Quinta-feira, 16 de Julho de 2009

Deus é um instante

 

 

Estão as bocas ocupadas com as emoções escuras. Um prazer lento invade-me o corpo. Oiço-te cantar e sinto como é rápido o modo de amar e de sofrer. As mãos, também lentas, absorvem a canção, o tempo e a beleza. A terra dorme e acorda no meio de uma estação. E essa estação está ainda a meio de o ser. Essa estação já é outra estação e essa é ainda outra estação. Alguém se debruça sobre terra e treme de prazer. O vento fustiga os vales. As flores são agora rebentos de solidão. Tu escreves a palavra “malícia” sem malícia. Andam amargas as vozes brancas de solidão. Procuro as palavras que não encontro. Encontro as palavras que não procuro. Encontro-te no meio das palavras que não escrevo. Alguém procura dentro do meu sonho as noites espantosas do silêncio. O silêncio amargo das vozes ancestrais. As vozes das crianças solitárias. Alguém chama por mim directamente do branco da solidão. Um estrangeiro bate à porta do tempo. O tempo escreve a canção dos frutos e não consegue ouvir. A beleza devora a imagem do tempo. O tempo devora o tempo. O tempo devora a imagem. A imagem devora a beleza do tempo. Quase sempre deus é um instante.


publicado por João Madureira às 22:00
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