O pêlo macio da égua

“Agora o céu já estava claro, o sol invisível atrás de nuvens baixas. Mr. Savage apontou uma águia careca às voltas por cima de nós.
– Benjamim Franklin era contra adoptarmos a águia careca para símbolo nacional – murmurou –, queria o raio do peru selvagem. Era o que faltava! Dizia que era por a águia viver em parte de matar outros pássaros.
Fungou divertido, limpou ostensivamente o nariz à manga: – Por mim parece-me muito própria.
Chupou pensativamente o cigarro.
– Sei que o Will não queria vir aqui hoje – murmurou, lançando o olhar para mim. – Há dois anos, ele devia ter ido caçar codornizes para o Delta, comigo e mais uns tipos meus amigos. Tinha ficado por aí até tarde com o capataz que nós tínhamos. (…)
– Bom. O Will ficou na cama e eu trouxe comigo o irmão mais novo. Fomos caçar a cavalo. O Charlie Ledbetter tinha tirado a arma do estojo por qualquer razão e a certa altura o cavalo dele meteu a pata num buraco e caiu. A arma disparou-se. Atingiu o moço, o A.J., em cheio no peito. Levantou-o da sela.
Caiu um silêncio ao som de um bando a aproximar-se, que acabou por desaparecer para leste.
– Acho que o Will se considera culpado – disse ele. – O que não quer dizer que não me culpe a mim.
Ficámos de novo em silêncio durante algum tempo e depois ele voltou a falar.
– Alguma vez ele lhe contou esta história?
– Não, senhor – disse eu. – Não assim.
– Não há um dia que passe em que não deseje que tivesse sido eu quem estava montado no pêlo macio daquela égua.
O Último dos Savage – Jay Mcinerney – Teorema

