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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

29
Set25

748 - Pérolas e Diamantes: Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Aaaaaaaaaaaahhhh!!!

João Madureira

Apresentação3-2 - cópia 8 (8).jpg 

Nós. Nós gostamos de. Nós gostamos de cortar a realidade em fatias fininhas, como o fiambre, para a conseguirmos misturar com a mediocridade e fazermos uma tosta mista. Há lá povo mais criativo! Somos muito bons a cozinhar restos, conseguindo confecionar uma refeição ainda melhor. Não nos faltam potencialidades. Apesar disso, gostamos de sentir que existe uma certa ordem no mundo, que há uma certa hierarquia dominante nesta sociedade caótica e desolada. E gostamos de dormir em paz com a nossa consciência. Por favor, não nos tirem a alegria de ver os outros felizes, homens, mulheres, jovens e crianças. Cães, gatos e pintassilgos. E ainda as foquinhas do Zoo da Maia. É verdade que a nossa felicidade implica uma certa hermenêutica complexa. Mas convém lembrar que também somos filhos de Deus. Talvez filhos ilegítimos, mas, mesmo assim, filhos. Claro que também há por aí muito filho da puta, com vossa licença. Mas estão perdoados, esses que tais. A viabilidade do mal é eterna. A do bem, nem por isso. Qualquer tipo de abordagem é uma questão filosófica sensível. Por alguma razão, ainda não suficientemente estudada, somos um povo onde os poetas compõem versos grandes, cantigas, trovas, sonetos, éclogas, canções, odes, sextinas e elegias. Tudo metaforicamente tratado: violência, relações sociais, comerciais e mesmo amorosas. E também a guerra, a doença e a morte. A grande maioria dos nossos poetas reflete a psicologia do nosso povo povinho povo, por isso são sisudos, cismadores pensativos, muito dados às elucubrações. E também à ironia. Povo que gosta de ir fazer curas anuais às termas e aos locais onde se pratica a melhor filosofia do lazer e do maldizer. Este é um país de Torgas, Pessoas, Camões, bajuladores e berradores. A teatralidade faz parte da nossa identidade. Por isso temos a fama de moralistas e filósofos da treta. Muitos de nós aprendemos a respeitar a poesia à base de uns cachaços bem dados. Uma das artes mais bonitas dos portugueses é adquirirem dicionários com que enfeitam uma parte das estantes. Não os consultam (para quê, mas gostam de olhar para as suas lombadas. Mesmo eu faço isso de vez em quando. Elaboro, com vossa licença, uma lista sumária dos meus, apenas porque sim: Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea – Academia das Ciências de Lisboa (2 volumes); Grande Dicionário da Língua Portuguesa (6 volumes); Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (6 volumes); Língua Charra, Regionalismos de Trás-os-Montes e Alto Douro – A. M. Pires Cabral (2 volumes); Dicionário Picaresco e Satírico de Trás-os-Montes e Alto Douro – Armando Ruivo; Calé de Rebordelo – Adamir Dias. Por muito que nos custe somos todos muito pernósticos. Gostamos de mandar a rapaziada caçar gambozinos. De chamar badalhocos e trampolineiros aos adversários, pois somos capazes de ver os agueiros nos olhos dos outros e não enxergar a trave que temos nos nossos. Vá lá, o melhor é não asnear e repetir as orações. Cada um é para o que nasce. E tu nasceste, meu povo povinho povo, para fazeres progredir o pequeno comércio. De tudo. Até das almas. Sempre com as tuas mentirosices inofensivas/defensivas, a abrir a janela para ver passar o tempo. Mas o que sempre consegues é ficar cheio de frio, com os olhares fragmentados a bater de encontro às estátuas. Vá lá, não te quero assaltar com recomendações. Era o que mais faltava. Disso estás tu de barriguinha cheia. Aprendeste essa arte desde os descobrimentos. És uma caravela sempre a reboque. Do vento, das marés e dos outros. Sempre a dares cabo do infinito sem saíres do lugar. Sim, tenho de admitir, isso é sabedoria. Sabedoria que já te vem dos teus egrégios avós. Da sua glória. Sim, gostas de te ajoelhar. De chorar lágrimas sentidas. De peregrinar. De esfolar os joelhos no cumprimento das promessas. Gostas de desenhar tempestades. Desde que te deixem. Eu tu ele e ela nós vós eles e elas sempre encarquilhados debaixo das velas pandas da nossa história. Sempre a viver meses maus, mesmo na primavera, mesmo em Abril. Aquilo do 25 não passou de um bom filme. Agora, para desopilar o fígado, costumamos ir, de braço dado, ver as aldeias divertidas, com os seus cantinhos sossegados, as suas ruazinhas empedradas, o musgo dos muros e comer, nas casas dos nossos antepassados, uns petiscos pitorescos. Amo-te povo povinho povo. O meu amor por ti até pode parecer reinação e ranger, mas é genuíno. Aaaaaaaaaaaahhhh!!! Vá lá, não me mates que sou teu filho. Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Aaaaaaaaaaaahhhh!!!

25
Set25

Poema Infinito (768): A raiz das personagens

João Madureira

IMG_4383 - cópia 2 (7).jpeg 

Será possível, disse Molero, os livros começarem a ganhar raízes, a percorrer os labirintos, a desbravar todas as possíveis narrativas e os limites da condição humana? Será que sentem a sensação incrível de pisar terra fecunda? Tudo começa a ganhar novo significado. A bela e intrigante língua portuguesa começa a ganhar novo sentido. Cheia de outras ressonâncias. E de distintos ecos. E brinca com a oralidade e com a escrita. As histórias nunca estão prontas. As personagens estão sempre à procura das suas circunstâncias, da sua plasticidade, do seu espaço. Muitas tentam, sem o conseguir, sair da penumbra a que foram submetidas. Procuram encontrar o primeiro instante da sua incerteza. Depois devolvem-nos o seu silêncio. São atraídas pelas que estão plantadas fora do texto. Procuram o momento da revelação, mesmo que seja breve. Antes que chegue o apocalipse final. Procuram o seu próprio contexto. Há as que se contentam com a sua relativa boa aparência. Outras nem tanto. As desnecessárias, não costumam ser muito inventivas, mas fingem bem. Não gostam de oferecer resistência. Deixam-se levar. A grande maioria é batizada. Faz parte da tradição. Algumas morrem sem sequer se revelarem. Não têm céu para onde ir. Só limbo. A sua eternidade será sempre um estado se suspensão. E de suspeição. Elas sempre entre as ruínas da deceção. Deitadas. Embrulhadas em si mesmas. À espera que delas precisem. Que as salvem do anonimato. Amparam-se na esperança do desamparo, devolvendo as perguntas, porque não sabem o que responder. Esperando pelo amor à primeira vista. Sempre à procura do seu próximo lugar nos livros. Vivendo dentro do seu buraco existencial. Tanto podem ser rebeldes, como incompetentes. São pau para toda a colher. O pior castigo é dizerem-lhes para serem razoáveis. A fraternidade entre personagens não existe. É cada uma por si. Umas mentem, outras dizem a verdade. Faz tudo parte do código de honra. Muitas personagens desistem de ser personagens porque tomam a absurda decisão de deixarem de sonhar. Outras interrompem o seu sonho antes dele acabar. Há personagens para tudo. Sempre a esconderem as asas por debaixo da roupa. Lá estão os humanos sentados prontos para assistirem à peça de teatro. A realidade mata-as. É como a kriptonite para o super-homem. A realidade é estreita e desinteressante. Cheia de inconveniência. As personagens são as que habitam, distraídas, o buraco negro existencial. Aí costumam ganhar energia. São capazes de desamar se a isso forem obrigadas. E de mudar de perspetiva. Adaptam-se bem às idiossincrasias dos escritores, mesmo que eles as afoguem em mágoas e lágrimas. Vestem-se de metáforas. Brilham como estrelas. Transformam-se em desejos. Ou em recados. Conseguem ver o amor mesmo através das paredes de vidro fosco. Pulam pelas janelas, tentando arranjar mais um pouco de felicidade. Acreditam que pondo um cílio entre o indicador e o polegar conseguem perceber se o seu sonho se vai realizar, adivinhando o dedo a que se vai colar. Tanto dão o beijo da traição como se deixam crucificar. Tudo depende da história para onde as convocam. As mais sensíveis costumam fundir-se como lâmpadas incandescentes e tornam-se estéreis, próprias para serem enterradas nos livros que ninguém lê ou nos filmes ou nas peças de teatro que ninguém vê. Jesus é a que mais tempo se tem aguentado, apesar do seu sofrimento perpétuo. Ninguém pode acabar aquilo que outra começou e deixou incompleto. Faz parte da maldição.

22
Set25

747 - Pérolas e Diamantes: Confissões e Delírios (Excerto II)

João Madureira

Apresentação3-2 - cópia (2).jpg 

Haiku (transmontano) número oitenta e quatro: A primavera / volta sempre / quando o vento oscila.

O hebreu Moisés estabeleceu em número de 10 os mandamentos, isto após escutar uma voz que lhe vinha de uma sarça ardendo no meio das trevas, no monte Sinai. Mas foi o papa Gregório I, o Grande, quem estabeleceu em sete o número de pecados mortais: Soberba, Inveja, Ira, Preguiça, Avareza, Gula e Luxúria.  O que agora sabemos é que a neuroplasticidade não possibilita ao cérebro humano distinguir mais do que sete informações em simultâneo. O meu pai (adotivo) passou uma parte da sua vida concentrado num cenário pós-religioso e na luta entre o bem e o mal. É aquilo que nos incomoda o que nos leva a pecar. Várias vezes o ouvi a citar o filósofo Pierre Bayle: “A inclinação a fazer o mal não se encontra mais numa alma destituída do conhecimento de Deus do que numa alma que conhece Deus.” Foi ele que separou a fé da moralidade. A nós cabe-nos a tarefa de nos preocuparmos com os males de que somos responsáveis. Deus, a existir, tomará conta do resto. Diz o pai que o que nos leva a ter comportamentos egoístas e antissociais é o excesso de dor social. Provavelmente, o pecado é inato em nós. Agostinho de Hipona confessou em livro que roubou peras, fazendo disso a exegese que distingue um comportamento banal de outro abominável. Eu, também o poderia confessar, mas, por sorte, não roubei peras, fiquei-me pelas maçãs, pelas cerejas e um que outro melão. Já o pai nunca roubou nada, nem sequer uma pedra ao rio. E ele tinha tantas! Eu sigo a percursora ingenuidade de Montaigne, fingindo confessar as suas falhas, pois teve sempre o cuidado de revelar apenas as que eram adoráveis. Ou seja, Montaigne foi o melhor mestre dos políticos atuais, pois pretendia enganar as pessoas dizendo a verdade. Ele demostrou que isso era possível. Defeitos adoráveis, qualidades desprezíveis. O pai diz, e eu concordo, que os romancistas clássicos são, além dos melhores, os maiores produtores de lugares-comuns. Os seus romances estão repletos de enormes descrições e de personagens comoventes e odiosas. E daí não saem. Existem lá pelo meio personagens ilustres e sublimes que são como ferretes na nossa memória. Os melodramas, a eles se devem. Mas como são deles, temos de os aceitar. Por isso, agora são produtos comerciais de largo espectro. Tal como os antibióticos que combatem a doença e logo se transformam num problema para uma nova infeção.

Um padre amigo do pai veio entregar-lhe uma tartaruga e o respetivo aquário, a única coisa que um casal desavindo não conseguiu repartir. Nenhum dos dois quis ficar com o bicho. O pai fez que não entendeu quando o senhor pároco lhe lembrou que ele se tinha voluntariado para ficar com o pacato quelónio. Eu já sei para quem vai sobrar a herança.

Haiku (transmontano) número oitenta e cinco: O pai e o filho / chegaram montados / num cavalo bem arreado.

O pai é feito de silêncios e palavras. De coisas hipnóticas. De demoras constantes. Os seus pensamentos vão e vêm ao ritmo das batidas do mar nas rochas. O espaço existe. E depois volta a existir. O pai tenta esconjurar o silêncio mas cada vez mais desaba dentro dele. Os crepúsculos caem sem anoitecer. Ele parece cego. O pai, por vezes, toca piano como se quisesse falar com alguém que não está presente. A inspiração vem-lhe da dor. O pai parece um desígnio de Deus, é a prova provada da sua insignificância. Da sua inutilidade prática. Coitado do pai. Coitado de Deus. Coitados de nós. “Pai, pai, vem cá. Não adormeças já. Faz-me companhia. Vem cá. Preciso de ti.”

O meu pai (adotivo) não se cansa de contar o caso hilariante de um vizinho seu que se reformou com 45 anos e que se gabava de nunca ter realmente trabalhado. Passava a vida a gabar-se de que enganava todos os dias o patrão. Quando ele o mandava fazer uma coisa, o burlão punha-se a fingir que trabalhava, fazendo tempo até à hora de sair. Ele, o pai, ri-se até às lágrimas. Eu não consigo. Sobe por mim uma raiva que me provoca uma má disposição abrangente e dolorosa.

O pai, depois de ter ido rezar, pôs-se a falar dentro da sua doença de Alzheimer: “São os povos de fronteira, aos quais eu pertenço, aqueles a quem o ímpeto religioso nunca falta. A ameaça do inimigo é sempre uma constante. A devoção dilui-se em lendas e misticismo. ‘O Quinto Império’ proposto pelo Padre António Vieira, e professado por Pessoa, que se dava muito ao ópio e ao absinto, ao vinho e à aguardente, pois o misticismo vive muito dessas dependências, é uma das propostas e das provas mais interessantes e evidentes.”

Fingir é uma arte. É a arte da mentira. O pai nunca conseguiu ser um verdadeiro artista.

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