Poema Infinito (771): Os homens ardiam
Os homens ardiam. E as florestas observavam. As mulheres cingiam com as mãos os seios que amamentavam as suas crias. Os animais corriam para os abrigos. Quem observava com os binóculos sussurrava palavras indecentes. A paixão tem desenvolvimentos repentinos. O fogo quebra a coragem. Afasta os fiéis. Os homens santos ficam suspensos na orla dos rostos das mulheres pecadoras. Ou será o contrário? Este enredo está cheio de bênçãos. Uns sofrem. Outros riem. Onde está a justiça divina! Toca então a engolir os mistérios como se fossem saliva. A justiça divina e a injustiça humana parecem as faces da mesma moeda. É útil sonhar com coisa nenhuma. É tão inútil como as festas. São inúteis as palavras. Há mães que iluminam as pessoas e os lugares. Que dão luz às tarefas mais banais. A raiva faz apodrecer muitas palavras dentro de nós. Vamo-nos perdendo uns para os outros. Há quem goste de ir embora. Há quem goste de voltar. Há quem goste de ser filho pródigo. É impossível consertar o absurdo. Há quem se comporte como as partículas quânticas, conseguindo estar em dois lugares diferentes, ao mesmo tempo. E ir e vir sem sair do lugar. E correr nas duas direções. Tudo se transforma em mito. E os mitos em cinza. O amor. A amizade. A solidariedade. A igualdade. A beleza. O amor em brasa. O amor em cinzas. O borralho a amornar os mitos. A arte do compromisso está em esticar a corda sem nunca a deixar rebentar. E o amor aos solavancos. E os mitos ainda na corda bamba. E os segundos a olhar para os amantes e para o amor a prolongar-se. A paixão é como uma empada sem carne. Esgota-se na levedura. Lábios de uns a tocarem nos lábios de outros. Os olhos pousando em pontos indistintos do rosto como se fossem borboletas multicolores. O amor a percorrer pequenas distâncias, quase invisíveis. Mas é impossível parar o tempo nesse sentir. Tudo se transforma em vertigem. E depois desaparece. Não é possível voltar atrás para consertar as coisas mal feitas. O filho pródigo tem de prestar atenção. Tenho medo desta nova violência sobre a individualidade. Dos polícias das palavras. Dos juízes das ideias. Dos advogados do bom-senso. Das testemunhas dos assassinatos de caráter. Ai o tédio das hipóteses! Ai a fragilidade dos ímpetos! Ai a compulsividade de dizer a verdade! É importante aprender a retroatividade da transgressão antes que ela nos mate. Um bom poeta bom não abandona os seus versos. Gostaria que a minha poesia adquirisse a arte da água. Um retângulo de sol avança pelo chão na direção da fotografia dos meus pais. E os sons das vozes que vêm da rua a flutuarem entre mim e o silêncio. Tenho então a perceção do desaparecimento. Cada vez dependo mais das metáforas. Por vezes a descrença fica suspensa, na sua forma mais delicada. Preparo-me para a transcendência do dia a dia. A fugir às distrações, a pegar fogo aos anjos, a estender o olhar pelos campos, a tentar compreender o significado da música dos pingos da chuva: pling, plong, plang…, os princípios da sede, a medir a pressa do amor, a crescer para onde não devia. Eu a arder por dentro, enquanto lá fora a chuva inunda os campos. O velho gato brinca com fábulas em forma de bolas. Eu penso em Pavlov e no reflexo condicionado do seu cão. O meu neto espalhou pedaços de deus, impressos em papel de arroz, pelo chão. A minha neta brinca com a cauda do gato. Anúbis começa a dar os primeiros passos. Este sono é intrigante.

