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Vim a Montalegre porque me disseram que o meu avô viveu aqui.
Uma coisa é inequívoca: a perda. Estamos sempre a perder. Todos deslizamos pela serra abaixo. A sabedoria reside na nossa capacidade para amortecer o movimento da queda. Para desacelerar o mundo. As localidades são textos. Textos que se repetem e que sobrevivem. Ou morrem. Sobre os túmulos dos mortos cresce a erva e a dor da sua ausência some-se com o tempo. As coisas que definem, fazem-nos brilhar.
Vencer o esquecimento é apenas privilégio de alguns. Os destinos enganam as almas. Temos de introduzir na arte os elementos da inquietação entusiástica. Temos de agradecer a quem nos ajudou no início da criação. A entrega é sempre necessária para se cumprir a arte. A arte, apesar de nascer com cada um, dá muito trabalho a desenvolver.
Dizem os físicos que, muito provavelmente, o nosso universo é constituído por mais de 100 mil milhões de galáxias, cada uma delas com 100 mil milhões de estrelas.
Uma coisa temos como certa: neste planeta medrou vida.
É da lei dos milagres que uma forma de vida como a nossa tenha desenvolvido a capacidade, e a audácia, de especular sobre a origem disto tudo. Arranjámos um modelo e uma explicação. Os humanos têm a necessidade de maravilhar o inexplicável.
O Big Bang é um desejo científico.
A ciência avançou quando os mais corajosos dos corajosos questionaram a sua própria mitologia. Isto, digo-vos eu, não é ficção científica de aldeia, tão ao gosto do meu pai.
Somos compostos por 61% de oxigénio, um gás inodoro. Mas não voamos por aí fora porque praticamente todo oxigénio está unido ao hidrogénio (10%), para formar a água. São precisos sete mil milhões de mil milhões de mil milhões de átomos para produzir uma pessoa. O ADN existe apenas com uma finalidade: criar mais ADN. O nosso ADN é simplesmente um manual de instruções para fazer uma pessoa específica. Todos os seres humanos partilham 99,9% do seu ADN. Mas não há dois seres humanos iguais. Somos o produto de três mil milhões de anos de ajustes evolucionários. Começámos a nossa viagem através da História como pontos unicelulares a flutuar em mares quentes e pouco profundos. Tudo, desde essa altura, mais não tem sido do que um interessante e longo acidente. Mas glorioso.
Vivo numa cidade grande que já me parece pequena, num apartamento de um velho edifício, rodeado de lojas de chineses, indianos e paquistaneses. Sou um físico atómico que faz investigação tão específica que, muitas vezes, me perco no meio dos quantas e do sentido da vida. Depois do doutoramento, sustento-me com uma bolsa de pós-doutoramento. Quando chegar o depois, logo se verá. Pertenço à geração dos mileuristas. Por causa da calvície, rapei o cabelo que me resta e deixei crescer a barba. Pareço um judeu. Um magro e alto judeu errante. Eu sou a minha própria diáspora. Parece que a Física é coisa de judeus. Ou, provavelmente, serei árabe. O meu coração é árabe. A mim tanto se me dá. Por causa do meu aspeto, estive retido num aeroporto dos EUA para averiguações. O 11 de Setembro definiu uma nova paranoia securitária. Confundirem um transmontano com um árabe não deixa de ter piada, até porque me assemelho de igual modo com um judeu sefardita. O humor, e o desamor, está espalhado pelo mundo como uma praga. Vivo em Lisboa. Mas já morei em Nova Iorque. Nasci em Névoa, mas sou cidadão do mundo. Diz o meu pai que em pequeno eu era um pouco ingénuo e mesmo frágil, mas, ao contrário do Papa Ratzinger, não foi por ler muito O Principezinho (L Princepico, em Mirandês). Também nunca fui menino do coro, ao contrário do meu pai. Mas foi toleima que rápido lhe passou. Cresceu muito e depressa. O seu acelerador de partículas foi o 25 de Abril.
Como diz a expressão latina: Sua cuique persona (a cada um a sua máscara). Não é bom aproximarmo-nos dos infelizes, especialmente se formos um deles.
O meu pai também aqui viveu. Diz que esta é a sua verdadeira terra, apesar de ter nascido em Névoa. Foi em Montalegre que se sentiu proprietário de um castelo. Lembra-se de trabelhar entre as torres com os automóveis de tração que ele próprio construía aproveitando os carrinhos de linhas da sua mãe. Com mais uma rodinha de sabão, um elástico e um palito de carvalho construía um carro que depois de lhe dar ao elástico se movia autonomamente.
O meu pai nasceu em 1958, no ano em que o grande poeta Mário Cesariny ai meu deus de Vasconcelos (um verdadeiro caso de prestidigitação genial), era já quarentão e, mesmo vigiado e perseguido pela polícia política, atirou o seu folheto às paredes como um grito de euforia.
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Amarcord. Lembro-me do jovem Titta, das matinés de domingo, do Fellini, da Gradisca, da Volpina, do tocador de acordeão cego, dos sons da rua, do som da flauta do amolador de facas, da missa dos domingos de manhã, do hino nacional cantado pelos outros, da reza do terço, das procissões, das cantilenas, das noites a ouvir a rádio, da fragmentação do tempo, da dessincronização dos espelhos, das velas de cera a arder, dos sussurros na Sexta-Feira Santa, das leituras do Ave-Maria, das ervas medicinais, das feitiçarias, do desejo, das primeiras vezes, dos primeiros mortos, da primeira comunhão, da televisão a preto e branco, da neve no Larouco, da neve no Brunheiro, dos bonecos de neve, de ir de carro e vir a pé, das tulhas de cereal, dos primeiros livros por escrever, dos cadernos de duas linhas, da primeira vez que fui operado num hospital, dos potes ao lume, das pernas das meninas, das coxas das meninas, dos braços das meninas, dos olhos das meninas, dos lábios das meninas, do sangue das matanças do porco, do cheiro a estrume, do cheiro a limpo, do cheiro da felicidade, do cheiro a infelicidade, das pessoas vestidas de branco, das pessoas vestidas de preto, da primeira aula de francês, do primeiro fascínio, do primeiro beijo no jardim, da poesia a explodir dentro da minha cabeça, da desilusão dos Beatles, dos trovões, dos relâmpagos, das tardes chuvosas, das pausas repentinas do fingimento, das verdades imprevistas, dos guardas fronteiriços, da tua língua na minha língua, da minha língua na tua língua, das palavras objetivamente arrogantes, do sexo na escuridão, das conversas compridas, dos coitos interrompidos, do som dos sinos na Páscoa, de olhar para as estrelas, de subir os desfiladeiros, do Narciso a olhar para mim e de eu a olhar para Fernando Pessoa, de Bruce Lee a lutar com Che Guevara, de Ingmar Bergman brincar com Fidel Castro, do sexo como pecado, do pecado assexuado, da versão longa das orações, do fim da guerra colonial, do princípio das discussões inúteis, do fim das discussões úteis, das intenções obscuras dos idiotas, dos ataques de intolerância, da profunda imbecilidade das religiões, do seu triângulo dramático: islamismo, catolicismo, judaísmo, do ódio travestido de amor, do amor desfeito em pó, dos burros a puxarem as noras, dos heróis locais sem valor nenhum, dos heróis nacionais sem valor nenhum, dos seus sorrisos exagerados, dos labirintos emocionais dos contos de fadas, dos filmes de Hollywood, do tempo de guerra, da guerra do tempo, da severa repressão das autoridades, da manha das raposas, do medo das galinhas, dos hábitos bolorentos dos governantes, do seu cheiro a naftalina, das botas do Salazar, dos vícios privados pendurados nos lareiros das cozinhas, das estradas sinuosas da verdade, da leitura do primeiro poema surrealista, das histórias de amor a florescer, da primeira leitura de Crime e Castigo, dos sons da excitação, de chorar baba e ranho no final do filme Amor de Perdição, de António Lopes Ribeiro, projetado no café Terra Fria, em Montalegre, das primeiras tentativas de humor e autoironia, da desilusão permanente dos filmes de Jean-Luc Godard, da fantasia da simplicidade, dos vultos importantes sentados nas suas torres de marfim, da literatura banhada de luz, de Galileo Galileu e da sua mentira verdadeira… Eppur si muove.
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A lealdade é sempre clientelar. O território social é um santuário. Cada um tem a sua própria vocação. Mas isso não faz a diferença. E as certezas apenas incomodam. A elegância sem esforço é uma coisa de sábios. A província, para os filhos libertados dela, é uma excitação. Eles sabem que quem não veste marca não tem estilo. As boas ideias podem ser tretas. E as tretas boas ideias. Depois o veneno, desde que bem doseado, pode fazer a sua parte. Cada um tem as suas batalhas. Adaptar-se ou morrer. Por isso é que a província está morta. É uma múmia ainda mais antiga do que as roubadas por franceses e ingleses no Antigo Egipto. O seu feitio é falso. Melhor seria aceitar o defeito. As intenções progressistas na província são manifestamente antiprogressistas. Os privilegiados são broncos, todos novos-ricos. O pragmatismo é tema de conversa. É corrupção. O turismo tudo justifica e tudo encobre. Olhem lá para ele, o progresso, tão bonitinho e a justificar as manobras das folhas de Excel. Não se aceitam pedidos, nem se devolvem as folhas. E lá estão as vernissages comemorativas. Os solícitos estudantes das escolas profissionais atrás das mesas de banquete e as mesas cobertas com toalhas brancas de linho, copos de vinho tinto e branco, sumos de laranja, cola, garrafas de vinho do Porto, uísque, gim, vodca, baldes de gelo, copos, salgados e insossos, miniaturas de pastéis e bolos, fatias de presunto, empadas fatiadas, jornalistas, chefes disto e daquilo, presidentes de tudo e mais alguma coisa, artistas daquilo e disto, todos mal vestidos e a cheirarem a água de colónia de linha branca. Computadores portáteis, projetores e ecrãs. E sorrisos. Os sorrisos mais parvos do mundo. E depois lá está sempre o presidente da Câmara, por vezes hirto, outras sorridente, de fato azul-escuro estruturado e gravata cinzenta, a fazer pandã com a personalidade, na sua expressão fixa, ou ligeiramente blasé, de solenidade pensativa. Alguém da oposição comenta o facto, entre sorrisinhos cínicos e alarves, não fosse ele vinho da mesma pipa, “a pensar morreu um burro”. E os assessores, parecendo mais presidentes que os próprios presidentes, estão sempre com um olho posto no iPhone e outro no seu chefe. A província, observada de longe, mostra sempre a sua melhor face. Também é linda de contemplar vista do ar ou em voo noturno. Ou em revistas publicitárias onde se identificam as suas riquezas ocultas, os seus dorsais pré-históricos e as suas brilhantes luzes do entardecer. Depois, lá pela meia-noite, a hora da Cinderela, ela, a província, começa a escorrer solidão. Uns romantizam a pobreza. Outros dão-lhe estatuto divino. A indiferença, muitas vezes, quer esconder a dor num sítio onde não é capaz. Na província, o aroma que mais se inala é o da neutralização e o do jasmim. Mas quando o nosso partido triunfa lá vamos nós tentar beber o champanhe mais a sua iridescência. O poder a borbulhar. E nós a beber o vinho, mais as suas bolinhas gaseificadas e depois a arrotar. Lá fora a cidade está a submergir, a desmoronar-se. E por aí andam uns e outros a verem os espaços destinados para isto e para aquilo. Os burguesitos provincianos continuam a decorar as salas de estar com cortinados estampados com flores, a arrumarem os pires e as chávenas e a substituírem os ossos de plástico de cor púrpura aos seus belíssimos cadelinhos que se deitam a dormir a sesta antes de irem passear, urinar e defecar, nos espaços verdes espalhados pela cidade florida. Eles, ou elas, ou ambos, beberricam o chá feito de saquetas com sabor a limão ou a outra coisa tipo flor de estufa. Fazem tudo com gentileza, humanos e animais. Provavelmente não se divertem muito. Alguns até fazem sorrir a sua tristeza, mas todos cumprem com o seu dever. Saem a horas certas de casa, passeiam a horas certas nos jardins. Antigamente iam aos bailes, com bandas, acompanhantes e tudo o mais. As raparigas iam aos pares à casa de banho e depois ficavam no meio de uma data de gente à espera que lhes pedissem para dançar. E esperavam que a tira do sutiã ainda estivesse atrás da tira do vestido. Preocupavam-se com coisas dessas. Bons tempos. Essas espantosas criaturas eram algo entre a Branca de Neve e um animal selvagem. Feras provincianas excitadas.
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