Segunda-feira, 31 de Agosto de 2015

254 - Pérolas e diamantes: uma mão lava a outra e a sujidade não há meio de sair…

 

A rábula dos cartazes do PS e do PSD/CDS, diretores de campanha incluídos, fez-me lembrar aqueles mexicanos pobres que pintam os burros com listas pretas e brancas para os turistas ocidentais os fotografarem como se fossem zebras; ou os sócios do Bollinger Club, referidos por Evelyn Waugh, que num jantar anual de comemoração trouxeram uma raposa numa jaula para a matarem atirando-lhe garrafas de champanhe. E não há óculos modernaços, sorrisos pepsodente e jantares grátis que o disfarcem. Ou os desculpe. A cada um o seu falhanço. Tarantino já provou que é capaz de fazer um filme por bem menos, pois o sucesso de bilheteira é garantido. O espetáculo serve-se quente e delirante, como a mentira. A história dos enganos tradicionais dos partidos dos tachos, panelas e potes mantém-se até à náusea. Até ao vómito. Até à farsa. Até um dia.

 

Num dia qualquer de agosto refresquei-me, primeiro na casa do Alentejo em Lisboa, que me pareceu uma homenagem à cultura árabe, com uma cidra bem fresquinha e mais tarde, mesmo em frente do Palácio de Belém, lendo uma apetitosa entrevista do escritor J. Rentes de Carvalho ao DN.

 

Tal como este senhor das letras portuguesas, que vive Com os Holandeses há mais de quarenta anos, também eu “perdi muito cedo a ingenuidade porque comecei a ler”.

 

Tal como o autor de Ernestina, já votei várias vezes mas continuo a ter uma certa aversão à política lusa baseada em dois partidos, “em que ora manda um ora manda outro e, ao fim e ao cabo, mandam sempre as mesmas pessoas. Esta bipolarização desgosta-me bastante porque se na aparência são inimigos, a verdade é que uma mão lava a outra” e, acrescento eu, a sujidade não lhes sai da pele.

 

Rentes de carvalho conta no seu livro Portugal, a Flor e a Foice, que mesmo antes do 25 de Abril, observou toda aquela gente da oposição democrática e reparou na “naturalidade com que mostravam os interesses e as alianças que faziam”, concluindo que tal gente não era séria.

 

Ou seja, e até nisso estamos de acordo, em Portugal não houve revolução nenhuma. “Os militares foram simplesmente joguetes e sem se darem conta”. O golpe militar que instituiu a democracia em Portugal deu-se porque, na sua opinião, que igualmente partilho, “houve forças importantes que aproveitaram a mentalidade dos militares, o aborrecimento por não poderem ser promovidos e o medo de que os milicianos lhes roubassem o lugar. Psicologicamente isso foi extremamente bem aproveitado dando a todos – a eles próprios e ao povo – a ilusão de que ia haver uma mudança no país.

 

Um dia, em plena estação de São Bento, no Porto – JRC nasceu em 1930 em Vila Nova de Gaia –, uma vendedeira de jornais disse-lhe a “grande verdade”: “Ó menino, a merda é a mesma, as moscas é que são outras.”

 

Sem papas na língua, J. Rentes de Carvalho, aproveitou para se referir à crítica literária lusa. Aquando da saída do seu romance Rebate, os críticos lá de Lisboa dispararam logo vários tiros de canhão afirmando que “esse sujeito não sabe conjugar verbos, não conhece a gramática, não é capaz de contar uma história”. Passados oito anos, o livro foi editado na Holanda e logo todos disseram: “«Uma obra-prima». Ou seja, é tudo um bocadinho tristonho.”

 

Não gosta da escrita de António Lobo Antunes, que abandonou após ler Memória de Elefante; não leu O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco, porque se ficou pelo Nome da Rosa, confessando: “Há temas que me ultrapassam porque não sou muito inteligente.”

 

Afirmou-se um apreciador de Eça e Camilo e de João Guimarães Rosa. “Quem não sabe quem é Guimarães Rosa está muito mal.”

 

Confessou-se um admirador de Céline, chegando a defini-lo como um “grande homem”. “As pessoas enchem a boca de Proust e James Joyce mas o Sr. Céline está acima dessa gente toda.”

 

Numa coisa discordamos, mas até por isso o fiquei a admirar ainda mais um pouco. Eu sou fã de Aquilino Ribeiro, especialmente do seu genial livro Malhadinhas. Rentes de Carvalho considera que o autor de Andam Faunos pelos Bosques “andou a pintar uma gente toda florida”, que é um produto fabricado, “uma espécie de louça das Caldas”.

 

Perguntaram-lhe o que pensa de Torga. A resposta foi crua: “Como pessoa era um horror. Um sujeito mau, peneirento e chato. Como escritor era bom, mas limitou-se na sua escrita. Tinha um nome fácil de memorizar.”

 

Choca-o, e também a mim, diga-se de passagem, que o Eusébio esteja no Panteão. “Pelo amor de Deus. É uma bacoquice, é uma pelintrice.” E a Amália “também não. Tenham paciência”.

 

“É uma vergonha dizer em qualquer parte do mundo que temos um futebolista no Panteão Nacional.”

 

Por estas e por outras é que quando uns “maduros” lhe quiseram fazer uma homenagem e se dirigiram à Câmara da sua aldeia de adoção (Estevais – Mogadouro, terra dos seus pais), o presidente disse logo: “Não! Ele não é de cá.”

 

A terminar revelou, referindo-se às suas traduções para o neerlandês, feitas do original português, que, tal como o jargão do politiquês utilizado pelo PSD/CDS/PS, “o holandês é uma língua boa para falar de porcas e parafusos”. 

 

Esta entrevista fez-me lembrar o lema do fugitivo pai de David Bartra, o menino triste e herói do romance de Juan Marsé, Rabos de Lagartixa: “A puta da verdade há de ensinar-te a duvidar de tudo”.


publicado por João Madureira às 07:15
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