacobino, acredito profundamente no princípio da igualdade democrática. A ser possível, e atualmente penso que sim, sou o resultado da síntese jacobina entre Robespierre e Babeuf. Apesar disso, continuo a pensar, como Saint-Simon, que a Revolução Francesa, apesar da sua violência, foi necessária para destruir o Antigo Regime. Foi ele que legou à esquerda a ideia de que a História é regida por leis e feita por etapas sucessivas, orientada pela razão científica, não reconhecendo, por isso, outros privilégios a não ser os que são devidos à competência. Qualquer poder político é fundamentalmente inepto, pois apenas o poder científico tem a capacidade efetiva para fazer a sociedade avançar e possibilitar um futuro risonho e consistente. Uma coisa sabemos de ciência certa, não há saída apolítica para a instabilidade social. Claro que o direito à propriedade privada é inquestionável, mas a luta de classes também o é. Isto, enquanto elas existirem. Por isso é que, como disse anteriormente, a esquerda é vítima da síndrome de Sisífo. Resumindo e concluindo, por hoje, a democracia política só existe a par da democracia social. E isto é o que ainda hoje divide a esquerda da direita. E, se calhar, a dividirá para sempre.

21
Set23

Poema Infinito (680): Quedas e outros fados

João Madureira

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Cai o céu em cima nós. Cai a tarde. Caem os anos. Cai Adão. Cai Eva. Cai a putíssima da cobra. Cai a maçã e o pecado. Desaparece o paraíso. Cai Caim. Cai Abel. Cai Deus e o Demónio. Cai a eternidade. Desaba em cima de nós o sentido da vida. E a vida de Brian. E os porcos dos sketches dos Monty Python. E os próprios rapazes dos Flying Circus. E o cavalo de Turim, Bela Tàrr, Nietzsche e a sua loucura sifilítica, Richard Wagner e os anéis dos Nibelungos. Cai Jesus Cristo. Cai a sua cruz. Desaba em cima de nós a dele e a nossa. E não a conseguimos distinguir sem pormos os óculos graduadíssimos da Irmã Lúcia, da cristandade e dos concílios. Cai o fim antes dos princípios. Caem os princípios principais e até os acessórios. Cai a Branca de Neve, o Arcanjo Gabriel, a Bela Adormecida, São Cipriano, a Cinderela, São João Batista, o Capuchinho Vermelho, Barrabás, Polegarzinho, Pôncio Pilatos e o Tintim no País dos Sovietes. Cai Marx, cai Lenine e Estaline a limpar as mãos ao seu lenço proletário. Cai o açougue do Gulag e o cemitério de Auschwitz. Cai Trotsky a empunhar a picareta para retribuir o gesto a Ramon Mercader. Cai Frida Khalo a copular em ferros com o seu mais recente amante de ocasião. Cai Salman Rushdie, os versículos satânicos, Gibreel Farishta e Saladin Chamcha. Cai Ruhollah Musavi Khomeini aos trambolhões, cai Alá e os seus profetas. Cai Astérix com o Obélix às carrachulas. No meio desta trovoada, cai o muro de Berlim, o Kremlin e o Vaticano. Cai Ernest Röhm aos beijos biónicos a Adolf Hitler. Cai o medo. Cai a tristeza. Cai a alegria como se fosse ácido sulfúrico. Cai a Grécia e as brilhantes faculdades da experiência e da nossa e da vossa consciência. E caem homens maduros com as faces incendiadas, crivados de rouquidão, desespero e morte. E caem querubins, mandarins e malandrins. E molochs e meninas prendadas e almas magnéticas e filhos de Pã e esferas preciosas e gente de duplo sexo e dupla personalidade. E também caem pessoas de esquerda e de direita. E loiros e morenos. E surdos e mudos que dançam ao som da sua música interior. E árvores que pelejam entre si por mais um pouco de dióxido de carbono. E também caem do céu provérbios e orações. E caos. Caem ainda os versos infantis de Fernando Pessoa encavalitados nos poemas de vocação animal do Herberto Hélder e os pombos que são a santíssima trindade a querer levantar voo. E cai Dom Quixote e Sancho Pança e o Rocinante e um burro verdadeiramente ajaezado à andaluza. E cai Mário de Sá Carneiro assentado em Florbela Espanca. Cai mais um ano e depois mais cem e mais mil e ainda outros mil. Caem novas revoluções de veludo e de chita e de plástico. Cai paz e guerra. Cai guerra e paz. E, agarrado a elas, cai Tolstói. Cai também Anna Karenina, o pecado da luxúria e o esquecimento. Bem vistas as coisas, o esquecimento está sempre a cair em cima de nós como uma morrinha. Por isso, nem dele nos apercebemos. Caem Kusturikas e chimpanzés, Fellinis e bidés. Cai-nos também a alma aos pés. Caem peregrinos e touros e aves de arribação. Caem desempregados e patrões, putas e letras maiúsculas. E reis decapitados e bobos da corte. Muitos bobos da corte. E fidalgos e pupilas. E padres e bispos e papas pedófilos. Finalmente, desabaram em cima de nós todos os pecados do mundo. A elegância, a ciência e a violência. E nós de olhos espantados a manobrar a estupefação.

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