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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

20
Jun24

Poema Infinito (718): A conta de Deus

João Madureira

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Buraco negro. Buraco dourado. Buraco branco. Esperanza Spalding a cantar. E a gemer. De espanto, de espanto, de espanto. De amor. De desespero. E a falar de esperança em três tons diferentes. E todos nós juntos a viver tempos de controvérsia. Fizeram-nos três mil maldades e mais outras três mil nos farão ainda. Ardem as fêmeas, ardem os machos. A Idade Média é o tempo da realidade. O Século das Luzes é uma mistificação. Todo um povo, de olhar baço, a caminho do matadouro. Anda tudo a beber vinho às escuras da modernidade. Três ameaças, três virgos, três pessoalíssimas pessoas da santíssima trindade. Três espíritos esvaziados. Três crepúsculos da tarde. Três orgasmos envelhecidos. Três tristes tigres. Três tristes pénis. Três tuberculosos pastorinhos. Três virgens aparecidas. Três vaginas simétricas. Três terços despedaçados. Três orifícios. Assimétricos. Três cenas. Obscenas. Três andorinhas.  Sem primavera. Três primaveras. Sem andorinhas. Três fadistas sem fados. Três fados fodidos. Três noivas à solta. Três capuchinhos vermelhos. De carnaval. Com o fogo não se brinca. O fogo queima. O fogo arde sem se ver. O fogo sem fumo. Três capacidades distintas para a deceção. Três exceções à regra. Três anjos a subirem pela árvore do pecado. Três anjos a descerem pelo falo da virtude. Três instrumentos de sete cordas. Três ressurreições e outras tantas crucificações. Não há pão, não há vinho, nem flores na laranjeira. Jeová sofre. O Demónio sofre. Os santos padecem da fé incurável em acreditarem. Vénus não é uma deusa, não é um planeta. É uma camisa. Três vezes me hás de negar antes do galo cantar. Três são as pessoas da santíssima trindade. Três são as pessoas da santíssima trindade. Três são as pessoas da santíssima trindade. Três é a conta que Deus fez. Três batismos. Três, três, três, cavalos livres, livres, livres. Conheci três metáforas na praia. Três ondas as levaram. Usei três eufemismos. E os três se transformaram em metáforas obscenas. Três tristes freiras. Três franciscanos sodomitas. Três tristes caralhos. Dos três aprendizes de feiticeiro apenas um sobreviveu. O que comprimia quadros de Rubens. Três cigarros acesos. Três queimaduras circulares. Três pirâmides do Egito. Três símbolos sexuais em três quadros de Picasso que foram inspirados em três homotetias adjacentes com cuequinhas astrolábias. Três amores-perfeitos. Três trevos de quatro folhas. Três virgos, três rendas, três bilros peregrinos. Três princesas de encantar. Alguém lhes tirou os três que foi a conta que Deus fez. Quem poupa o lobo sacrifica as ovelhas. Três ovelhas e um lobo. Três lobos e uma floresta. Três vasos, três penicos, três estrelas Michelin. Um, dois, três. Um, dois, três. E vira. Três almoços, três jantares, três bebedeiras de encantar. Três sóis, três luas, três romances à beira-mar. Come a papa, papá, come a papa. Limpa a baba, papá, limpa a baba. Três vezes te hei de mudar a fralda antes de te ires deitar. Três rosas com bolor enfeitam a mesa. Três remorsos me virão apoquentar antes do dia terminar. Três vacas vão a caminho do matadouro. Três bifes a caminho do prato. Três ovos para a incubadora. Três perdizes criadas em cativeiro voarão para que três caçadores as abatam ainda antes de tomarem altura. Abriu a época de caça no paraíso. Apocalipse now.

17
Jun24

686 - Pérolas e Diamantes: Lágrimas só depois de...

João Madureira

Apresentação3-2 - cópia 8 (9).jpg 

Oiço a reverberação da voz da minha mãe a gritar a mim e ao meu primo para não vazarmos os olhos um ao outro por andarmos a correr com paus, ou a chapinhar na água e na lama a assustar os patos da vizinha. A vida tem destas coisas. As memórias de infância nem sempre são divertidas. A solidão tem as suas profundezas e as suas impurezas. Mais tarde começámos a praticar tiro ao alvo – o riacho estava cheio deles – com uma espingarda de pressão de ar que disparava chumbinhos bons para matar pardais. A minha pequena mente tinha então um jeito especial para imagens. Por isso, os olhitos dos pássaros mortos ainda andam dentro da minha cabeça aos embolões. As parvoíces que uma criança pensa e guarda em vez das questões importantes, tipo qual o sentido da vida ou qual a importância do humor dos Monty Python na estruturação intelectual de uma pessoa normal? As pessoas são sempre um bocadinho mais parvas do que aquilo que pensamos. Nós incluídos, como não podia deixar de ser. Já agora, eu e o meu primo, mais frequentemente do que era razoável, dávamos pontapés um ao outro, sempre que perdíamos nos jogos que disputávamos. Provavelmente vivíamos num vale, pois o Sol chegava tarde e ia-se embora cedo. O pai permanecia quieto e fumava cigarros uns atrás dos outros. Eu fazia que ouvia os pássaros. E olhava para ele. Sempre que ele não olhava na minha direção. Um dia disse-me que gostava muito de mim. O que foi estranho, pois o meu pai geralmente não fazia esse tipo de confissões. Ele não se confessava nem ao padre. Chegar ao fundo desta questão levaria o seu tempo. E eu não estou para aí virado. Lágrimas só depois de dar o texto por concluído. Naquele tempo não tinha olhos a medir. Atualmente tenho máquina fotográfica. Lembro-me que ao virar da esquina saía logo da vila. Antigamente as coisas eram mais simples: pessoas, pessoas, crianças, crianças, animais, animais, carros de bois, carroças e um que outro automóvel. Agora é carros, carros, carros, pessoas, pessoas, cães, gatos, crianças, skates. E os castelos eram sombrios. Agora estão cheios de luzinhas a piscar. Dizem que o Natal é permanente, pois os homens assim o querem. Vá lá, os homens, as mulheres e, sobretudo, as crianças. O mundo está cheio de gente parva. Peço desculpa pela confissão, pois eu, tal como o meu pai, também nem ao padre me confesso. Se fosse no tempo da Spanish Inquision outro galo cantaria. Mas. Lembro-me também que líamos livros insalubres à luz do luar para pouparmos na eletricidade. E os meninos andavam com as calças remendadas. A minha mãe era tão boa a remendar que ninguém conseguia distinguir a parte remendada do resto. Também era ela que me fazia as camisolas com um par de agulhas e um rolo de lã que eu ajudava a dobar em novelo. Muitas vezes eu sentava-me no escuro a observar as réstias de luz que vinham de fora através das frinchas das portas. E queria coisas. Qual é verdadeiramente a sensação de querer? E descascava o papel de alumínio das pastilhas elásticas devagarinho, punha-a na boca e por ali ficava a mastigá-la até ela perder o sabor a fruta e se transformar em rotina. Também me lembro de visitar o jardim zoológico e de observar tigres, leões, girafas, elefantes e macacos. Macacos que se irritavam facilmente e nos atiravam as cascas dos amendoins que os visitantes lhes davam sorrindo como chimpanzés. Era nos dias de calor onde os animais sofriam tanto ou mais do que nós. Nos meus sonhos atuais o tempo já não tem tempo para ter tempo. Entretanto eu olho para ele com um ar assustado. Quando ia para a colónia de férias, a minha mãe fixava-me com os seus luzeiros grandes e brilhantes e dizia meia a chorar: “Não te esqueças de mim.” O que eu achava uma estupidez. Afinal, quem é que se esquece da sua mãe? Agora, que já se foi, lembro-me dela todos os dias. Chegar ao fundo desta questão levaria o seu tempo. E eu não estou para aí virado. Lágrimas só depois de dar o texto por concluído. Os olhos veem sempre o que têm interesse em ver. A memória procede da mesma maneira. Aprendi devagar que muitas coisas ganham força quando são postas em palavras. Chegar ao fundo desta questão levaria o seu tempo. E eu não estou para aí virado. Lágrimas só depois de…

13
Jun24

Poema Infinito (717): O fogo da ternura

João Madureira

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O Bulgákov tardio oscila entre o cómico e o medonho. A insistir na felicidade ponderável. Que o Diabo a leve. A ele não, pois não o merece. Ele sempre no lado interior das coisas. Ninguém ganha o debate revolucionário. Todos acabamos por perder. Parece que o terror dá energia, pois vaza a realidade de um lado ao outro. Consegue tornar a água em alfinetes de gelo. Voltou a sensação de conforto. A sensação de uma contínua densidade. O presente é uma ilusão, pois não existe. Alguém golpeou o pinheiro de Natal e ele ficou cheio de resina. Assim arderá melhor quando se lhe acabar a utilidade festiva. A fé na urgência apressa a aproximação da desgraça. Mandelstam que o diga. Tudo o que é branco acaba por ser vencido. O movimento não foi concluído, mas é irreversível. O retorno é impossível. Quando o tempo produz o seu barulho fica fora de linha. As utopias coletivas são sempre suicidas. Acreditar na bondade do flautista de Hamelin continua a ser arriscado. Todos reconhecemos o nosso mundo doméstico através dos seus cheiros e dos seus sons. E, até, dos seus silêncios. Da repetição dos seus silêncios. E do fogo da ternura a arder na cozinha. A ternura infantil e familiar é sempre coisa do passado. É uma memória após deixar de existir. A existência infantil é pragmática, apesar de dizerem o contrário. Este vazio está cheio de ruas e pedras e sentimentos escangalhados. E de aulas de catequese e de tédio e de heróis derrotados. E de outros vazios. E de fragmentos dilatados do tempo. Do tempo vazio que ninguém preencheu. A estes vazios, e às suas lacunas, não há luz que os ilumine. Nem Deus. Os animais domésticos andam aos tombos. E os móveis. Depois tudo paralisa. A teodiceia engoliu tudo: o espaço, as interrogações e até a Arca de Noé que se incendiou e obrigou todos os seus ocupantes a lançarem-se ao mar. Pensaram que é preferível morrer afogado a ser consumido pelas chamas. A vida parece oblíqua como a chuva puxada a vento. O mundo dos vivos está cheio de estranhas transparências que impedem uma visão focada da realidade. Sopra em nós uma espécie de vento interior. A força da gravidade continua a funcionar. Razão mais do que suficiente para não nos apressarmos. Dentro das gavetas estão fotografias e textos que são como impressões digitais. O tempo anda a tentar enevoá-las ao máximo, a desfocá-las, a torná-las nebulosas, impessoais. E nunca precisou de se apressar. É tarefa ingrata cobrir as estátuas para não apanharem frio. Para que as coisas sejam visíveis, apenas é necessária uma dose equilibrada de luz. Os fragmentos da memória continuam a cortar-me a pele como placas de vidro fino. Entre eu e eles, pende agora uma cortina feita de fios tecidos à mão. Algumas memórias parecem velhos bonecos ocos de barro comprados na feira, a flutuarem num poço, pois não se conseguem afundar. O seu olhar é indiferente, fazendo lembrar pequenas unidades de humanismo que muitas pessoas colecionam e enfiam em caixas de papelão. Bonecos feitos sempre com os mesmos moldes, com material barato e cozidos à pressa. Bonecos todos idênticos. Sentimentos todos iguais. Memórias defeituosas. Os seus olhos brilham como estrelas frias, onde não há calor nem objetivo. A cada nova estrofe, a velocidade do esquecimento aumenta como um trenó a deslizar na neve. A cada nova estrofe… a cada nova… a cada… a…

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