Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2016

321 - Pérolas e diamantes: a política e o diabo ou o diabo da política

 

 

Um ditado atribuído a Konrad Adenauer diz que “não se deita fora a água suja enquanto não se tiver água limpa”. Mas estou em crer que preservá-la depois de se ter água limpa ali mesmo à mão de semear é teimosia desnecessária.

 

Svetlana Alexievich conta que os tajiques de Kulob matavam os de Pamir e os tajiques de Pamir matavam os de Kulob. Depois juntavam-se na praça a gritar e a rezar. Intrigada, perguntou aos anciãos a razão de tal desvario. Afinal, protestavam contra quem? Responderam: “Contra o parlamento. Disseram-nos que é um homem muito mau, o parlamento.” Depois a praça ficou deserta e começaram a disparar.

 

Isto passou-se lá para o Leste. Mas por aqui a desgraça pode vir a ser a mesma. Os números, esses ingratos, dizem que os cidadãos estão cada vez mais afastados da política. E à medida que a idade desce, esse desinteresse aumenta. Um em cada quatro jovens não quer, pura e simplesmente, saber de política.

 

As pessoas estão afastadas dos políticos que os têm representado desde sempre. Qualquer dia também por cá o parlamento vai passar a ser conhecido como um senhor muito mau.

 

Uma coisa é evidente: existe pouca, ou nenhuma, reflexão política sobre como devemos enquadrar os jovens.

 

Por enquanto, os jovens não são despolitizados, não estão é interessados na política dominante. Daí as vitórias surpreendentes do Syriza, na Grécia, ou do Movimento 5 Estrelas, em Itália.

 

O triunfo de Berlusconi, Beppe Grillo e Trump representa a espetacularização da política. Boaventura Sousa Santos considera que tudo isso se fica a dever ao facto de a ideologia ter sido substituída por uma sociedade mediática.

 

Os cidadãos deixaram de acreditar nos partidos, na sua capacidade de conseguirem resolver os problemas concretos das pessoas. O politólogo Carlos Jalali defende que “não existe um alheamento da política”. Há, isso sim, “um alheamento das elites políticas” que resulta “de uma insatisfação com as opções partidárias e uma descrença com as políticas públicas”.

 

Depois lá está o dinheiro. Para o economista ultracatólico João Cesar das Neves, “os portugueses nascem convencidos de que todos os seus males se devem aos políticos ou aos ricos, em especial aos banqueiros. (…) Nunca podemos esquecer que vivem da boa vontade dos seus eleitores ou clientes.”

 

Talvez por conhecer os fariseus que conspurcam o Templo, o Papa Francisco veio pôr os pontos nos is: “O maior inimigo da Igreja é o dinheiro. (…) Santo Inácio ensina-nos: a riqueza começa a corromper a alma; depois é a vaidade – as bolas de sabão, com uma vida vaidosa, a aparência, a boa figura… Por fim, a soberba e o orgulho. Daqui derivam todos os pecados.”

 

O líder parlamentar do PS, Carlos César, vai em busca do Tentador disfarçado de dirigente partidário. Para ele é Passos Coelho, pois “parece tomado pelo diabo e não há exorcista, ou candidato a exorcista, seja ele Luís Montenegro, Santana Lopes ou Rui Rio, que lhe explique que não pode atacar toda a gente, (…) só porque o país está melhor.”

 

É caso para dizer, quem não quer ser mafarrico não lhe deve vestir a pele. O cronista João Pereira Coutinho avisa a navegação à vista do PSD: “Se esta semana ensinou alguma coisa a Passos Coelho foi a não fazer oposição com profecias. Até porque esperar que o diabo apareça é não conhecer as manhas do mafarrico.”

 

O ministro-adjunto Eduardo Cabrita veio porém evidenciar que talvez esteja possuído por alguma alma transviada, pois decidiu desresponsabilizar todos os autarcas das decisões financeiras que tomam. As eleições autárquicas estão aí à porta e por isso convém evitar alguns danos colaterais. 

 

Existe ainda uma outra elite que também tem a sua cota parte de responsabilidade na gestão da coisa pública. Estou a referir-me ao meio literário português; pois quase todo ele se alimenta da proximidade ao poder. Não podemos esquecer que um dos seus mais legítimos representantes foi até secretário de Estado do governo de PPC. Para bem da sua alma, ainda se arrependeu a tempo. O Padre Fontes deve tê-lo exorcizado.

 

O crítico e escritor João Pedro George, autor da biografia do ex-primeiro-ministro Mota Pinto, conhece bem as celebridades. Em entrevista referiu que uma das idiossincrasias do nosso meio literário é aceitar com grande dificuldade a crítica frontal, confundindo-a com maledicência, que não é o seu caso, “pois a maledicência é feita nas costas” e o João diz as coisas na frente. “É um meio profundamente hipócrita” – sublinha –, “pois à boca pequena dizem pessimamente uns dos outros e, depois, quando se ligam os microfones e os holofotes, são todos maravilhosos”.

 

Rentes de Carvalho, até porque está radicado lá fora, escreveu que “na Holanda vive-se sem necessidade de pedir favores, meter cunhas, pagar luvas. (…) Portugal dói-me. Outras vezes envergonha-me, enraivece-me, faz-me desesperar”.

 

Quem nos avisa nosso amigo é.

 

Também a mim me deu a mesma vontade de Hillary Clinton, de se “enrolar no sofá com um bom livro e nunca mais sair de casa”. 

 

Coitado do Obama. Que a melanina o não confunda.


publicado por João Madureira às 07:15
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