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Tento lembrar-me de uma frase de Henry David Thoreau: “Por cada um que surge com um lápis para desenhar ou cantar, surgem mil com um machado ou uma espingarda.” Dizem os entendidos, e quem sou eu para os contrariar, que uma das características iniciais dos votantes em partidos como o Chega, era a perceção de que se tratava de pessoas desempregadas ou com empregos aquém das expectativas, a quem lhes foi prometida, pelos vendedores da banha da cobra, ditos democratas, socialistas da treta ou social-democratas de pacotilha, vestidos com os fatos de homens ou mulheres da Regisconta, a felicidade da globalização e da integração europeia. Descobriram agora que foram deixados para trás. Foram os homens da Regisconta que criaram os cobradores do Fraque. E agora queixam-se, chorando lágrimas de Lacoste. Muitos deles rezam, vão a Fátima a pé ou cumprem promessas de joelhos para que a PJ, o Ministério Público e a diversas inspeções não os investiguem. Os devotos da Opus Dei são mais gente do cilício. Já os seguidores do rito do Avental são mais dados às videntes da bola de cristal. Eu desejo a uns que se defumem com os incensórios do bota-fumeiro de Santiago de Compostela e aos outros que joguem no tarot das pitonisas. Até porque ambos são gente singela que apenas pretende amealhar, nos offshores estrangeiros, dinheiro para uma reforma dourada em ilhas paradisíacas ou nas suas casas situadas nos resorts do Algarve ou na sua mansão com piscina num qualquer monte alentejano, ou na serra da Arrábida. Até porque a marosca dos apartamentos de luxo em Paris, lá para os lados do Trocadero, foi chão que já deu uvas. Apesar dos advogados de um ex-primeiro-ministro dizerem que elas estão verdes. Convém lembrar que o mesmíssimo Salazar, apesar de velho seminarista, católico, apostólico e romano, não prescindia dos sábios conselhos do seu bruxo de serviço. Mas, voltando de novo ao que nos trouxe aqui, recentemente tínhamos a perceção de que culturalmente as coisas estavam definidas, que caminhávamos numa determinada direção, mas a interculturalidade e os seus papagaios, deram cabo de tudo. Foi a própria mensagem que matou o mensageiro. Aquilo era tudo treta. A montanha pariu um dinossauro anão. Esse momento atingiu o seu pico e estamos a entrar num período cultural diferente. O voto em partidos da direita radical são um sinal de que algo telúrico está para acontecer. A fronteira entre a direita e a esquerda erodiu-se. Vemos zonas do país onde o voto passou da esquerda moderada e até radical para a direita radical, de um dia para o outro. Os eleitorados dos partidos mudaram. Pensávamos que isto nunca iria acontecer. E agora estamos surpreendidos. Este é um momento de declínio. Os timoneiros, sejam eles nacionais ou autárquicos, salvo raras exceções, são manipuladores. A informação não lhes interessa. Eles são os homens da propaganda. Eles conquistaram o poder através de um tipo de coreografia enganadora. As pessoas não leem. Deixam-se levar pela emoção. Os novos tribunos políticos são os principais cultores da autoimagem. Uma autarquia é uma espécie de instituição híbrida entre um grupo de futebol e uma banda filarmónica. Entre uns doutores de cacaracacá. E outros de quiquiriquiqui. Com engenheiros e arquitetos com cunhas daqui e outras dacolá. A única fronteira ideológica é a da irrelevância e da intolerância. A única coisa que parece exercer algum poder verdadeiro é a estupidez. As comunidades partidárias resistem sempre à mudança. Há por aí muita gente que se o seu partido não estivesse no poder teria enormes dificuldades em ganhar um ordenado. O grande problema é que estes líderes que apostam tudo no seu carisma, não possuem a competência necessária para governar. Só que isso não os impede de serem eleitos e reeleitos. O seu poder é cinematográfico. Continuamos a pensar que a nível político o Benfica resolve tudo e que a nível espiritual lá está a Nossa Senhora de Fátima para benzer e apaziguar as nossas dores. Já a nível cultural não há nada que um livro de José Rodrigues dos Santos não explique e que a música do Tony Carreira não tranquilize. Já pouca gente possui uma cultura literária e histórica competente. As nossas elites governantes só leem as gordas dos jornais para ver se a notícia que subsidiaram está a produzir resultados. Provavelmente esta república precisa de chegar ao fim e de ser remodelada e refeita.
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Oiço o som vulnerável produzido pela trompete de Miles Davies. Kind of Blue. So What? Aqui junto à minha biblioteca flutuante, tentando encontrar a forma metódica da rutura. A forma deliberada da arte, seja ela música, poesia ou pintura. Os livros a salvarem-me da solidão. O amor pela arte é uma coisa íntima. Não há democracia na arte. Nem misericórdia. Apenas amor. Amor pelo caos. O amor é o próprio caos. A arte tenta pôr algum amor no caos. E afastar a ordem natural das coisas. Só podemos esperar que o caos não nos mate. Eu tento resistir-lhe com as palavras. Por isso procrastino no amor, auxiliando-me na poesia. Aproximo-me um pouco mais das melodias interrompidas de Miles Davis, das propriedades acústicas do seu trompete. Cadência, métrica, acentuação. Isto está tudo ligado. A água. A luz. As marés. A atentíssima ligação entre o som e o sentido. O tempo a arruinar as raízes das árvores. O clima a impedir as flores. E eu a pensar naqueles que enlouquecem cheios de lucidez. O sumptuoso sossego da dor. O sono campestre. A velhice a arder. Tenho medo. Tenho medo da violência democrática sobre a individualidade. Os demónios das parábolas bíblicas andam por aí ao deus-dará. O buraco negro mudou de lugar. Uma voz mediúnica conta-me histórias ao ouvido. E eu a sentir-me culpado sem ter culpa nenhuma. Pequenas abelhas distribuem o pólen da amizade. Pessoas como nós não trazem qualquer lucro ao templo. Esse é o espaço predileto dos vendilhões. Pega no chicote, Jesus, pega no chicote e fustiga-os como eles merecem. Nada de arrependimentos. A seguir surgem as memórias de guerra do pai. Ele a dizer para os soldados: “Vamos rastejar, amparando-nos nas paredes em fogo.” O medo a ficar para trás. E eles a tentarem a fuga para a frente. Na guerra há poucas ponderações. E muitas variantes dolorosas. E eu a olhar para a mancha de luz das fotografias do livro. Os sentimentos familiares impediam-nos de olhar para o lado. Não há ornamentos encantadores. Apenas acontecimentos banais. Desencontros simultâneos. A parte sobrenatural está fora de questão. E os pássaros a sentirem a vida apertada dos ninhos. Afinal, qual é a senha e a contrassenha para entrar no mundo angustiante da poesia? Akhmatova dá um beijo bifurcado a Óssip Mandelstam e Kafka ri-se. E nós a taparmos as histórias secretas com os questionários invisíveis. Cheias de propósitos fascinantes. Nós a dispararmos versos. E os versos a não saírem do cano. Era poesia de pólvora seca. Todos a amarem a poesia como se ela fosse um bolo. E a mãe bordando toalhas. E naperons. Entre o coração e o regaço. A mãe queria mudar de sítio sem ter de mudar de sítio. A mãe queria. E não queria. A mãe sempre entre o regaço e o coração. Entre as canções e o choro. Entre a frustração e o desespero. Entre o amor e a desistência. A mãe a fazer-me viver entre a intransigência e a brandura. E eu a tentar enfiá-la entre os quadradinhos da banda-desenhada. E ela a tentar perceber o que é a felicidade. Dos outros. E eu a tentar ser Pessoa. “Vais ficar maluco de tanto leres.” Dizia ela, sem saber se aquilo era bom ou era mau. Devia pensar que a nossa genealogia não dava para as letras. Mas as mães também se enganam. Ela a tentar ensinar-me rimas para escrever. Poesia. E eu a dizer-lhe: “Não teimes, mãe, a minha poesia não rima.” “És teimoso, meu filho, mas não é por isso que não serás poeta. Podes não rimar, mas.”
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