Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2016

273 - Pérolas e diamantes: o ardil da cultura

 

 

Quando lemos livros, muitas das vezes iludimo-nos. Outras, desiludimo-nos. É o ardil da cultura. E, por muito que nos custe, só nos desiludimos porque primeiro algo, ou alguém, nos iludiu.

 

Desta vez enfunei-me como uma vela panda ao vento.

 

A primeira desilusão surgiu-me quando alguém alvitrou a hipótese, consistente por acaso, de Os Lusíadas, de Luís de Camões, serem um plágio da Eneida, de Virgílio.

 

Amuei. Mas continuei a ler ambos os livros sem me importar, por aí além, com a insinuação. A dúvida é legítima. Mas não foram só obras ou gestos dos outros que nós tentámos copiar. Também fomos exemplo.

 

De certeza que se lembram dos principais factos relativos aos primeiros anos da nossa história enquanto nação.

 

Lembram-se, com certeza, que a rainha D. Urraca era a regente do Condado Portucalense, nominalmente dependente de Leão e Castela. Após a sua morte, em 1127, sucede-lhe no trono Afonso VII, intitulado “imperador de toda a Hispânia”. De imediato procurou a vassalagem dos demais reinos e também do Condado Portucalense, que desde há algum tempo evidenciava inclinações autonómicas ou mesmo independentistas.

 

Em 1128, o nosso querido e estimado Afonso Henriques, então com o sangue todo na guelra devido aos seus 20 anos, foi eleito chefe dos Barões, grupo de interesses que temia a influência galega sobre Portucale. Diz a história que o receio foi tanto que o futuro rei se viu forçado a batalhar contra as forças da sua própria mãe, Teresa de Leão, na altura perdida de amores por um nobre galego. Estou em crer que o complexo de Édipo teve alguma coisa a ver com a nossa independência, mas essa já é outra história que aqui agora não cabe.

 

O jovem Afonso Henriques vence as tropas dos seus adversários nos campos de São Mamede e assume a liderança política do condado, manifestando desde logo a firme intenção de lutar pela sua independência. E até alargar as suas fronteiras.  

 

Preocupado com esta situação, Afonso VII decide fazer um cerco a Guimarães, na altura sede do condado, exigindo da parte do seu primo Afonso Henriques um juramento de vassalagem. Este decide então enviar o seu aio Egas Moniz como mensageiro para comunicar ao imperador que Afonso Henriques aceitava a submissão.

 

Por várias razões, em 1131, Afonso Henriques decide mudar a sua capital para Coimbra. Não só muda de capital como muda de ideias. Cheio de força, resolve anular os laços que o ligavam a Afonso VII. Em 1137 invade a Galiza e trava a batalha de Cerneja, da qual saem vitoriosos os portucalenses.

 

No meio de tudo isto, está um homem que preza a sua palavra acima de tudo. Como Afonso Henriques não cumpriu o acordado, segundo reza a lenda, Egas Moniz desloca-se a Toledo, então a capital do Império, descalço e com uma guita ao pescoço. Acompanhado pela esposa e respetivos filhos, colocou ao dispor do imperador a sua própria vida e a dos seus, como garantia da manutenção do juramento realizado nove anos antes.

 

O imperador, impressionado com tanta honradez, perdoou-o e disse-lhe para voltar em paz a Portucale.

 

Este episódio é recontado por Camões no Canto III dos Lusíadas (estrofes 35-40).

 

Pois lendo o hilariante A Vida e Opiniões de Tristam Shandy fiquei a saber que o gesto de Egas Moniz foi seguido, aquando de um cerco a Calais, por Eustace de St. Pierre, que num gesto de bravura, foi o primeiro a oferecer-se como vítima para salvar os seus concidadãos, elevando assim o seu nome à fileira de heróis.

 

Na rendição de Calais, em 1347, após um ano de cerco levado a cabo pelo monarca Inglês Eduardo III, os habitantes foram salvos de um massacre pelo tal Eustace, que se apresentou perante o rei descalço e de corda ao pescoço.

 

Foi com o aio do primeiro rei de Portugal que aprendemos a ser pobres mas honrados.

 

Aprendemos isto na escola, na altura em que, como escreveu Jorge Luis Borges, qualquer casa era um candelabro onde ardiam as vidas dos homens como velas isoladas.

 

E é citando o escritor argentino que termino por hoje: “Felizmente, o copioso estilo da realidade não é o único; há também o da recordação, cuja essência não é a ramificação dos acontecimentos mas o perdurar de aspetos isolados. É esta poesia a natural da nossa ignorância, e não vou procurar outra.”


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 13 seguidores

.pesquisar

 

.Dezembro 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Poema Infinito (486): Dis...

. Em Paris

. Em Paris

. 472 - Pérolas e Diamantes...

. Feira dos Santos

. ST

. Na cozinha

. Poema Infinito (485): Sed...

. Olhares

. Vacas e balizas

. 471 - Pérolas e Diamantes...

. Em Amarante - Cultura que...

. Na feira

. No Porto

. Poema Infinito (484): Eco...

. Chega de bois em Boticas

. No Barroso

. 470 - Pérolas e Diamantes...

. Interiores

. Castelo de Montalegre

. No Barroso

. Poema Infinito (483): Ilu...

. No Barroso

. Na aldeia

. 469 - Pérolas e Diamantes...

. Na aldeia

. Noturno

. ST

. Poema Infinito (482): Res...

. No Barroso

. No Louvre

. 468 - Pérolas e Diamantes...

. AB

. VS3

. VS2

. Poema Infinito (481): Que...

. VS

. CL

. 467 - Pérolas e Diamantes...

. Pisões

. Misarela

. Olhares

. Poema Infinito (480): As ...

. Na Abobeleira

. Barroso

. 466 - Pérolas e Diamantes...

. São Sebastião - Alturas d...

. Em Coimbra

. No Louvre

. Poema Infinito (479): Ao ...

.arquivos

. Dezembro 2019

. Novembro 2019

. Outubro 2019

. Setembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar