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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

31
Jul25

Poema Infinito (771): Os homens ardiam

João Madureira

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Os homens ardiam. E as florestas observavam. As mulheres cingiam com as mãos os seios que amamentavam as suas crias. Os animais corriam para os abrigos. Quem observava com os binóculos sussurrava palavras indecentes. A paixão tem desenvolvimentos repentinos. O fogo quebra a coragem. Afasta os fiéis. Os homens santos ficam suspensos na orla dos rostos das mulheres pecadoras. Ou será o contrário? Este enredo está cheio de bênçãos. Uns sofrem. Outros riem. Onde está a justiça divina! Toca então a engolir os mistérios como se fossem saliva. A justiça divina e a injustiça humana parecem as faces da mesma moeda. É útil sonhar com coisa nenhuma. É tão inútil como as festas. São inúteis as palavras. Há mães que iluminam as pessoas e os lugares. Que dão luz às tarefas mais banais. A raiva faz apodrecer muitas palavras dentro de nós. Vamo-nos perdendo uns para os outros. Há quem goste de ir embora. Há quem goste de voltar. Há quem goste de ser filho pródigo. É impossível consertar o absurdo. Há quem se comporte como as partículas quânticas, conseguindo estar em dois lugares diferentes, ao mesmo tempo. E ir e vir sem sair do lugar. E correr nas duas direções. Tudo se transforma em mito. E os mitos em cinza. O amor. A amizade. A solidariedade. A igualdade. A beleza. O amor em brasa. O amor em cinzas. O borralho a amornar os mitos. A arte do compromisso está em esticar a corda sem nunca a deixar rebentar. E o amor aos solavancos. E os mitos ainda na corda bamba. E os segundos a olhar para os amantes e para o amor a prolongar-se. A paixão é como uma empada sem carne. Esgota-se na levedura. Lábios de uns a tocarem nos lábios de outros. Os olhos pousando em pontos indistintos do rosto como se fossem borboletas multicolores. O amor a percorrer pequenas distâncias, quase invisíveis. Mas é impossível parar o tempo nesse sentir. Tudo se transforma em vertigem. E depois desaparece. Não é possível voltar atrás para consertar as coisas mal feitas. O filho pródigo tem de prestar atenção. Tenho medo desta nova violência sobre a individualidade. Dos polícias das palavras. Dos juízes das ideias. Dos advogados do bom-senso. Das testemunhas dos assassinatos de caráter. Ai o tédio das hipóteses! Ai a fragilidade dos ímpetos! Ai a compulsividade de dizer a verdade! É importante aprender a retroatividade da transgressão antes que ela nos mate. Um bom poeta bom não abandona os seus versos. Gostaria que a minha poesia adquirisse a arte da água. Um retângulo de sol avança pelo chão na direção da fotografia dos meus pais. E os sons das vozes que vêm da rua a flutuarem entre mim e o silêncio. Tenho então a perceção do desaparecimento. Cada vez dependo mais das metáforas. Por vezes a descrença fica suspensa, na sua forma mais delicada. Preparo-me para a transcendência do dia a dia. A fugir às distrações, a pegar fogo aos anjos, a estender o olhar pelos campos, a tentar compreender o significado da música dos pingos da chuva: pling, plong, plang…, os princípios da sede, a medir a pressa do amor, a crescer para onde não devia. Eu a arder por dentro, enquanto lá fora a chuva inunda os campos. O velho gato brinca com fábulas em forma de bolas. Eu penso em Pavlov e no reflexo condicionado do seu cão. O meu neto espalhou pedaços de deus, impressos em papel de arroz, pelo chão.  A minha neta brinca com a cauda do gato. Anúbis começa a dar os primeiros passos. Este sono é intrigante.

28
Jul25

Duas epístolas carinhosas e determinadas

João Madureira

Apresentação3-2 - cópia 4 (4).jpg 

Uma

Escrevo-te de A. com muito carinho e determinação. Sobretudo com carinho, mas também com muita determinação. Agora ando muito determinado. E também carinhoso.
Ando determinado a candidatar-me a uma bolsa de estudos para o estrangeiro destinada a pessoas da terceira idade. É que eu gosto muito de estudar. Cada vez gosto mais de saber, porque saber é compreender e compreender é ir mais além. E eu quero ir mais além. Muito mais além. Mas mesmo muito mais além. Sempre mais além. E mais além.
Além disso, compreender é perdoar. E há por aí muita gente a necessitar de ser perdoada. Sobretudo muitos dos políticos do nosso país que prometem uma coisa e depois fazem outra. Mas a verdade é que uma coisa é falar e outra administrar. E para alguém administrar o país precisa de muita coragem e muito saber. Também necessita de muita paciência, pois os portugueses são ruins de aturar. Nunca sabem muito bem o que querem. Só sabem que querem. E é só nisso que pensam, no querer. Mas para querer com qualidade é preciso muito saber. E para saber também é necessário crer, crer em algo, nem que seja no Diabo. Porque quem crê no Diabo também crê em Deus e quem crê em Deus também crê no Homem e quem crê no homem também crê na mulher e quem crê na mulher também crê no pecado original e por isso mesmo crê nos animais, sobretudo nos animais que levam ao pecado, como a serpente do paraíso e daí até acreditar na criação do mundo é só um passo. Depois é relativamente fácil acreditar nas almas e no purgatório e no além e no batismo e no Natal. E é aí que bate o ponto. Eu já acredito em tudo, porque não acredito em nada. Até acredito que o Natal é a festa do nascimento de Jesus. E tu se não acreditas é porque és parvo, sem ofensa, claro.
Por hoje é tudo. Um abraço. PS - Não te esqueças de polir o cágado (Emys orbicularis) e de dares os biscoitos de Natal ao cão, daqueles que sobraram e estão no frigorífico. Ele adora. Vais ver que até te lambe as mãos.

 

A outra

Escrevo-te daqui de baixo. Escrevo-te daqui de baixo, das terras de C. esperando que estejas bem. Eu cá estou a gozar os rendimentos com muito entusiasmo e dedicação.
Com mais dedicação que entusiasmo, para ser rigoroso e sincero. Levanto-me logo de manhã cedo, corro junto ao rio, depois tomo banho, volto à rua e sorrio para quem passa. Depois passeio um pouco e vou tomar o pequeno-almoço. Bebo muito leite e muita água e como muita fruta fresca. Também leio os jornais no café ou nos bancos do jardim. A seguir passeio um bocado pelas ruas da cidade e, por vezes, paro para ouvir um pouco da música com que graciosamente nos brindam muitos músicos de Leste que por aqui passam. Cerca da uma da tarde vou almoçar a um restaurante pequenino que mais parece uma gruta. Mas a comida que servem é de boa qualidade. E bem sabes que isso para mim é que é importante. Depois desço mais algumas ruas, subo algumas vielas, percorro alguns recantos, visito alguns bairros e medito junto aos templos. Posteriormente, vou outra vez até ao café ler revistas científicas. Entretanto bebo mais leite e água, como mais alguma fruta fresca e sorrio para as pessoas que sorriem para mim. É muito frequente parar outra vez para ouvir mais música. Eu sou um rapaz simpático e educado, o que implica que por vezes compre um cêdê para dar de comer a quem toca e dar de beber a quem canta. É esta a minha obrigação. Também observo montras, varandas, janelas, portas, os desenhos dos passeios, os declives dos telhados, o empedrado das ruas da zona velha, os olhares dos gatos e dos velhos que se sentam junto à porta das suas casas para observar quem passa. Têm olhos tristes, os velhos. Olham para mim como quem olha para uma sombra. E isso dói-me muito. Dói-me mesmo muito. À noite, vou jantar a outro restaurante que mais parece o museu da casa da moeda. Tem um ar decadente e um pouco descuidado, mas a comida é boa e, como tu bem sabes, isso para mim é que é importante. Depois passeio mais um bocado junto às margens do rio e fico em paz com o mundo. Por vezes passam por mim pares de namorados sorridentes e eu sorrio também com muita satisfação. Eles quase sempre retribuem o sorriso. E eu torno a sorrir. Em certas alturas volto à rua principal e lá encontro novamente mais músicos a tanger os seus instrumentos. Então paro um pouco e escuto mais uma pequena modinha. Assim a modos que bem-disposto, ou vou para o meu quarto ler algum livro, ou dois, ou três, com intervalos regulares entre eles, ou, então, vou ao cinema, mas quase sempre saio de lá melancólico. Os filmes são de uma qualidade mais que desprezível. Mas eu gosto de ir ao cinema. Para mim é um ritual. Mais do que um filme, o que busco são lembranças e sensações dos meus tempos de cineclubista. Bons tempos. Por hoje é tudo. Um abraço. PS - Não te esqueças de dar os três porquinhos-da-índia à cascavel (Crolatus durissus).

24
Jul25

Poema Infinito (770): O silêncio

João Madureira

21894404_Z8kkg - cópia 2 (6).jpeg 

Antes do silêncio já existia silêncio. O silêncio vai abrindo caminho, ganhando espaço. O silêncio gosta de mandar no silêncio dos outros. O silêncio apenas acredita na sua própria certeza. O silêncio é uma espécie de dor. Não é bom para amar. O silêncio está depois do pecado e antes da salvação. O silêncio é Deus. Deus é silêncio. Quando o silêncio ferve, transforma-se em fogo. Aí está o silêncio a transfigurar a alegria em tristeza. O silêncio mata. Ou, quando não mata, mói. Destrói. Fabrica buracos de niilismo e aniquilamento. O silêncio é lento e possui a capacidade destrutiva da água. Quem se converte ao silêncio, acaba mudo. Quem sofre de contradições, acaba em silêncio. Os silêncios de morte são feitos de eletricidade estática. Há silêncios rápidos e outros vagarosos. Curtos e compridos. Os mais perigosos são os longos. O silêncio não gosta de esmolas, nem de restos. Ninguém o convence da bondade. Nem Deus. Se é que existe. O silêncio não responde a Deus. Nem Deus responde ao silêncio. Ao silêncio, nem as piranhas o conseguem devorar. Comer silêncio, emagrece. O silêncio já existia antes do Big Bang. O silêncio não tem memória. É indiferente ao que se passa à sua volta. Ele sabe que, mais cedo ou mais tarde, todos somos arrastados para lá. O silêncio continua a crescer como se fosse um barulho ensurdecedor. A linguagem do silêncio é um vazio constante. O ruído dentro do silêncio dura ainda menos do que as bolas de sabão. O silêncio acompanha os escritores na sua escrita, os assassinos na sua aberração letal, o espião na sua arte patriótica da traição. Todos os poemas se tornam inaceitáveis no silêncio. O silêncio alimenta-se deles. E dos presos políticos. E dos milagres. O silêncio é a verdadeira natureza dos milagres. A sua essência. Quem sussurra acaba por morrer dentro do silêncio. Quanto maior é o silêncio, maior é o milagre. Já algum dia alguém ouviu a voz de Deus? Deus é cego, surdo e mudo. As cartas são escritas em silêncio e lidas em silêncio. O comunismo fez do silêncio uma arte. O cristianismo vive dentro dele. Cultiva-o. E dá-o em forma de hóstia aos seus seguidores. O trabalho de Sísifo é feito em silêncio. No Monte das Oliveiras, Jesus procurou o silêncio para falar com o Pai. O Pai respondeu-lhe com outro silêncio profundo. O Filho morreu em silêncio. Maria chorou em silêncio com o corpo do filho ao colo. Na missa, os momentos mais solenes são celebrados em silêncio. De joelhos, mãos postas, olhos fechados e cabeça inclinada, em jeito de cordeiro sacrificial. A neve começa a cair lá fora, em silêncio. Os cães estão em silêncio. No meio do silêncio não há velocidade, nem lentidão. Entre aquilo que entendemos e aquilo que não entendemos existe um mar de silêncio. Os que acabam por cair nos buracos do silêncio costumam ficar sábios ou loucos. Ou as duas coisas em simultâneo. Dependendo do espaço e do tempo. E do que existir entre eles. A unanimidade do pensamento produz o mais mortífero dos silêncios. O silêncio total. O silêncio mais profundo foi o que se sentiu nos comboios onde os dissidentes da revolução russa seguiam diretos ao exílio e à morte e o dos judeus nos comboios dirigidos aos campos de concentração nazi. E Deus do outro lado do universo como se não fosse nada com Ele. Depois do silêncio existirá outro silêncio. A matéria é feita de átomos de silêncio. O silêncio é a morte.

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