241 - Pérolas e diamantes: o paladino da liberdade (de imprensa) ou o lobo com pele de cordeiro
João Vieira Pereira, diretor-adjunto do “Expresso”, na habitual coluna semanal que assina no suplemento de economia, acusou o PS de “falta de coragem”, após a leitura do relatório “Uma Década para Portugal”.
Perplexo pelo que leu, escreveu que “nada como pedir a uns independentes que façam umas contas que não comprometem ninguém. Se correr bem, o partido tinha razão. Se correr mal, eram apenas umas ideias loucas de uns economistas bem-intencionados”.
Essa “falta de coragem”, na perspetiva de JVP, “é a mesma que levou Sampaio da Nóvoa a avançar sozinho. Uma espécie de «vai andando que eu já lá vou ter». A política do tubo de ensaio. Cheia de falta de coragem e reveladora da ausência de pensamento político consistente.”
Na noite do 25 de Abril, entre vivas à liberdade (e entre elas à liberdade de imprensa, estamos em crer) e outras “boutades” pronunciadas religiosamente nesta data, o líder do PS (que se diz um dos paladinos da dita) resolveu escrever, e enviar, um SMS a JVP dando-lhe conta do seu espírito democrático e, sobretudo, republicano, laico e socialista.
Ei-lo, o SMS: “Senhor João Vieira Pereira. Saberá que, em tempos, o jornalismo foi uma profissão de gente séria, informada, que informava, culta, que comentava. Hoje, a coberto da confusão entre liberdade de opinar e a imunidade de insultar, essa profissão respeitável é degradada por desqualificados, incapazes de terem uma opinião e discutirem as dos outros, que têm de recorrer ao insulto reles e cobarde para preencherem as colunas que lhes estão reservadas. Quem se julga para se arrogar a legitimidade de julgar o carácter de quem não conhece? Como não vale a pena processá-lo, envio-lhe este SMS para que não tenha a ilusão que lhe admito julgamentos de caráter, nem tenha dúvidas sobre o que penso a seu respeito.”
Nem José Sócrates escreveria tão bem uma resposta a estes jornalistas “incultos” e “irresponsáveis”, que “têm a ousadia” de escrever sobre as “maravilhosas propostas” do PS que nos farão sair do atoleiro da crise. (O que está entre aspas neste parágrafo é da nossa inteira responsabilidade).
Na crónica seguinte, JVP publicou a crónica intitulada “É a liberdade, António Costa”, da qual aqui reproduzimos alguns excertos, com a devida vénia e com a correspondente solidariedade.
Convém realçar que JVP apenas publicou o SMS que recebeu de António Costa, após consultar os seus camaradas de direção do “Expresso”, cujo diretor é Ricardo Costa, o irmão do líder do PS.
Ei-la, a resposta: “Nunca fui atacado ou me senti tão condicionado por alguém com responsabilidades políticas ou públicas. Nem à esquerda nem à direita. Nunca um secretário de Estado, um ministro ou um primeiro-ministro me dirigiu tais palavras.”
“Denunciar esta situação é a forma mais transparente que encontro para que todos possam julgar e criticar as ideias que defendo, que sempre defendi e continuarei a defender.”
“Peço desculpa pelo incómodo de ser jornalista.”
O bom humor, a descontração e o apego à liberdade por parte de António Costa é (era?) um dos trunfos (medalhas?) do PS. Outra era (é?) a solidariedade e o respeito pelos camaradas do partido, como o demonstra “a facada nas costas” a António José Seguro.
Depois deste episódio começou a fazer sentido no meu espírito a tal legislação que queria impor a “lei da rolha” na cobertura das campanhas eleitorais, da autoria do PSD, do CDS e do PS. Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és?
Termino por hoje citando as palavras de Michelle Obama: “Não baseie o seu voto no medo, mas nas possibilidades. Oiça. O jogo da política passa por fazê-lo sentir medo para que deixe de pensar. Aquilo de que precisamos não é de retórica política, não é de jogos. Precisamos de liderança.”
PS – Porque pensamos que existe uma situação paradoxal entre o declínio da nossa cidade (o seu empobrecimento e a desgraça crescente do comércio local e da classe média) e a enorme dívida contraída pela CMC, mais uma vez solicitamos ao senhor presidente e aos seus distintos vereadores, que aprovem uma auditoria independente às contas da nossa autarquia. Tchékhov dizia que “a arrogância é uma qualidade que fica bem aos perus” (ou talvez aos pavões que são aves de cauda mais vistosa). Quem não deve não teme.
PS 2 – Em nome da transparência, já agora senhor presidente, talvez fosse boa ideia aprovar conjuntamente uma auditoria externa às contas da JF de Santa Maria Maior.
PS 3 – Era um ato de coragem redentora, o senhor presidente deixar-se de desculpas de mau pagador e pôr fim ao deplorável espetáculo dos esgotos a céu aberto em Vale de Salgueiro – Outeiro Seco.

