Segunda-feira, 9 de Novembro de 2015

264 - Pérolas e diamantes: quem cala consente

 

 

É tristemente universal o processo que leva a que a lógica dos interesses se sobreponha quase sempre à lógica dos princípios.

 

Por isso vemos nas televisões cenas comoventes de pais e filhos a chorarem nos aeroportos antes de partirem os voos que levarão os mais jovens para terras onde possam ganhar o pão que a sua ingrata pátria lhes nega.

 

No final das suas vidas dirão como o Príncipe de Ligne que têm tantas pátrias que já não sabem a qual pertencem.

 

E a vida de quem faz alguma coisa tem sempre formas de ser vista e comentada: gentilmente por parte de alguns e maledicentemente por parte da maioria. Mas já estamos habituados ao insulto indolente, impune, venenoso e preferencialmente anónimo.

 

Desses também eu tenho tido a minha parte e não espero que eles diminuam, mas o tempo endurece e o desprezo, como muito bem diz Rentes de Carvalho, é uma arte que se aprende.

 

Somos gente que aprecia o sol, habituada às terras mansas das veigas e dos outeiros, a deixar descer o olhar pelos declives suaves das nossas serras, a observar a mansidão clara dos nossos riachos, a fazer compromissos, a discutir infindavelmente nos cafés assuntos da treta, a passear lentamente nos finais da tarde entre um sorriso e um sarcasmo, a sofrermos com pena dos outros que ainda são mais humildes do que nós. Enfim, gostamos de gemer.

 

Nós por cá reunimos para comer e beber em caprichado desalinho, onde cada um por vezes grita a defesa das suas desvairadas ideias, quase sempre opostas à dos outros, apenas pelo prazer de ver como os outros fazem a sua pragmática ginástica mental para as defenderem. Somos barulhentos, superficiais e também exagerados.

 

Não me interpretem mal. A minha intenção não é distribuir rótulos de bom ou mau segundo as circunstâncias e as conveniências. Nisso são muito bons os outros. Eu exponho o que sinto e vejo, escrevo as minhas observações e até imito opiniões, que são necessariamente unilaterais. E talvez cheias de defeitos. Mas defini-las como maliciosas ou de má-fé é atribuir-lhes propósitos que não podem ter.

 

Há muito que abandonei o mito dos povos amáveis. E o nosso não é exceção. Talvez a lenda sirva como cartaz turístico, mas a verdade é que somos tão amáveis como os outros. Os portugueses apreciam as gracinhas inócuas e as piadas desdentadas.

 

Por cá reinam os burocratas de vistas curtas, mandam os fanáticos dos tachos partidários e governam os homens dos compromissos com a troika. Para conhecer o vilão é meter-lhe o poder na mão.

 

Os de fora consideram-nos um bando de relapsos.

 

E o meio literário continua como no tempo de Alexandre Herculano: um “prostíbulo”.

 

Numa carta a Bulhão Pato, Herculano atacava os que vendiam “a sua integridade moral ao demónio da corrupção”, denunciava “os protegidos e dependentes dos poderosos”, que faziam com que “os homens de espírito independente fossem vistos como uma espécie de leprosos”.

 

Alguém definiu Herculano como “o homem menos cumprimentadeiro de Portugal” porque na sua integridade literária tinha o costume de “medir as palavras pela consciência e não pela conveniência” e por isso se via sujeito ao “martírio”.

 

Num seu texto, Luiz Pacheco afirmou: “Dizer a verdade, toda a verdade, só a verdade, nada mais do que a verdade (a nossa, tão pequenina e tosca, tão atarantada e confusa, por vezes) – que prazer! que suprema ventura! Mas… Falemos em voz baixa. Como sagazmente descobriu o Abelaira, a palavra é de oiro… está tabelada, sobrecarregada de taxas, de imposições, proibitivas, penas pesadas… por isso, às vezes nos sai tão cara… às vezes, ficamos tramados, arriscamo-nos a perder o emprego, sei lá que mais. As palavras são um perigo, comprometem; os silêncios, sim, esses frequentemente compensam, porque quem cala consente, e é isso mesmo que se pretende: o assentimento geral, fundamentado (com otimismo fagueiro) no grande silêncio geral, a paz tumular das consciências.”

 

Os artigos laudatórios que por aí aparecem são quase uma forma de mostrarmos o nosso subdesenvolvimento, sobretudo cultural.

 

Quanto a mim, louvar quase nunca é bem-querer.

 

Desta vez vou mesmo atrever-ma a terminar com a letra do Fado “Cansaço”, eu que não aprecio essa canção típica dos bairros mouriscos de Lisboa: “Tudo o que faço ou não faço / Outros fizeram assim / Daí este meu cansaço / De sentir que quanto faço / Não é feito só por mim.”


publicado por João Madureira às 07:15
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