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Então não é que os conservadores, daqueles muito, mas mesmo muito, conservadores, como Roger Scruton (1944-2020), também têm piada e até um elevado sentido de humor. Soube, ao ler o seu livro de crónicas “Contra a Corrente”, que por volta do ano 2000, este intelectual inglês, depois de adquirir várias propriedades agrícolas numa região tradicional de laticínios nas terras argilosas de Wiltshire, assistindo impotente à ruína das quintas em seu redor, abriu um negócio, utilizando o seu conhecimento da vida intelectual e os dotes sociais da sua esposa, que oferecia um novo tipo de consultoria em assuntos públicos. Para o efeito fundou a Horsell’s Farm Enterprises, caracterizada pelo seguinte cartão de visitas: “A principal consultadoria rural pós-moderna da Grã-Bretanha, especialistas em manutenção paisagística, crítica literária, equitação, colocação de sebes, musicologia, composição tipográfica, publicação, muros de pedra solta, escrita, jornalismo, restauração dos campos, museus, composição, gestão de lagos, assuntos públicos, abate de árvores, debates pedantes, variedades raras de galinhas, ovelhas, sonhos; também tratamos de feno e palha.” A verdade é que havia pouca gente interessada em adquirir tais conselhos. Além disso, fornecidos por um “conhecido bode expiatório conservador”. Por razões desconhecidas, apenas um “pária rico” contactou o “pária pobre” a dizer que necessitava de ajuda, um amigo que trabalhava para a Japan Tobbaco International (JTI), pedindo que o ajudassem com a imagem pública da sua empresa. Scruton refere que não partilhava da visão politicamente correta da indústria, embora apoiando sem reservas a ideia de que o tabaco deve ser regulamentado. Mas, como bom conservador, também nunca concordou com aqueles que querem que a indústria seja criminalizada ou silenciada. Até porque, segundo ele, a perseguição ao tabaco lhe parece ter sido utilizada para evitar, ou contornar, diria eu, os problemas realmente difíceis colocados pela indústria moderna, nomeadamente aqueles diretamente relacionados com produtos igualmente perigosos, tais como carros, pesticidas, fast food, álcool e muitos outros, igualmente responsáveis pelas alterações climáticas e pela degradação do planeta. O objetivo dessa intervenção, afirmava ele, não era defender os produtos do seu cliente, nem negar os evidentes efeitos nocivos para a saúde, mas apenas organizar conferências, seminários e almoços, para que tal indústria pudesse discutir com a sociedade, de forma aberta, especificamente os problemas relacionados com o risco, a regulação e a liberdade de quem fuma. Para o efeito, programaram vários encontros para os quais convidaram jornalistas, académicos e formadores de opinião. Incluindo amigos e até inimigos do tabaco. Foram também responsáveis pela edição de um “Resumo”, reunindo informações e argumentos relevantes quanto ao risco, responsabilidade e liberdade económica. Como bom conservador, Roger Scruton aproveitou a oportunidade para desenvolver a sua “moderada” abordagem hayekiana à economia de mercado, no contexto das “questões contemporâneas reais”. Mas “esqueceu-se”, (aspas da nossa autoria e responsabilidade) de fazer referência ao seu acordo de consultoria com a JTI. No entanto, referiu que esteve sempre de espírito aberto, imbuído da intenção, não de advogar a defesa da indústria tabaqueira, mas no firme propósito de esclarecer a sociedade. O objetivo parecia ter sido atingido, pois sentiram que tinham estabelecido suficiente legitimidade para aquele negócio. Além disso também, “pela primeira vez numa década, criaram novos empregos” para a sua vizinhança. Foi então quando, segundo RS, a “máquina do ódio” os alcançou. Um cabeçalho do Guardian, anunciava: “Scruton em trama mediática para vender cigarros”. O artigo citava, segundo RS, “correspondência roubada”, onde referia o facto de a sua empresa ter feito uma proposta à JTI para renovar o contrato, oferecendo-se para incentivar os jornalistas a escreverem sobre as questões do citado “Resumo”. E de o próprio Scruton, enquanto jornalista, ter abusado da sua posição e de ter recebido dinheiro no seu papel de assistente. O artigo terminava com a afirmação de que Scruton “ataca homossexuais e mães solteiras, defende a caça à raposa e Enoch Powell” (um conservador muito mais conservador do que RS, uma espécie de bicho-papão). Segundo ele, a “imprensa de esquerda nomeou-se juíza, jurada e procuradora deste caso”, pois o seu objetivo “não é a verdade, mas o assassínio”. Estou em crer que, nesse aspeto, a imprensa de esquerda copia muito bem a imprensa de direita. E isso, convenhamos, não tem piada nenhuma.
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Ela era um som, um murmúrio, um lindo sussurro. Conversava sempre em segredo. Tinha sempre necessidade de silêncio para se fazer ouvir. Falava quase sem voz, como se sofresse de agonia crónica. Cheia de vulnerabilidade, como se estivesse a ser escrita por um poeta. A sua força vinha-lhe do seu espaço de incerteza. A sua calma parecia violenta, nostálgica, íntima. Ela criava-se a si própria. Era o seu próprio percurso. A sua memória vinha-lhe do desejo. Inventava sonhos e era habitada por eles. Tinha sempre um tom de pânico antes do amor. Uma espécie de sofrimento alegre. Parecia uma revelação. Gostava de colher violetas no bosque, fazendo-se encontrada com a primavera. Pegava em todos os objetos como se fossem frágeis. Movia-se devagar como se estivesse dentro de água. Agia sempre como se tivesse um pouco de frio. Possuía uma dupla alma de mulher. Falava como se tivesse mel na boca. Amava como se tivesse coceira no corpo. Ela dizia-me que todos procuramos o amor como se tivesse dificuldade em acreditar nas suas próprias palavras. O seu amor era muito ambíguo. Vivia dentro do seu entorpecimento porque tinha dificuldade em acreditar. Costumava voar com as asas da sua anja da perplexidade. A sua estranheza era muito feminina, mas o seu silêncio era-o ainda mais. Gostava de cultivar silêncios como se eles fizessem parte da sua alimentação. Eu tentava trabalhá-los de forma literária. Tinha um corpo religioso, cheio de tabus e acentos circunflexos. Cheio de restrições. A sua socialização feminina funcionou muitas vezes como autossabotagem. O seu ato sexual estava cheio de polifonias. Dizia que o amor não precisa de ser perfeito. Era imprevisível, capaz de ser doce e violenta ao mesmo tempo, passando rapidamente do pudor ao entusiasmo. Possuía um poder de atração incrível. O seu amor era introspectivo. Com incertezas. Inesperado. Inconsciente. Todo o verdadeiro amor é inconsciente. Voltado para dentro. Amar é uma espécie de pânico. Amar devolve-nos a dignidade. O amor é ridículo porque não tem nada de ridículo, a não ser fazer-nos sentir ridículos. É como um quadro negro pintado por cima de cor-de-rosa. O amor é a construção feita em cima da destruição. Ela sentia um mal-estar existencial por cima da capa da normalidade. O idílico por cima dela. Ela por cima do idílico. O seu amor era incisivo, mas curto. Brilhava como gelo ao sol, derretendo e dando origem a novas formas, cheias de cores e rendilhados. Cheio de confusões. E confissões. Por vezes era crepe da China, outras burel barrosão. O amor tanto pode ser um bolo de casamento como um desperdício. O seu corpo era sagrado, não se deixava ver. Apenas permitia vislumbres, como as fotografias fragmentadas. Era uma espécie de arcanjo invertido. Ou convertido em humano. Evitava a aproximação excessiva para proteger os seus defeitos. O amor acontece quando perdemos a noção do tempo. Amar pode doer. E muito. E de muitas maneiras. Todo amor é ilusão. Todo o amor é. E não é. Há amores magistrais que nunca serão amor verdadeiro. Falta-lhes a essência. Há pequenos amores que são imensos. São arte. O amor verdadeiro tem voz própria. Ela tinha-a. O amor é um buraco negro imenso. Absorve tudo e tudo devora.
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