Segunda-feira, 9 de Maio de 2016

289 - Pérolas e diamantes: o presidente, o poeta, o ministro e o homem da fruta

 

Espalhou-se entre nós uma espécie de saturação da novidade.

 

Marcelo Rebelo de Sousa, no seu primeiro discurso numa cerimónia do 25 de Abril, armou-se de coragem e distribuiu recados à esquerda e à direita, conseguindo assim receber mais aplausos do que é normal. O país assiste pachorrento a um banho de “marcelomania”.

 

Marcelo, que como é seu timbre e feitio, já foi contra e a favor do Acordo Ortográfico, resolveu ir a Moçambique e, entre outras minudências, mostrou vontade de reabrir a discussão sobre o AO, pois confia que nem Maputo nem Luanda vão ratificar o polémico documento.

 

O ex-comentador político quer a todo o custo surgir como presidente de todos os portugueses e, se não lhe põem barreiras, também de alguns espanhóis e de muitos cidadãos da CPLP.

 

Generoso nos sorrisos, nos abraços e nos beijos, o novo presidente parece querer ser parcimonioso na distribuição das medalhas. No dia 10 de Junho apenas vai condecorar uma pessoa: Margarida de Santos Sousa, a corajosa porteira que socorreu em sua casa feridos dos atentados na discoteca parisiense Bataclan que mataram mais de 100 pessoas, em abril de 2015. Ao contrário de Cavaco, Marcelo pretende ser contido na atribuição de medalhas que considera só se justificarem em casos excecionais.

 

Talvez fascinado com Jerónimo de Sousa, o senhor presidente Marcelo escolheu João Caraça, representante da Gulbenkian em Paris e filho do matemático comunista Bento de Jesus Caraça, para presidir às comemorações do 10 de Junho, que este ano decorrerão na capital francesa.

 

Quem também anda exaltado é o laureado poeta Manuel Alegre que no dia 25 de Abril recebeu o prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores, por pérolas poéticas como esta intitulada “País”: “Não sei se sem poemas há país / ou sem eles se perde o pé a fé e até / esse país que está onde se diz / Ai Deus e o é? // Alguns julgam que é tanto vezes tanto / capital a multiplicar por capital / país é um café e a mesa a um canto / onde um poeta sonha e escreve e é Portugal. // Levantou-se a velida levantou-se a alma. / Por mais que o mundo nos oprima e nos esprema / há sempre um poema que nos salva / país é onde fica esse poema.”

 

Eufórico e a encher-se de prémios e medalhas, o rei do Clube dos Poetas Vivos foi mesmo mais longe, até onde nunca tinha ido, e confessou que não votou no Marcelo Rebelo de Sousa. Mas da próxima vez já não sabe. “Se isto continuar assim, se calhar voto”.

 

Que alegre anda o Manuel da “Praça da Canção”. Já não se canta como soía.

 

Imbuído desta mesma euforia anda também o senhor ministro da Educação que decidiu mais uma vez mudar os currículos das escolas públicas nacionais. Resolveu para isso deixar as instituições decidir 25% dos currículos, criar disciplinas e reforçar matérias. As metas impostas pelo seu antecessor Crato vão ser encurtadas, pois, na sua perspetiva, a “Matemática e o Português são tão estruturantes como as artes”, talvez querendo inverter a ordem dos fatores para servir como metáfora.

 

O senhor ministro faz parte do eterno problema de estarmos sempre a voltar ao mesmo. Cada novo governo cede sempre à tentação corriqueira de mudar o que encontrou feito e concluído. É essa instabilidade permanente que prejudica quem menos devia ser prejudicado em todo o sistema de ensino: os alunos.

 

Finalmente Pinto da Costa vai a julgamento. E não é nem por causa do Apito Dourado ou da salada de frutas em que anda metido vai para alguns anos. Ele, Antero Henrique e outros arguidos serão julgados no âmbito da “Operação Fénix” por terem contratado os serviços de uma empresa de segurança ilegal. Ao todo, são 57 os acusados de associação criminosa, exercício ilícito de segurança privada, extorsão e coacção. 

 

É o FCP a perder em todas as frentes. Três anos de penúria de títulos podem acabar em desastre. Quem anda à chuva molha-se.

 

Arturo Pérez-Reverte tem razão. Aos tontos não há forma de convencê-los a que deixem de o ser. É preciso descer ao seu nível. E, nesse sentido, os tontos são imbatíveis.


publicado por João Madureira às 07:15
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