Segunda-feira, 23 de Novembro de 2015

266 - Pérolas e diamantes: o medo e o sonho dos outros

 

 

Vivemos tempos de violência e desnorte. As divisões tornam-se de novo evidentes e muito sérias: direita contra esquerda e islâmicos contra cristãos.

 

O preocupante é que parece não existir tempo para refletir, pois temos de agir agora. Muitos pensam que não é possível fazer nada, apenas nos restando esperar sentados o desenrolar dos acontecimentos.

 

Este caminhar da Civilização Ocidental em direção ao Último dos Homens já foi, segundo Slavoj Zizek, diagnosticada por Friedrich Nietzsche, pois considerava que o ser humano é uma criatura apática sem grandes paixões nem grandes lealdades, incapaz de sonhar, cansado da vida, não tendo coragem para assumir os riscos, limitando-se à procura do conforto e segurança, descobrindo a felicidade pelo piscar dos olhos.

 

Aí está pois a política do medo com a sigla de S Z: “Teme o teu próximo como a ti mesmo.”

 

Atualmente renunciámos às grandes causas ideológicas, apoiando e elogiando a administração eficaz da vida, ou pouco mais do que isso.

 

Segundo o psicanalista e filósofo nascido em Liubliana, esta “atitude administrativa” significa que a gestão especializada da nossa vida tem de ser despolitizada, socialmente objetiva e com a coordenação dos interesses ao nível zero da política, pois a única forma possível de introduzir a paixão nesse campo, de mobilizar ativamente as pessoas é através do medo, o elemento constituinte e fundamental da subjetividade de hoje.

 

Essa política do medo, como não podia deixar de ser, centra-se na defesa contra o assédio ou a vitimização.

 

A correção política, na sua forma neoliberal, é o paradigma da política do medo, pois assenta na manipulação das grandes massas populares: “É a união aterradora de pessoas aterradas”.

 

A tolerância neoliberal ensina que o “outro” está muito bem onde está, lá nos bairros suburbanos, desde que a sua presença não seja intrusiva. Ou seja, desde que ele não seja efetivamente “outro”, mas uma extensão mal disposta e provavelmente andrajosa de nós mesmos. Tem de adaptar-se aos valores culturais que definem a sociedade que os acolhe e perceber a máxima: “Este país é nosso. Ama-o ou deixa-o”.

 

O que daí resulta é o nosso direito a não ser assediados, a permanecer a uma distância segura dos outros.

 

Mas as nossas sociedades democráticas são extremamente vulneráveis à violência, como o provam os atentados de Paris.

 

O inimigo anda espalhado por aí, mas, como disse Wendy Brown, “um inimigo é alguém cuja história não se ouviu”.

 

Hannah Arendt tinha razão: “A experiência que temos das nossas vidas pelo lado de dentro, a história que contamos a nós próprios sobre nós próprios dando conta do que fazemos é fundamentalmente uma mentira – a verdade reside no exterior, naquilo que fazemos.

 

Por isso é que a consciência ética ingénua dos terroristas não pode deixar de nos surpreender, pois estas pessoas que cometem terríveis atos de violência contra os seus inimigos são pessoas calorosas e manifestam mesmo uma humanidade ativa relativamente aos membros do seu próprio grupo. 

 

Os fanáticos islamitas não são propriamente gente inculta. Muitos deles são até mentes brilhantes, como é disso prova irrefutável o manuseamento de ferramentas tecnológicas altamente sofisticadas.

 

Mas eles preferem esquecer as humanidades, sujeitando-se a um processo de esquecimento. Zizek chama-lhe denegação fetichista: “Sei, mas não quero saber o que sei, e por isso não sei”. Ou melhor: “Sei, mas recuso-me a assumir inteiramente as consequências desse saber, pelo que posso continuar a agir como se não o soubesse”.

 

Segundo o filósofo e psicanalista esloveno, a divisa cristã: “Todos os homens são irmãos”, significa que aqueles que não aceitam essa fraternidade não são homens.

 

Dá depois o exemplo da mobilização deste paradoxo por Khomeini quando, numa entrevista concedida a periódicos do ocidente, pretendeu demonstrar que a revolução iraniana era a mais humana de toda a história: os revolucionários não tinham liquidado uma única pessoa.

 

Um jornalista surpreendido perguntou-lhe então sobre as execuções capitais noticiadas pelos meios de comunicação. O líder espiritual, e também temporal, iraniano contestou serenamente: “Esses que foram mortos não eram homens, mas cães criminosos”.

 

Talvez a resposta a esta onda de intolerância e violência esteja no amor.

 

Lacan definiu que “o amor é dar-se alguma coisa que não se tem…”. Slavoj Zizek completa a definição do modo seguinte: “…a alguém que não a quer.”

 

Mas uma coisa inquietante sim sabemos. O filósofo francês, nascido em Paris, Gilles Deleuze, bem avisou: “Quem se deixa apanhar pelo sonho do outro está lixado.”


publicado por João Madureira às 07:15
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