Segunda-feira, 4 de Janeiro de 2016

271 - Pérolas e diamantes: o capital inútil da inteligência

 

 

A nossa pobreza ainda não é tão desesperada ou congénita como a dos países latino-americanos (pelo menos a das personagens dos romances neorrealistas brasileiros), conhecida entre nós como pobreza franciscana, mas tem muito a ver com aquele tipo de pobreza confiada na lotaria, no euro milhões e nas raspadinhas.

 

Os remediados apostam mais nas comissões, nas influências, no jogo de bastidores, na má-língua, na hipótese da modesta possibilidade, nas cunhas, recomendações e, na falta disto tudo, na esperança.

 

A nossa pobreza consola-se com a hierarquia e aposta sobretudo em Deus. Mas como todos somos seus filhos, fica-lhe mal escolher um de entre milhões. A isto chegamos com a enorme ajuda dos que nos governaram.

 

No Aleph, Borges, através da voz de um mendigo cego e sábio, dá-nos conta de que “não há geração que não tenha quatro homens justos que secretamente sustentam o universo e o justificam diante do Senhor... Mas onde encontrá-los se andam perdidos e anónimos pelo mundo e não se reconhecem quando se veem e nem eles mesmos sabem do alto mistério que cumprem? Alguém então opinou que, se o destino nos negava os sábios, teríamos que buscar os insensatos.”

 

Esta é a nossa desdita, o de termos escolhidos os insensatos em vez de continuar a procurar os homens justos.

 

Mas estas coisas têm sempre dois pontos de vista, que dependem muito da posição que cada um ocupa na sociedade. Nisso estamos de acordo com Longino que, no seu Tratado do Sublime, refere que o conselheiro de Alexandre o Grande, Parménion, ter-lhe-ia dito que se ele fosse Alexandre aceitaria os termos de paz oferecidos pelo inimigo, ao que Alexandre respondeu que os aceitaria se fosse Parménion.

 

Mas também é verdade que, como muito bem diz o pai de Tristram Shandy, é praticamente impossível assentar duas ideias sobre um assunto sem fazer uma hipálage. E o que é isso?, perguntarão os estimados leitores, como muito bem o fez o tio de Tristram, um indefetível militar de carreira. Ao que o pai de Shandy respondeu: “A carroça à frente dos bois.” Tendo o digno militar, de seu nome Toby, inquirido: “E o que estão os bois a fazer aí?”

 

António Sérgio defendia que a polémica é necessária ao progresso da cultura. Dizia que “o primeiro dever de quem faz críticas é ser crítico (e crítico consigo próprio), como o do guerreiro é guerrear e o do marujo é ser marujo: querer ser crítico e odiar o espírito de livre-exame, é ser marinheiro e ter terror à água”.

 

Luiz Pacheco escreveu um dia que “neste país, de baixo a cima, é tudo acintoso quanto não seja elogioso – que se lixem!”

 

Mas eu ainda sou daqueles que pensam que só os cães têm dono.

 

Dei recentemente uma olhadela ao livro Pessimismo Nacional, de Manuel Laranjeira – por vezes tenho destas depressões intelectuais –, e a sua tese bateu-me fundo. Na sua perspetiva, os portugueses são um povo sem coesão nem consciência cívica, pois a sua única consciência é a “consciência moral do servo”.

 

Atentem nestas suas palavras e depois digam-me de vossa justiça: “Numa terra onde homens de génio como Antero de Quental, Camilo e Soares dos Reis, têm de recorrer ao suicídio como solução final duma existência de luta inglória e sangrenta; numa sociedade onde o pensamento representa um capital negativo, um fardo embaraçoso para jornadear pelo caminho da vida; num povo onde essa minoria intelectual, que constitui, o orgulho de cada nação, se vê condenada a cruzar os braços com inércia desdenhosa, ou a deixá-los cair desoladamente, sob pena de ser esterilmente derrotada; num país, onde a inteligência é um capital inútil onde o único capital deveras produtivo é a falta de vergonha e a falta de escrúpulos…” Afinal, que terra é?

 

O Padre António Vieira explicava: “Se servistes a pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma.”

 

Termino citando Luiz Pacheco: “Revolto-me por coisas de que já tinha obrigação de só rir e pouco”.


publicado por João Madureira às 07:15
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