Segunda-feira, 7 de Dezembro de 2015

268 - Pérolas e diamantes: confissões de um provinciano

 

Chegou agora a vez dos intelectuais entrarem em guerra e de usarem as palavras para desencadear os devidos efeitos colaterais na populaça. Exemplo paradigmático é o de Clara Ferreira Alves atirando fogo sobre as elites: “Temos políticos muito ignorantes”.

 

O nosso diário mais popular, o CM, resolveu, por seu lado, disparar sobre o novo executivo de esquerda: “Costa chama cega e cigano para o Governo”. Com prosa tão elevada, não ficava nada mal que o nosso jornal de referência terminasse a tarefa, sugerindo-lhes nós, para a palermice ficar completa, que os seus jornalistas se atrevessem a escrever “preto no branco”: “Monhé lisboeta chama para o Governo negra, cega e cigano”. Assim ficava o recado dado sem as discriminações evidentes.

 

Já agora talvez até não fosse má ideia sugerir (à cautela, pois têm grandes probabilidades de acertar) que no executivo socialista também estão representados os homossexuais, maçons e até judeus.

 

Já o prestigiado escritor espanhol (madrileno?) Javier Marías deu uma entrevista ao ípsilon onde se fez porta-voz de um antiportuguesismo militante e serôdio. Este intelectual castelhano decidiu lançar mísseis balísticos contra o nosso melhor treinador de todos os tempos dizendo: “Mourinho foi o pior que aconteceu ao Real Madrid em toda a sua história. Não só por ser uma personagem venenosa e contrária ao espírito tradicional do clube, mas também por ser péssimo treinador”.

 

Não satisfeito com a tirada assassina, este admirador de Shakespeare, que encontra inspiração para os títulos dos seus livros nas obras do dramaturgo inglês, profetizou: “Tenho a impressão de que este ano, no Chelsea, os jogadores estão a perder de propósito para se livrarem dele.”

 

Afinal os castelhanos ainda não esqueceram Aljubarrota nem a nossa velhíssima aliança com a Inglaterra.

 

Nós por cá, indiferentes às más-línguas e invejas seculares, lá vamos fazendo a nossa vidinha de todos os dias. Como europeus periféricos, quase suburbanos, empenhamo-nos em exercer cabalmente a nossa vocação de compradores fanáticos. Fazer compras, para nós, é como dançar o vira. Aos fins de semana lá vamos para as grandes superfícies dar liberdade à nossa veia consumista.

 

Depois ficamos inseguros e confrontamo-nos com o eterno dilema cristão: Devemos conquistar a felicidade ou deveremos ser infelizes para que os outros possam ser felizes?

 

Gostamos de ficar sentimentais, como sucede com a gente rude. Por isso simpatizamos com os políticos que exibem a sua generosidade, todos falinhas mansas, muito, mas mesmo muito, simpáticos, visitando eleitores pobres e idosos em misericórdias, sorrindo, beijando crianças, cumprimentando toda a gente com o ar mais aprazível do mundo… e desaparecendo logo que as câmaras das televisões se desligam.

 

E apreciamos aqueles comentadores que quando lhe fazem a pergunta que encomendaram ao apresentador do programa respondem sempre que a questão tem várias respostas. De seguida catalogam-nas em A, B e C; sendo que a C vem depois da B e a B logo a seguir à A. Mas também temos de contar com a D, a E e muito possivelmente com a F.

 

São pessoas chatas. Alguns de entre nós, os mais educados, consideram que os Marcelos, os Marques Mendes, os Santanas e os Vitorinos, são chatos, não por quererem, mas porque já nasceram assim. Argumentam que ninguém nasce chato por intenção, tal e qual como não se possui um nariz como o do Pinóquio, ou o do Sócrates, porque nos apetece.

 

Outros, nos quais me incluo, acham que as pessoas são chatas deliberadamente. É uma opção pessoal. O que eles verdadeiramente apreciam é o prazer de ouvir a sua própria voz, quer ela seja nasalada, rápida, arrastada ou simplesmente rrridícula…

 

Nós por cá costumamos dizer que alguém possui tendências artísticas quando diz que leu para aí mais de vinte e cinco livros, que consegue pronunciar Baudelaire corretamente e que sabe distinguir um champanhe Moët & Chandon de uma garrafa de espumante da Raposeira, ou um Brie de um Camembert.

 

Os snobes fascinam-nos. Mesmo os revolucionários que sonham com a sociedade onde todos lerão Shakespeare nos transportes públicos e aprenderão a tocar saxofone ou flauta transversal.

 

Kipling escreveu que cada um tem o seu medo, ou coisa parecida. O meu medo é esse mesmo: o medo de ter medo deles.

 

Afligem-me porque são pessoas que combinam em doses certas a beleza, a experiência, a vaidade e a crueldade. Tudo isto embrulhado com o papel celofane da ingenuidade.

 

Pobre de mim, que sou tão provinciano.


publicado por João Madureira às 07:15
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