Segunda-feira, 8 de Janeiro de 2018

374 - Pérolas e diamantes: O incómodo e a ignorância

 

 

 

Há os que são odiados pelo que representam e também há muita gente amada pelo que faz. Juízos de valor não faço. Ensinaram-me que tudo é relativo.

 

A única obrigação que assumi perante mim próprio foi a de escrever o melhor possível. Quando tentamos satisfazer as expectativas e as exigências de outros acabamos, invariavelmente, por cair na mediocridade. Só ouvindo a nossa voz interior é que podemos produzir algo de duradouro.

 

A verdadeira cultura consiste naquilo de que nos lembramos depois de termos esquecido tudo o resto.

 

Acredito na poesia, pois não há dimensão mais espiritual do que a poesia. A poesia é a disciplina suprema.

 

A literatura deixou de ser útil. É apenas residual. Perdeu quase todo o impacto sobre a sociedade. Eu cresci na admiração pelos intelectuais. Eram os heróis do meu tempo.

 

Há por aí espalhado muito talento estéril.

 

O incómodo é permanecermos parados no meio das dúvidas, debaixo de camadas e camadas de hábitos que fazem resvalar o chão que pisamos.

 

Tal como Jonathan Franzen, necessito de ter um romance em construção porque posso frequentar todos os dias esse espaço. Dessa forma a minha vida adquire sentido.

 

Entristeço-me com a falta de cultura, sobretudo com a falta de cultura dos homens que se dedicam à política. Esses enormes burocratas do sistema partidário.

 

Parte substancial dos dirigentes políticos que todos conhecemos foi-se treinando na carreira partidária. Fora daí são como peixe em terra. Começaram desde pequeninos. E foi na prática da vida partidária que adquiriram os tiques conspirativos e manipuladores de direção e gestão.

 

Como todos sabemos, a maioria deles transporta consigo uma simpatiquíssima ignorância. Citam filósofos de trazer por casa e algumas frases e lugares comuns que respigam dos livros de autoajuda. São mestres em literatura de badana e em frases soltas. Não possuem nenhum conhecimento básico consolidado.

 

Foram eles os que nos enganaram, esses lacaios keynesianos, tão amados pelos bancos e pelos média. E também os economistas comportamentalistas que sabiam que o mercado não é influenciado por taxas de juro e flutuações do PIB, mas, sim, pela ganância, pelo medo e pela ilusão fiscal.

 

As pessoas não são pobres por terem tomado opções erradas, tomam opções erradas porque são pobres.

 

A pobreza não é um simples título de jornal. É uma realidade bem lixada.

 

Parece que uns têm de perder para outros ganharem.

 

Querem-nos fazer acreditar que há limites para aquilo que o dinheiro pode fazer acontecer. Mas, por muito que nos custe a todos, não há. O dinheiro é o hábito mais fácil de adquirir.

 

Não interessa de onde as ideias vêm, mas para onde elas vão e nos conduzem. Ninguém consegue ver a floresta estando no meio das árvores.

 

Exasperam-me aqueles políticos que se comportam como os polícias que além de nos passarem a multa ainda nos dão um sermão. Costumo dizer que ou uma coisa ou outra.

 

Depois há os irritantes que nos perguntam aquilo que estamos a ler e que nos dizem aquilo que estão a ler, o que pretendem ler, o que se arrependem de ter lido e que dizem às pessoas aquilo que leram, mas que na verdade nunca leram.

 

Já há muito tempo que me fartei de ser como o Godard, de ver o cinema através dos olhos da crítica.


publicado por João Madureira às 07:15
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