Segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2016

275 - Pérolas e diamantes: a plebe e os plebeus

 

 

Rindo-se generosamente orgulhoso como um pavão, o meu amigo disse: “És como um velho e sensato mocho que habita as bonitas florestas dos livros, pois quanto mais ouves menos dizes, e quanto menos dizes mais ouves. Um homem sensato é aquele que ouve e nada diz.”

 

Os amigos são para as ocasiões, pensei.

 

Olhei então para ele e sorri, fazendo-me distraído. O meu amigo que é homem de boas leituras, inspirado em Flann O’Brien (At Swim-Two-Birds; Uma caneca de tinta irlandesa), atirou-me com o trocadilho murmurado por Dermot Trellis: “Ars est celare artem” (arte é esconder a arte).

 

Para vilão, vilão e meio. Arremessei-lhe com uma flor filosófica atribuída a Platão: “Tentar uma troca de favores com os deuses é um pensamento que só pode nascer na mente mercantilista de um ateu”.

 

Rimo-nos os dois. Fazemo-lo algumas vezes, para não chorar. Nós conhecemos bem os lobos, quer seja pelo focinho, quer seja pelas garras ou simplesmente pela atitude ameaçadora. Um lobo não deixa de o ser, mesmo quando dorme.

 

Com a nossa idade, com os lutos e as derrotas, até as pequenas coisas se nos tornam intoleráveis. Mesmo o murchar de uma flor ou o agonizar de um animal nos ferem profundamente.

 

No inverno morrem os pássaros de frio. Caem das árvores como frutos maduros. 

 

Assistimos agora ao triunfo dos plebeus. Sinais dos tempos. Ai a plebe, a plebe. Até Napoleão gostava dela e chegou mesmo a apreciá-la devotamente. Por isso foi imperador.

 

A plebe foi sempre um alfobre de heróis. Foi com a plebe que a revolução triunfou e os talentos de classe se revelaram. Foi com ela que o engenho humano restaurou os seus direitos. E foi com os seus filhos prediletos que Napoleão conquistou um império e capturou as pirâmides do Egito.

 

Os melhores marechais de Bonaparte vieram da plebe. Augereau era filho de um pedreiro; Murat, de um estalajadeiro; Ney, de um taberneiro; Lannes, de um moço de estrebaria; Lefebvre, de um moleiro; Drouot, de um padeiro; e o nosso conhecido Masséna era filho de um mercador de vinho e azeitonas.

 

Vive la France.

 

Tudo isto me transportou até 1814, ou melhor, até ao capítulo XII das Memórias Póstumas de Brás Cubas, onde o plebeu brasileiro (crioulo?), Machado de Assis (neto pelo lado paterno de escravos negros libertos, filho de um pintor de construção civil e de uma lavadeira açoriana), nos lembra, através do dito Brás, que nove anos antes o imperador Napoleão estava no máximo esplendor da glória e do poder. Só que o pai de Brás, o tal Cubas, insistindo na força de persuasão da nobreza da família, acabou por se convencer que nutria, em relação ao imperador europeu, um ódio puramente mental.

 

Era isso pretexto para renhidas disputas lá em casa, porque um seu tio João (ai estes Joões!), possivelmente “por motivos de classe e simpatia de ofício, perdoava no déspota o que admirava no general. Já o seu tio padre era inflexível contra o corso. Pudera!

 

Brás Cubas lembrava-se de lhe terem oferecido um espadim novo, por alturas do Santo António, brinquedo que lhe interessava mais do que a queda de Napoleão. Nunca mais se esqueceu desse facto. Nunca mais deixou de pensar que o espadim de cada um é sempre maior do que a espada de Bonaparte.

 

Ensinaram-me que devemos ser fiéis aos princípios. Até sacrificarmo-nos por eles. Mas talvez Quincas Borba, outro personagem de Machado de Assis, tenha razão quando confessa que nunca tentou conciliar princípios, mas homens.

 

Os nossos homens de Estado são tão importantes como o brasileiro Rubião, que, quando num jantar se despediu dos outros comensais, falando de política e de putativos governos de que tinha obrigatoriamente de fazer parte, mergulhado na sua irreversível loucura, “referiu vários factos de guerra. Por exemplo, tinha restituído a Alemanha aos alemães; era bonito e político. Já havia dado Veneza aos italianos. Não precisava mais território; as províncias do Reno, sim, mas havia tempo de as ir buscar.”


publicado por João Madureira às 07:15
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