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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

19
Set24

Poema Infinito (728): As peónias preparam-se para...

João Madureira

ORIGINAL (7).jpeg 

Os olhos estão cheios de mistérios, depositando confiança nas árvores que nos rodeiam. São criaturas densas e imóveis. Frágeis. Dependendo da vontade humana. Do ponto de vista da natureza, não há seres úteis ou inúteis. Apenas os seres humanos aplicam essa estúpida distinção. Um rouxinol fechado dentro de uma gaiola enfurece o cosmos. A avó anda meia curvada, com a mão apoiada nas cruzes e com um ar dorido. Suspira. Senta-se. Volta a suspirar. Levanta-se e vai sentar-se um pouco mais à frente, para aproveitar uma nesga de sol. As peónias preparam-se para florir. O mundo está agora coberto por um fino véu dourado. Alguém destruiu os nossos lugares de infância onde passávamos as férias grandes, os bancos de jardim de madeira pintados de branco, onde descobrimos os primeiros amores. Agora é tudo um pouco mais doloroso. Era ali que o senhor José se sentava, tirava uns pedaços de tabaco de um saquinho de plástico e começava a enrolar um cigarro. A luz do mês de junho era de uma bonita tonalidade azul. Ali estávamos sentados no pomar sob a velha macieira, onde as maçãs já amadureciam. O pomar sussurrava por cima de nós, exalando perfume. Perdíamos a noção do tempo. Nós a falarmos como faunos do bosque. Meio pessoas, meio animais. A avó tinha uma voz fina e vibrante. A noite em nosso redor tilintava. A avó parecia estar a rezar. Perguntou-me se eu era religioso. Respondi-lhe que sim, que era ateu. Ela ficou a olhar para mim como se não tivesse compreendido a resposta. E disse que alguém nos andava a comer os morangos. Respondi-lhe que Deus, o nosso, não devia ser. Ela tornou a olhar para mim como se não tivesse compreendido. É estranho ver como a noite apaga todas as cores. A voz da avó soa agora na minha memória como se viesse de outra dimensão, onde as árvores têm milhares de anos e os animais se movimentam em câmara lenta, à margem do tempo. A avó aprendeu a fazer sozinha as coisas difíceis. A sua imagem continua a esbater-se, a dissipar-se, até dela ficarem os seus olhos azuis, a sua grande trança grisalha, suspensa no ar, paradoxal. Tudo passa. Deus sabe disso desde o início da criação. E não o lamenta. Depois da chuva do verão ouve-se a erva a crescer como um murmúrio, as heras a treparem pelas paredes, o micélio  a expandir-se, debaixo dos nossos pés, para eclodir, e tudo a adquirir profundidade. Os morangos parecem estar esgotados. E entristecidos. Os insetos começam a transformar-se em húmus e depois em musgo. As sombras iniciaram uma dança à espera do lobo mau. São agora os lobos que nos dão lições de justiça básica. Nós temos uma visão do mundo, mas os animais possuem um sentido do mundo. Uma espécie de sonho incompleto espalhou-se pela casa. A avó e a mãe envergam vestidos às flores e pegam nas malinhas de mão de forma nervosa. Estão prontas para ir à missa. É domingo. Tentei falar-lhes mas fiquei com a voz embargada. Oiço ruídos de coisas. E sussurros crescentes. Acordo. Uma neblina delicada eleva-se sobre os muros e as árvores e converte-se em orvalho. A ocorrência de infelicidades continua a estar acima da média. A configuração das plantas na floresta diz-nos que há fortes razões para isso. A mãe e a avó, saídas do meu sonho, regressaram da missa e foram sentar-se junto à lareira. Sorriem para mim como quando eu era pequeno. Tudo aquilo que somos capazes de imaginar faz parte da nossa verdade. Os átomos da felicidade aparecem e desaparecem com uma velocidade estonteante. Elas olham fixamente para mim. Não consigo interpretar esse olhar. 

16
Set24

698 - Pérolas e Diamantes: A direção correta

João Madureira

Apresentação3-2 - cópia 3 (6).jpg 

Os burros da democracia são pequenos. Os burros do fascismo eram grandes. Bem vistas as coisas, nem sequer os historiadores percebem bem a História. Nem as histórias. Os burros pequenos são bons de substituir. Já os grandes eram outra coisa. Morriam vitimados pela fome urgente. Tudo era tão lento antigamente! As horas infinitas. As segundas-feiras cheias de urtigas. A tristeza perpétua. A esperança inexistente. A pátria a chamar por nós. Ultramar. Mentiras e derrotas transformadas em vitórias e verdades. Nós sempre os peões do xadrez. O silêncio. O amor e o silêncio. O amor. O silêncio. O silêncio. O silêncio. O ultramar. Nós na escola a afagar mentiras. E a suportar as reguadas do professor. E a rezar orações para que a palmatória do verdugo de crianças se quebrasse e lhe batesse na testa para o fazer chorar. Ou arrepender-se. Por vezes o passado irrompe pelo presente e provoca calafrios. Tanta coisa começou a correr para tropeçar e cair a meio do caminho. Faz parte da história. Continua a ser triste ver homens a vender passarinhos engaiolados. Ou lembrar beatas a espanarem o pó aos santos. Ou a recordar o som cavo do vómito dos bêbados ao saírem das tabernas. Ou a rememorar a ida às hóstias para o padre Zé e a recompensa de ficar com as sobras do pão ázimo. Ou as manhãs de domingo a ler os livros de banda-desenhada do Mandrake, do Flash Gordon, do Cisco Kid, do Luís Euripo e do Príncipe Valente. Ou os mergulhos de mar na colónia de férias. Ou as cabeçadas dos robertos nas feiras. Não sei se me consigo salvar no meio deste turbilhão de memórias. Há gente que diz escrever crónicas. E escreve-as, de facto. A ser assim, porque assim é, eu escrevo outra coisa. Situações, intrigas e pretextos de superfície ficam para os sábios, que são os sabidolas de sempre. É duro andar atrás da verdade e encontrar a mentira. É ainda mais duro investigar a mentira e encontrar a verdade. Nada é aquilo que parece. Olhamos para o interior e vamos perdendo o sentido. Consomem-nos os anjos e os demónios, as leituras, as abordagens e a solidão. E os mal-entendidos e os despojos dos dias. E as narrativas sem factos. E os factos sem narrativas. Em verdade, em verdade vos digo, o bem não é feito de círculos concêntricos. Eu procuro, como muitos outros, o sentido da vida, mas nesse descaminho apenas encontro os Monty Python a escreverem as piadas mais sinistras e inteligentes do mundo. Always look on the bright side of life. Na volta cá os espero. Todos almas do Purgatório a aquecerem-se nas labaredas das palavras e nas imagens do catecismo. A piedade é toda gasta em churrasco e minis. Mas, verdade seja dita, cada um de nós oculta dentro do seu peito um coração sensível. A verdade é que no Purgatório apenas se apanham queimaduras de segundo grau. Ou seja, dá para aguentar. O vento traz da serra o cheiro enjoativo das mimosas. Não sei que horas são neste mundo onde elas estão por todo o lado. O tempo antigamente ficava lá longe. Agora está aqui perto de nós. À espera. E nós à espera dele. E ele à espera. De nós. Não há como fugir-lhe. Jesus tinha razão quando avisava, no Evangelho de São João : “Não entendeis o que eu digo porque não entendeis o que eu penso.” Uns morrem de juventude e os outros de velhice. Isto continua a não fazer sentido. Dizem que o furor poético nasce da desordem. Isto continua a não fazer sentido. Metáforas indiretas são agora a minha fonte de alimentação. Provavelmente, não se desce de uma cruz vivo. Essa é a minha certeza religiosa. Saint-Exupéry dizia que é preciso gostar das pessoas sem o mostrar. E eu a tropeçar neste entendimento, nessa ternura vigilante. A revolução faz-se por dentro. Será que os anjos usam óculos? Alguém voa por cima dos pesadelos. E eu a beijar o orvalho. À espera. A embrulhar um sorriso como se fosse um pastel de Chaves. A inclinar-me para trás por causa da dor nas costas. A cruzar as pernas em sentido contrário. A esconder a aflição debaixo da ironia e a discutir a ilusão da literatura. A vigiar o desleixo. As palavras não consolam. Os anjos, além de míopes, ficaram obesos. Nos sonhos de criança não cabiam as angústias da prosa. A direção correta é uma coisa invisível.

12
Set24

Poema Infinito (727): A noite começa a soprar...

João Madureira

IMG_4383 - cópia 2 (7).jpeg 

A noite começa a soprar o vento. O silêncio é denso. A poeira vai cobrindo as ruas e o tempo que por elas passa. Sente-se a desintegração das partículas flutuantes. Daqui veem-se as silhuetas das pessoas mexendo-se neste aquário de ar. A tristeza atravessa só agora a rua para não morrer de vergonha. A Bela vai por um lado. O Monstro segue pelo outro. Neste poema não se encontram. Nem no seguinte. E, no terceiro, veremos. Daqui podemos observar o corajoso e arrojado capitão Serra, que manda embarcar os outros e fica ele em terra. Vamos tentar de outra maneira. A noite está acalorada. Não sopra a mais leve aragem. A poeira está estática. Visitas demasiado longas atrapalham-nos a paciência e plissam-nos a vontade sexual. Passa o tempo e ninguém nos explica a morte. O que não tem explicação, explicado está. Passa tanto tempo sobre o pouco tempo que os princípios científicos vão às malvas.  Paco de Lucia cruza a perna e toca a sua viola. Tanta mestria apaixona e enfastia. Vou tentar de novo. Palmas palminhas palmas. Ritmo. Guitarradas. Flamenco e ai e olé. Esgota-se esta música que nos esgota. Ramos de flores moles enfeitam a festa. E nós todos despenteados. Ou descompostos. Ou ambas as coisas. A pingarmos lamentos ou discursos esquecidos. As inércias aí estão a ponto de se iniciarem. A verdade não se expressa nos rostos. A verdade não é pura. Apenas a mentira costuma ser assim apresentada. Não vale a pena enterrar a infelicidade, ela nasce por aí como erva boa. E tudo volta ao princípio. O café a fumegar. O amor a suspirar. E todos a irem para a igreja numa atitude de urgência. Todos a dirigirem-se para a inevitabilidade da morte. Até os prémios Nobel ficam com a dicção afetada pela distinção e pelas próteses dentárias. E pela miopia dos eleitos do júri e pela dos laureados. Depois dos bombardeamentos catastróficos seguem-se as epidemias bíblicas. Ninguém suporta a densidade de narrativas extravagantes, tão enxutas de ênfases, tão empoeiradas de poalha de rosas brancas e de cravos vermelhos e de lírios roxos. E de abraços frágeis. Ninguém suporta essas náuseas. Geniais. E os borrachos a olharem o infinito. E os génios, da lâmpada, apagados e melancólicos, a empoeirarem-se de solidão. Humor, a quanto obrigas. Tantas são as evocações, que já não há santos para acudirem a tanta vacuidade. Monólitos a invadirem as praças. Vamos tentar uma terceira e última vez. O vento das cinco horas da tarde leva para longe as oradoras absortas na sua mensagem mumificada pela poeira do tempo. As raparigas púberes ouvem os lamentos dessas mulheres vestidas de negro. Outrora desfilaram por aqui percorrendo as ruas a menear provocadoramente as ancas e a espalharem desprezo pela moral e pelos costumes. Putas e santas são cara e coroa da mesma moeda. As pecadoras e os pecados começam a levitar. E os pasmados dos homens a vê-las subir aos céus. E o poeta Mezena a discursar no enterro da Rainha Isabel – a tal que cantava rancheras: “Já não há valquírias como tu, querida amiga”. E o Caetano Veloso a cantar “cucurucu paloma”. E uma criança a desenhar patos pequeninos. E o espírito santo a transformar-se em pomba abençoado por Fernando Pessoa com as saias da mãe do Alberto Caeiro vestidas. Sim, Ricardo Reis, este é um carnaval alucinante. Ou um chá no meio do deserto. Alguém bate à porta. “Entra”, diz João Villaret: “Tocam os sinos na torre da igreja…”

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