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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

09
Set24

697 - Pérolas e Diamantes: Urtigas

João Madureira

Apresentação3-2 - cópia 2 (8).jpg 

Por aí andam espalhados os servis que não possuem qualidades, apenas pretensões. Há também os eremitas que, mesmo estando presentes, estão ausentes. O orgulho tem os seus inconvenientes. Todos o sabemos. Ainda continuo a ter uma arreigada fé nos velhos relatos. Por vezes prefiro ignorá-los para não me preocupar ainda mais com aquilo que não merece preocupação. O entusiasmo já enfraqueceu. Mas. Mas, por vezes, experimento uma estranha vontade de rir. Outras, as lágrimas afloram em meus olhos. Foram os desgraçados dos livros  que fizeram de mim um romântico. E um sonhador. Nada disso me favoreceu. O desenvolvimento da inteligência e da cultura tem sempre consequências imprevisíveis. E nada despiciendas. As ilusões magoam. Sei-o agora. Mas. Mas mais vale tarde do que nunca. O tempo não está bom para passeios. Nem para devaneios. Dizem que a franqueza faz honra. É tudo treta. Por vezes ainda se ouvem os ecos da flauta tocada pelo flautista de Hamelin. Nós tardamos a esquecer aquilo que nos causa embaraço. Os ratos de agora não se apanham com trigo roxo. São filhos do autoproclamado homem santo, Rasputine, que vomitou o veneno que lhe ministraram por causa de uma úlcera crónica. A literatura faz-me confundir realidade e sonho. A confusão tomou conta das minhas memórias. A leitura do catecismo. A luta diária. A mudança das estações. As manhãs geladas. A campainha da escola. As noites escuras e frias. A sala de aula. As tardes vagamente iluminadas e mal aquecidas. As fatias de pão com manteiga. Os livros dobrados no cantinho da margem. As ardósias estaladas. As reguadas. Os cadernos molhados de lágrimas. Os cortes de cabelo à pela-porcos. Os domingos chuvosos. O toucinho grelhado no espeto. As férias grandes. Os banhos no rio. Os primeiros namoricos. Pausa. O cavalo indolente do tempo parte mais uma vez com o seu passo acostumado. O que é, para mim, grande motivo de reflexão. As mãos do tempo que pegam nas correias do cavalo são agora mais magras e brancas, parecem até transparentes. Olho para o lume e penso que o fogo também se extingue. A mãe e o pai já se foram há muito. Desse borralho já não surge calor, apenas um pouco de luz estelar. Vamos lá então remover as brasas, espevitar as velas e tomar o chá, com um pouco de aguardente velha. O velho sentimento familiar penetra na casa, como se fosse um sopro de ar frio. Aproximo-me das memórias com passinhos de lã. Permanece o mesmo ar frio e a luz a extinguir-se. Lembro-me de ouvir, sozinho, o relógio da igreja bater as horas de inverno. Sentado no quarto. Triste. Triste o quarto. Triste eu. Tristes as horas. Triste o sino. Triste o livro sobre o qual eu estava debruçado. Tristes as memórias do recreio da escola quando a respiração dos rapazes se transformava em vapor e subia no ar. E eles a soprarem nos dedos para atenuar o frio. E a baterem com os pés na terra para aquecerem os pés. E eu, de olhar vazio, a espreitar para as memórias, sem as poder encarar de frente. Brilha agora o vazio. Tenho um certo medo de acordar os mortos. Ou melhor, as suas memórias. Lembro-me das palavras duras dos adultos a equivalerem-se a pancadas. Algumas memórias dançam comigo ao crepúsculo. Ativo o lume, mas o humor não melhora. As ausências já são mais do que muitas. Algumas memórias riem-se sem olharem a meios. Outras choram. Outras fazem de mim um vincelho. O vento varre o plaino, exatamente como outrora. Agita as folhas. Ajuda as aves a voar mais lá para o alto. Pausa. O avô costumava, nessa altura, contar uma ou duas histórias bizarras e desorientadas. Sem moral. Lembro-me que o tio João se costumava rir aos solavancos. E a avó se refugiava num azedume passageiro. Há sempre dificuldades em penetrar nos dédalos da moderna Babilónia. Há os que bebem. E existem os que se babam. A efusão de confiança é uma coisa bonita de se ver. Nem sempre o caminho mais curto é o melhor. Estou comovido. Quase tanto como quando tive de me separar do meu cavalo de pau. Passei a andar a pé e a brincar sentado no escano. A paz dos domingos reinava até à madrugada de segunda-feira. A paz das manhãs domingueiras eram quase santas. Saíam cânticos das igrejas. Os fiéis primeiro iam inquietos e depois regressavam irrequietos. Nisso residia toda a diferença. Depois seguia-se o almoço e uma tarde pasmacenta. E logo após vinha o dia seguinte. Segunda-feira era como caminhar num campo de urtigas.

05
Set24

Poema Infinito (726): Os lugares geográficos da paixão

João Madureira

21894404_Z8kkg - cópia 2 (9).jpeg 

Estou dentro dos dias mais frios, junto ao mar de dezembro, a olhar para o Natal à procura das pequenas histórias, a reconhecer na neve do Larouco os passos da Senhora Mãe, enquanto na mesa da taberna se bebem copos de vinho e se trincam pedaços de pão e presunto. O tempo constrói-se com sílabas e destrói-se com células. É estranho estar a escrever à tarde, sentado no velho escano junto à lareira. Isto desde manhãzinha. Existe um lado de engano dentro desta poesia. Daqui todos os ângulos parecem iguais. E o pátio da escola um quadrado perfeito. O Sol nasce sempre do mesmo lado, estendendo-se pelos atalhos, inundando de luz os lameiros, aquecendo as vacas, benzendo as igrejas. Olho para a sua luz refletida pelo rio com os olhos em silêncio. Ainda conservo nos bolsos da velha samarra migalhas de amor. Ai daqueles que domesticam pensamentos libertários, criticam as cigarras e dizem adorar as formigas! Ai deles! As certezas do mundo costumam transformar-se em desilusão. O que nos salva é a eterna procura da fantasia. Tanto os sorrisos como o choro nascem sempre perto de casa, quando se procura sentido para as coisas, quando se fala com a luz e se dão os primeiros beijos. Alguém nos sopra para os ouvidos um pedaço de fé. E nós de joelhos, inseguros. Esse alguém também nos diz que algumas ideias são enganos. Nós rezamos, arrependidos dos pecados, pelos espaços intermédios entre as rimas e os ritmos. Outro sopro de fé. É necessário estar a salvo dos corpos. É bom evitar os sítios geográficos da paixão. Ninguém sabe como dela regressar. Quais os caminhos que nos podem fazer sair do labirinto. Espero. Portanto. Espero. Desespero. Portanto. Nem sempre há rios entre nós e o abismo. O vento desceu a serra. A neve enganou o dia com a sua brancura. Agora levo mais tempo a amar as coisas, a seguir o voo das aves, a decorar os rostos das pessoas, a perceber as amizades, a afiar o gume da minha navalha com que como a carne cozida e o pão centeio no dia de São Sebastião, na Vila Grande, na mesinha comunitária decorada com uma toalha alva de linho. Olho lá para o fundo da igreja, para o lado direito do padre que reza a missa, e estudo o latim das sombras e o assombro das almas que ainda não conseguem descansar em paz. Cismo com o Deus de Saramago. Rio-me para não chorar. Por vezes sinto que consigo olhar para os seres humanos com os olhos de Blimunda. Escrever poesia tem destas idiotices. Permite-nos pensar que temos um dom. Na lareira ardem as cores, o azul suave, o castanho quente, o verde atrapalhado, o amarelo tórrido, o vermelho sofredor. Lá fora, a luz líquida atravessa a neve que começa a derreter. O branco transformou-se num labirinto para os nossos os olhos. O mundo parece estar a ficar transparente. Tento entender a memória antes que ela mude de sentido. Tento esboçar sorrisos e articular gestos conhecidos para não a assustar. Tenho frio. Penso no sol. Em linhas de voo. Em algo eterno. A rotina é um ritual. Os desafios ainda doem. O corpo imóvel. Do pai. O corpo imóvel. Da mãe. Um adeus. Outro adeus. E logo outro. E ainda outro. Isto agora é sempre a somar. O que resulta na mais absurda das subtrações. A longa chama da solidão arde, como se fosse eterna. Algo me diz que está na altura de terminar este poema.

02
Set24

696 - Pérolas e Diamantes: Tiagos e serafins...

João Madureira

Apresentação3-2 - cópia 8 (11).jpg 

Para o bem todos os cuidados são poucos. Pois quase sempre se tem de romper por ele dentro, quer chova ou faça sol. Além disso é necessário ter fé. Senão ninguém aguenta isto. E ter instinto de sobrevivência, também. Quando soa a hora há que sair da cama. E pouco importa que chiem os carros e ladrem os cães. Cantam os galos para aí duas vezes e meia e o tranglomango põe-se de viagem e atravessa as poldras para cortar caminho. A voz da negação ficou rouca. Pedro ficou afónico senão, além de Jesus, também negaria Tomé e os dois Tiagos e João e Filipe e André e Bartolomeu e Mateus e Tadeu e Simão e Judas Escariote. Agora já não há contrabando, nem contrabandistas. Apenas existem comerciantes e homens de negócios. Só rumores e açudes de conveniência. Debaixo das pedras apenas sobrevivem lacraus e grilos brancos. Depois do roubo, há que esconder o seu fruto bem escondido. Mas os ladrões de agora já nem isso fazem com préstimo e enfiam-no em livros. Andam todos à coca. E relincham os burros porque querem ser compreendidos pelos cavalos. E zurram os cavalos porque pretendem ser entendidos pelos burros. E desentendem-se os homens. E o Demo a rir-se dos parvos, que somos nós todos. E os pobres a lazarar, pois, dizem as estatísticas, apenas no pequeno retângulo luso, são para aí mais de um milhão. Afinal, o sol da democracia, mesmo quando nasce, não é para todos. Para eles há mais eclipses do que os estudados. Há muito cuco a cantar pelos pinheirais. A consumição leva-lhes anos de vida. O problema é se não houver mão benigna que os contenha. Há cerca de cinquenta anos que lhes andam a dizer para terem paciência que de perto se vai ao longe. E eles sem saírem do lugar, sempre a andar à roda como o burro na nora. Com tanta cantoria, parece que estamos na aldeia nos tempos da velha senhora. Canta o galo, cantam as pegas, as melras e depois os rouxinóis. Seguem-se as rolas, o cuco e a poupa. Cantam os senhores abades o tantum ergo e chiam os eixos dos carros de bois. Vergam-se os homens e as mulheres na grande comédia da sujeição. E as vacas a ruminar e o vento a soprar e o sol atrás das nuvens a fazer-se de engraçado. E o Menino Deus lá na igreja à espera que o deitem nas palhinhas porque o Natal lá virá no dia certo. As grandes vacas benzia-as Deus Pai. As enfezadas tinham sido sopradas pelo Demónio. Os doutores possuíam muitas, mas poucos eram os que sabiam jungui-las. Tropicavam pelas lajes dos caminhos os tamancos ferrados, a caminho da feira. Em tempo firme costumava soprar o vento-cieiro, que varria as várzeas e levava, ou trazia, o som dos sinos. Era o tempo em que os garotos despertavam cedo das suas enxergas com a pila arrebitada por causa da bexiga cheia e a iam despejar fora de portas, ou vertiam águas mesmo da própria soleira. Havia muito remediado que era amigo de acudir a um pobre numa precisão. Um rico nunca o fazia. Havia mais pecadores que pecados. E todos os anos se dava uma epifania de Reis Magos, tontinhos todos três, atrás do ramo do cometa. Eram tempos em que as doceiras iam com cestas à cabeça para as feiras, os camponeses conduziam novilhos à corda e as mulheres mais afoitas seguiam por esses caminhos fora sentadas em burrinhas passeiras. Havia papagaios que arremedavam o cacarejo de galinhas poedeiras e homens que arremedavam os papagaios brejeiros. E as mulheres engravidavam muitas vezes e nem sempre dentro do casal. Havia muitos faunos à solta por esses bosques fora. Erguiam-se procissões por essas freguesias adiante cumprindo com votos antigos. Alçava-se cruz por tudo o que era outeiro. Os andores tinham andadas, umas sobre as outras, como se fossem torres. Muitas vezes era necessário esgalhar as árvores dos caminhos para eles passarem. E, em dias de festa, os serafins lá do céu, dançavam ao som da tocata dos clarinetes e dos pífaros. Em dias de romaria comia-se e bebia-se à tripa forra. Lá para o fim do arraial era certo e sabido que os da banda de cá, já bem bebidos, pegavam nos seus varapaus e iam pegar-se com os da banda de lá e acabava tudo à porra e à massa, como era tradição. Muitas vezes, era necessário ir buscar o médico que ficava a pernoitar na casa do padre para o que desse e viesse. Ainda me lembro da última vez que fomos com o meu pai à festa da Torre de Ervededo. Ele disse de forma premonitória: “Vinde à procissão que lá vai a sair. Vinde que pró ano já cá não estou.” A minha mãe balbuciou: “Olha lá saem os andores…”, enquanto lágrimas grossas lhe corriam pelo rosto.

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