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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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23
Jan17

325 - Pérolas e diamantes: sobre um monólogo de Chernobyl, pensando em Almaraz

João Madureira

 

 

 

Num livro de Svetlana Alexievich um homem foge do mundo para passar a viver no paraíso, onde não há pessoas, apenas animais. Pássaros e outros animais. Esqueceu-se da sua própria vida. Pensa que as pessoas são injustas porque o Senhor é imensamente paciente e misericordioso.

 

E porquê?, pergunta ele a si próprio e logo respondendo: “O homem não pode ser feliz. Não deve. O Senhor viu Adão solitário e deu-lhe Eva. Para a felicidade, não para o pecado. Mas o homem não consegue ser feliz. Eu, por exemplo, não gosto do crepúsculo. Desta transição, como agora… Da luz para a noite… Penso, mas não consigo compreender onde estive antes…”

 

Para ele, o homem é requintado só no mal, mas simples e acessível nas palavras cândidas do amor.

 

Depois de fugir do mundo, nos primeiros tempos vagueou pelas estações ferroviárias. Gostava delas porque estavam cheias de gente. Mas ele estava só.

 

Como carregava o pecado, foi para Chernobyl. Passou-lhe a ser indiferente viver ou não viver, pois a vida humana é como uma flor: “Desabrocha, mirra e acaba no fogo.”

 

Passou a gostar de pensar. Em Chernobyl pode-se morrer tanto do ataque de um animal como do frio. E também se pode morrer de pensar.

 

Por lá não se vê um ser humano em dezenas de quilómetros. Expulsa o Demónio pelo jejum e pela oração. O jejum é para a carne, a oração para a alma. Confessa que nunca se sente só. “Um crente não pode ser solitário.”

 

Passa pelas aldeias. Nos primeiros tempos encontrava massa, farinha, óleo vegetal e enlatados que as pessoas deixaram no momento das evacuações.

 

Agora procura os túmulos, pois as pessoas deixam comida e bebida aos mortos. “Mas eles não precisam disso…”

 

E não se ressentem com ele…

 

Apesar da radioatividade, nos campos cresce centeio selvagem e na floresta há bagas e cogumelos.

 

Ali, em Chernobyl, está à vontade. E lê muito. Por ali é fácil encontrar livros. Não se encontram jarros de barro, garfos ou colheres, mas livros arranjam-se sem dificuldade.

 

E lembra-se de algumas ideias que leu num de que não recorda o título nem o nome do autor. Mas memorizou a ideia: “O mal em si não é uma substância, mas a privação do bem, assim como a escuridão não é outra coisa senão a ausência da luz.”

 

Ali sozinho, pensa na morte. Passou a gostar de pensar e o silêncio favorece a preparação.

 

Um dia expulsou da escola uma loba com os seus dois filhos que lá viviam.

 

“Pergunta: Será verdadeiro o mundo consubstanciado na palavra? A palavra está entre o homem e a alma. Pois é…”

 

Sente mais próximo de si os pássaros, as árvores e as formigas. Dantes não conhecia tais sentimentos.

 

“O homem é aterrorizador… E estranho…”

 

Ali não lhe apetece matar ninguém. Arranjou uma cana de pesca e costuma ir pescar. Pois é…

 

Mas não dispara contra os animais.

 

O seu herói preferido é Mychkin que disse: “Como é possível ver uma árvore e não estar feliz?” Pois é…

 

Gosta de pensar. “Mas o homem queixa-se mais do que pensa…”

 

“Para que serve perscrutar o mal? O mal também não é a física!”

 

Tem medo do homem. Mas pretende sempre encontrá-lo. “Um bom homem. Pois é…”

 

Em Chernobyl ou vivem os bandidos, que se escondem, ou alguém como ele. Um mártir.

 

“O meu nome? Não tenho passaporte. A polícia levou-mo… Espancou-me: «Porque andas a vaguear?» «Não ando a vaguear; ando-me a arrepender.» Espancaram-me ainda mais. Bateram-me na cabeça… Escreva então: servo de Deus, Nikolai… Agora, um homem livre.”

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