Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2018

381 - Pérolas e diamantes: Vícios

 

 

Uma coisa, segundo André Canhoto Costa, autor do livro Os Vícios dos Escritores, separa Shakespeare de Camões. O primeiro, como bom britânico, queria criar público para ganhar dinheiro, enquanto o nosso poeta pretendia, como é compreensível, bajular um rei, construir pateticamente um sentido patriótico de povo e inscrever o seu nome na galeria dos poetas imortais. 

 

Camões podia incluir-se no grupo dos escudeiros. Não era fidalgo, mas ser escudeiro era uma função antiga que consistia em ajudar o cavaleiro a armar-se e a montar. Ou seja, Camões era uma espécie de Sancho Pança. Nos finais da Idade Média, os escudeiros confundiam-se com os cavaleiros, dado que na guerra eram por vezes mais eficazes.

 

Também Vasco da Gama, mais tarde conde da Vidigueira, era um escudeiro, filho de um oficial da fazenda.

 

Ou seja, Camões estava entalado entre a alta nobreza e um bando de nobres que não tinham onde cair mortos. Teve uma infância misteriosa, tão misteriosa que há historiadores que o “fazem” nascer em Vilar de Nantes. Não andou na universidade, ou, pelo menos, não existem registos que o comprovem.

 

Por incrível que pareça, tal como Shakespeare, Camões sabia pouco latim e ainda menos grego. Mas de uma coisa temos a certeza, leu os poetas: Petrarca, Garcilaso, Boscán, Bembo, Sanazzaro, Ariosto.  E também as crónicas do reino. E os filósofos.

 

Camões foi criado na casa dos Noronhas, onde serviu D. Francisco e D. Violante e frequentou vários palácios. Naquele tempo era costume muitos jovens com certa aparência de nobreza, mas sem grandes posses, a não ser as do talento, terem acesso à mesa do rei e serem frequentadores das grandes casas do reino. Aprendiam letras e faziam companhia aos filhos dos aristocratas, desempenhavam o papel de companheiros de brincadeira e, entretanto, aprendiam a nobre arte de não contar nada e de sorrirem quando os questionavam.

 

Camões foi um desses, mas depressa começou a perder o sorriso.

 

O historiador do século XIX, Oliveira Martins, no seu livro Camões, fala na trilogia típica da juventude do poeta: mulher, mesa e amigos. De facto, Camões participava num certo luxo, exibindo as camisas bordadas, as ceroulas de chamalote, as carapuças de solear e os chapéus de abas exageradamente largas.

 

Andava bem vestido. Mas, mesmo assim, adquiriu fama duvidosa. Talvez a sua ilusão o tenha levado a tomar liberdades perigosas. Ganhou a reputação de poeta boémio. Chamavam-lhe o trinca-fortes. Frequentava tabernas, locais dissolutos em Alhos Vedros e no Barreiro e andava até por casas de boticários, o que talvez indiciasse algum interesse por substâncias alucinogénias.

 

A sua vida era passada na companhia de fidalgos e também por grupos de escravos, mulatos e negros.

 

Segundo André Canhoto Costa, Camões poderá ter sido bastardo ou judeu, que por causa das gajas e das zaragatas perdeu um olho, e também um homem que por causa do seu desejo ardente lixou a vida. Foi condenado ao exílio e enviado para uma terra sem mulheres. Poderá haver maior desterro?

 

Foi ainda ladrão e um vigarista pouco talentoso com algum jeito para as contas.

 

Já Frederico Lourenço, o exímio tradutor da Épica Grega e da Bíblia, avançou, numa sua desconhecida obra de ficção, com a tese de um Camões homossexual. Era o que mais nos faltava.

 

Por seu lado, e seguindo a tese de André Canhoto Costa, o professor Aguiar da Silva, na sua obra crítica sobre José Hermano Saraiva, intitulada Camões: Labirintos e Fascínios (1994), não acrescenta grandes explicações para algumas “das dilacerantes queixas de abuso, apresentadas por Camões na sua lírica, para lá de uma enxurrada de citações clássicas. Com efeito, Camões nunca se cansa de nadar numa torrente de sadomasoquismo atormentado, perseguições, erros, culpas, prisões e desterros.”

 

A grande questão do autor é sobre se será possível um louco poder escrever uma obra-prima.  Os especialistas dizem que a vida dos autores não encerra nenhuma utilidade para compreender os seus livros.

 

No entanto, os estudos sobre as grandes obras literárias acabam sempre por explicá-las através da vida e personalidade dos escritores.

 

Este livro revela-nos que, por exemplo, Kafka foi sempre um hipocondríaco vegetariano com um gosto suspeito por menores; que Eça de Queiroz era um vaidoso mulherengo com tendência para o cinismo; que Camilo Castelo Branco tinha tendências maníaco-depressivas e uma forte propensão para o jogo; que Dickens manteve uma amante secreta e expulsou a mulher de casa; que Gogol era um fanático religioso e um homossexual reprimido; e que Dostoiévski arruinou financeiramente a família no casino. 


publicado por João Madureira às 07:15
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