Segunda-feira, 19 de Outubro de 2015

261 - Pérolas e diamantes: os esgotos do progresso

 

 

Vivemos tempos estranhos. Como dizia a atriz russa Ranévskaia, as velas do bolo de anos custam mais do que o próprio bolo e metade da urina vai para análise. E os nossos filhos, ou netos, trazem um computador na cabeça, que para pouco lhes serve, pois os berlindes eram um brinquedo bem mais redondinho. E matar, matar, mesmo que virtualmente, apenas o porco lá para dezembro ou janeiro.

 

A religião está reduzida a dois credos monoteístas: cristianismo versus marxismo, ou vice-versa. E daqui não conseguimos sair.

 

O mais estranho é que apesar de todos sermos, de uma maneira ou outra, religiosos, perdemos a crença. Apesar da iconografia e das orações, ficámos sem fé. As pessoas transportam uma espécie de vazio no olhar.

 

Uns acreditam em Deus, outros no progresso técnico. Todos dizemos defender os valores humanos universais, ou seja: o humanismo abstrato.

 

É tudo boa gente. Frequentamos indiscriminadamente os templos modernos das grandes superfícies, do Pizza Hut e do McDonald’s, onde rezamos para que o ordenado estique mais um pouco e dê para comprar um telemóvel topo de gama, umas sapatilhas de marca ou uns jeans esfarrapados como os usados pelos principais ídolos da juventude e que ainda sobrem uns trocos para o lanche de um super-hiper-mega-burger king ou pizza extra extra.

 

Nas lojas há muito de tudo mas não há felicidade nos olhos das pessoas.

 

Atualmente, dá-se a liberdade aos jovens para aprenderem abaixo do nível mínimo de conhecimento, estimulando-lhes a crítica insensata e ineficaz a todos os valores, para que amanhã sejam uma massa de cidadãos dócil, abúlica e apática, apenas com o nível suficiente de alfabetização para possibilitar a aceitação da administração. E isto é feito intencionalmente, disfarçado de bom eduquês, seguindo a lógica dos tolos.

 

Os clichés do facilitês que lhes são sabiamente sugeridos torna-os incapazes de formular dois pensamentos seguidos sem recorrer ao auxílio de uma mnemónica digital.

 

As nossas sumidades são pessoas que permanecem em ponto morto, numa pose morna, num cuidado e estudado meio-termo provinciano, que nas ocasiões apropriadas exibem cara de circunstância.

 

Por vezes basta uma observação um pouco mais atenta para nos apercebermos que as tais celebridades que têm vistas largas afinal apenas possuem as vistas curtas. E mesmo possuindo dois olhos, quase sempre olham para o mundo com um só.

 

Nós até somos gente para concordar uns com os outros. Mas convém não esquecer que mesmo a concordância entre dois homens é sempre um fenómeno temporário, quer seja no disfarce da forma, no encómio da reflexão, no apoio ao clube de futebol, na celebração da moda, na escolha política, ou ainda na seleção da mulher mais linda do mundo ou sobre os atributos intrínsecos do bolo de bacalhau. 

 

Numa coisa somos bons, nos atos de contrição (versão católica) e na crítica e autocrítica (versão marxista). Aproveitamos sempre para dizer mal uns dos outros e fazer queixinhas.

 

Sabemos que na sombra todas as atividades políticas se assemelham e as alianças que contrariam a lei natural das coisas proliferam.

 

Dwight W. Morrow, um republicano americano bem avisou: “Se um partido político se atribui o mérito da chuva, não se deve estranhar que os seus adversários o façam culpado pela seca.”

 

Os nossos políticos aparecem nas televisões como os pregadores evangélicos americanos, maneiristas, cheios de atitudes untuosas, seráficos, queixosos, especuladores, como os antigos vendedores que apregoavam nas feiras as virtudes da banha da cobra.

 

Não esperam convencer. Pretendem sobretudo converter os incautos. E os incautos compram a mistela palavrosa com nota de conto. Gostam de botar figura.

 

Por cá há comerciantes honrados, empreiteiros megalómanos, trafulhas de bom coração, políticos que gostam das luzes da ribalta, e também apreciam deitar mão do alheio, e alguma gente tão generosa e honesta que por vezes fico com a estranha sensação de que só podem ser tolos. 

 

Dizem-nos os políticos feirantes que já somos um país desenvolvido, mas eu duvido. Desenvolvida é a Holanda, país dos campos de tulipas, dos moinhos que possuem rodas que giram serenamente, onde há pirâmides de queijo, diques e raparigas loiras e disponíveis e, pasme-se, onde, como nos conta J. Rentes de Carvalho, a câmara de Amesterdão distribuiu a seguinte informação aos moradores de um novo bairro: “Em lugares previamente determinados serão plantadas silvas e plantas daninhas.”

 

Esse tipo de desenvolvimento, no distrito de Vila Real, apenas é visível em Outeiro Seco, aldeia do concelho de Chaves, num sítio chamado de Vale de Salgueiro, onde os esgotos continuam, há mais de 8 anos, a correr a céu aberto sem que se descubra o autor, ou autores, de tal fenómeno. Uma coisa sim sabemos, a Câmara Municipal, liderada por António Cabeleira, não o é certamente. Trata-se, com toda a certeza, de um fenómeno natural que a natureza se encarregará de resolver. Aguardemos pois. E sentados, para não nos enfadarmos.

 

Termino citando Tocqueville: “Creio que em todos os governos, quaisquer que eles sejam, a baixeza procurará sempre aliar-se à força e a lisonja ao poder. E apenas conheço um único meio capaz de evitar que os homens se degradem: é não dar a ninguém, juntamente com a autoridade ilimitada, o soberano poder de os aviltar.”


publicado por João Madureira às 07:15
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1 comentário:
De Humberto Ferreira a 19 de Outubro de 2015 às 11:30
Bom dia João,
Obrigado pela referência a um dos pontos mais turísticos da minha Aldeia.
Os esgotos continuam lá e, não é por nada, mas para além de cheirarem mal, já cansam.
Acho que a maioria das pessoas ainda não se apercebeu que tudo o que a Câmara Municipal de Chaves, com o apoio incondicional da Junta de Freguesia de Outeiro Seco, tem vindo a lançar nas linhas de água, vem parar ao Rio Tâmega.
Aguardemos pois, sentados.
Um abraço,
Berto


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