Segunda-feira, 17 de Agosto de 2015

252 - Pérolas e diamantes: um misterioso porte do corpo…

 

 

Hoje, uns minutos antes de começar a rabiscar este escrito, recordei-me de repente do dito espirituoso de Tristam Shandy: “A escrita, quando bem governada (como podeis estar certo de que é a minha), é apenas outro nome para designar a conversação.”

 

As críticas feitas a Marinho Pinto pelo seu suposto protagonismo individual fazem-me lembrar as palavras do escritor espanhol, infelizmente já falecido, Francisco Umbral, quando defendeu o juiz Garzón: “E que diferença faz que ele procure protagonismo? Só os que aspiram a ser protagonistas é que fazem mover a história.”

 

Citando o autor de Memórias Republicanas (1992), também eu “nunca me associarei aos cantos gregorianos entoados pelos sumo-sacerdotes da inveja. Este é um país de gente dissimulada em que só não gostamos de ter de fazer coisas, mas também não gostamos que outros as façam, porque nos desmascaram e nos fazem sentir embaraçados”.

 

E põem-se a falar de cima da burra sobre os seus cargos públicos, ou sobre os seus empregos, o seu poder e a sua dignidade. Especialmente os do centrão nutrem por Marinho Pinto um odiozinho afetado. Se calhar até têm as suas razões. Mas, como diz Tristam Shandy, cada um diz da feira conforme o que lá vendeu.

 

Agora que já entrámos em pré-campanha eleitoral, os dichotes dos políticos do denominado arco da governação fazem-me lembrar uma Máxima de François de Rochefoucauld: “Um misterioso porte de corpo serve para cobrir os defeitos do espírito.”

 

Muitos dos que assim falam nem sequer chegam a saber em que consiste a diferença entre um argumento ad ignorantiam e um argumento ad hominem.

 

Os nossos políticos tradicionais, porque lhes ensinaram nas jotas do partido, utilizam muito o argumento da ignorância: quando oradores confiam na ignorância do público para que as suas proposições sejam aceites.

 

Apesar de cada vez menos, ainda há políticos que o que ganham no escritório perdem-no depois em combate. Mas cada um é para o que nasce.

 

O silogismo de Zenão define bem a nossa condição social e política: Por que razão somos um povo arruinado? Pois porque somos corruptos. E porque somos corruptos? Pois porque somos necessitados. E daqui não saímos. Pelo menos até agora.

 

E como é que isto se faz? Para ir (in)direto ao assunto, passo a transcrever um pedaço de excelente prosa do romance Crematório, de Rafael Chirbes (Minotauro, Edições 70):

 

“(…) para se ver como foi grande o salto, com toda a gente a mudar ao longo destes trinta anos para um carro cada vez melhor; e eu há trinta anos a discutir com os vereadores, com os membros da assembleia, com o conselheiro do ordenamento do território (tão vivo, um lince: origens populares, em novo militou na extrema-esquerda com o Matías, eu também prestei alguma colaboração, dinheiro, eram outros os tempos: as voltas que a vida dá), com os proprietários dos terrenos, com os arquitetos, com os encarregados das obras, com os pintores, soldadores, pedreiros, metalúrgicos, estucadores, maquinistas, canalizadores, eletricistas, jardineiros, estilistas e decoradores: pressionar para que alterem o plano parcial, para que requalifiquem o que alguém se lembrou de manter como zona agrícola ou tentar converter em espaço protegido; influenciar para que redefinam a volumetria da zona; obter a licença, a licença de habitação; negociar a instalação com a companhia de eletricidade, os cabos com a companhia dos telefones, arrastar-me, pedir favores; embora a batalha mais impiedosa seja a que se trava nos gabinetes, a guerra dos gabinetes – não é assim que se diz? – a mais cruel, essa que faz com que, se compras tu, compras um terreno onde não se pode construir, uma parcela rústica, uma parcela de utilização social, de utilização terciária, seja ló que for; e se compro eu, amanhã tenho uma autorização assinada pelo arquiteto municipal, sete ou oito pisos, um sótão ilegal, mas ao qual a autarquia fecha os olhos, garagens, instalações comerciais. (…)”

 

 E o resto podem lê-lo neste livro de leitura compulsiva, e obrigatória, que foi galardoado com o Prémio Nacional de la Crítica.

 

As razões são mais do que evidentes.

 

Evidentemente…


publicado por João Madureira às 07:15
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