Segunda-feira, 28 de Setembro de 2015

258 - Pérolas e diamantes: O cavalo de Nietzsche e o atropelamento de Barthes

 

 

Javier Marías, o autor de Os Enamoramentos, tem razão, há na escrita uma incompreensível autodisciplina. “Só quem é um pouco anormal é que se mete a trabalhar numa coisa sem que ninguém lho mande”.

 

Há um provérbio árabe que diz: “Aquele que corre sozinho tem a certeza de chegar ao fim.”

 

A verdade é necessário merecê-la. A vitória mais não é do que uma miragem na cabeça de estúpidos vaidosos. E a mentira é como uma lagarta escorregando nas pétalas de uma flor. Esta é a trilogia do desencanto.

 

Há pessoas que pensam que a realidade e a verdade são coisas diferentes. Eu, metodicamente, duvido. Ou melhor, talvez a verdade não exista, mas, mesmo assim, sei que existe o desejo de a encontrar, seja lá em que sítio for. O segredo está em não desistir.

 

Sou do tempo dos melodramas. Ouvi várias vezes mulheres apaixonadas contar que o cinema lhes provocava uma ânsia de morte. De morte pelo amor. Pela redenção do amor. Contavam a história da Amália, ainda nos seus tempos de vendedora de fruta, quando ia ao animatógrafo ver a Dama das Camélias, e depois de voltar do cais, se pôr de propósito nas correntes de ar para implorar a Deus que, pelo menos, lhe desse o dom da tuberculose.

 

Ai, a poesia, a poesia. Essa fé dos pobres nos poderes ocultos da poesia. Mas os poetas pobres ignoram que os pobres poetas se ajoelham perante os ricos.

 

Somos vítimas dos enigmas. E das verdades. Da verdade dos outros, que é muito diferente da nossa verdade.

 

Para podermos viver com alguma sanidade mental temos de ter daqueles ataques de abstração que nos permitem ver através das nuvens densas da demagogia.  Está um tempo para políticos ébrios.

 

E depois sugerem-nos a esperança com palavras doces. A esperança na felicidade, essa ideia tão capitalista que nos persegue a vida inteira. O problema é que não existe alternativa à altura.

 

Já que os homens e as mulheres estão impregnados da sua saudosa infelicidade, pensemos, ao menos, na felicidade das máquinas, ou na felicidade da sua posse. Algum sentimento nos tem de ficar de todo este progresso. 

 

A esperança que nos apregoam é como um casarão grande e bem iluminado que cada vez vai ficando mais pequeno à medida que nos afastamos dele, caminhando na desilusão premente que nos acompanha, e nos modela, os dias.

 

Este Portugal que amamos, mais por condição do que por que razão, podia ser como uma pequena casa parecida com as que existem sobre as encostas e possuem as vistas extensas. Mas não. A nossa pequenez é endémica, substantiva. Permanente. As nossas vistas são curtas. Demasiado curtas. Vai um tempo para políticos amblíopes.

 

Afinal, Roland Barthes morreu assassinado, segundo a tese claramente ficcional do novo romance de Laurent Binet. O móbil do crime residiu no facto do semiólogo francês estar na posse da “sétima função da linguagem” que permitiria “convencer não importa quem a fazer não importa o quê não importa quando…”

 

O estranho é que Barthes morreu atropelado por uma carrinha de uma lavandaria numa rua de Paris.

 

A 3 de Janeiro de 1889, em Turim, Friedrich Nietzsche sai de casa. Na rua encontra um camponês que luta contra a teimosia do seu cavalo, que não lhe obedece. O homem perde a paciência e começa a chicotear o animal. O filósofo aproxima-se e tenta impedir a desumanidade dos golpes entrepondo o seu corpo. Perde imediatamente os sentidos. É levado para casa onde permanece em silêncio durante dois dias. A partir daquele trágico acontecimento Nietzsche nunca mais recuperará a razão, ficando aos cuidados da sua mãe e das suas irmãs até ao dia da sua morte, a 25 de Agosto de 1900.

 

Vivemos num mundo precário que teima em nos roubar os costumes e as tradições. Vivemos num tempo onde até as amabilidades são teóricas. Onde as ilusões e as desilusões ocorrem ao mesmo tempo. 

 

Cheguei a pensar que o futuro ia estar sobrelotado, afinal parece que vai ficar vazio. É triste assistir impotente ao vazio dos nossos campos e das nossas aldeias que ardem durante o verão e congelam no inverno.

 

Segundo o livro A Demografia e o País: Previsões Cristalinas sem Bola de Cristal, da autoria dos investigadores da Universidade de Aveiro, Eduardo Anselmo Castro, José Manuel Martins e Carlos Silva, na faixa do interior do país que vai desde Trás-os-Montes ao Alentejo, a manter-se a atual tendência da evolução do índice de fecundidade em Portugal e não havendo migrações, as previsões apontam para a perda de aproximadamente um terço da população atual, em 2040.

 

A tudo isto assistiremos sentadinhos e risonhos numa cadeira Eames.


publicado por João Madureira às 07:15
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