Segunda-feira, 5 de Março de 2018

382 - Pérolas e Diamantes: O prego e o parafuso

 

 

Inspirado nas palavras do músico de jazz Duke Ellington, posso dizer que só existem dois tipos de literatura: a boa literatura e a outra. O Vendido, romance de Paul Beatty, pertence, indiscutivelmente, à primeira.

 

Também eu já estou cansado, porque, tal como a Marpessa, chega de ver as mulheres negras a serem invariavelmente descritas conforme o tom de pele. “Não sei quê cor de mel! Não sei quê mais chocolate negro!” A sua avó paterna era cor de mocca, café com leite, castanho bolacha torrada.

 

A namorada do Me pergunta-se, e com razão, porque é que nunca descrevem as personagens brancas comparando-as com a comida e bebidas quentes? Porque carga de água é que não existem “protagonistas da cor do iogurte, branco casca de ovo, pele cor de queijo magro, branco leite magro, nestes livros racistas sem terceiro ato? É por isso que a literatura negra é uma merda”. Afinal, as pessoas brancas também têm cor de pele. Já pensaram nisso?

 

Kalaf  Epalanga, no seu livro Também os Brancos Sabem Dançar, deixa alguém desabafar: “Nós, angolanos, somos bons de discussão, pobres de argumentação e teimosos em mudar de ideias, porque não nos ensinaram a viver com a mudança, nunca somos chamados a opinar em concordância ou discordância com coisíssima nenhuma.”

 

O pai da sua esposa por conveniência, afirma, a dado momento, que chegou a acreditar em José Eduardo dos Santos, a quem apenas os inimigos lhe são leais. Ele sabe que os amigos são falíveis, mas os inimigos não. Dificilmente um inimigo trai a nossa confiança, pois se o fizesse estaria a contrariar a sua própria natureza. E olhem que sei daquilo que vos falo, por experiência própria.

 

Agora também eu brindo ao mau gosto, pois sei que os foleiros também têm coração. Todos nós sabemos que o que hoje é desdenhado e ridicularizado, que é foleiro, amanhã será moda. O povo tem destas manias. E não se lhe pode levar a mal.

 

Alguns dizem que tudo isso é kitsch, utilizando essa forma snob de dizer foleiro. Até a quizomba é foleira, bem assim como muitas outras coisas: o kuduro, o fado e o vira do Minho. O amor, por exemplo, também é foleiro. Quando o verbalizamos, por mais voltas que se lhe dê, soa sempre kitsch.

 

O meu pai, que era GNR, dizia que a arma mais poderosa que se pode carregar é a inteligência.

 

Segundo uma interessante metáfora que li no livro do músico e escritor angolano, membro da banda Buraka Som Sistema, “à distância, um parafuso e um prego parecem iguais, a diferença é que um precisa de uma chave de fendas e o outro de um martelo”.

 

Há quem acredite em Deus e no Diabo. Eu, pelo lado que me toca, não sei se Deus é para levar a sério, mas sobre o Mafarrico penso como Charles Baudelaire: “O maior truque que o Diabo já criou foi convencer o homem de que ele não existe”. Para quem é famoso, a lei será sempre condescendente. É mais importante ter uma boa marca do que bom material. Vivemos na era dos assessores.

 

Basta olhar para o estado das coisas que nos rodeiam para a inquietação tomar conta do nosso quotidiano. Já ninguém acredita que a paz no mundo se pode alcançar com poemas, sátiras, orações ou mesmo com granadas. A uns cega-os o fundamentalismo. Os outros usam uma venda de ceticismo que não lhes permite ver um boi à sua frente.

 

Sou capaz de perdoar, mas nunca de esquecer. Outros são capazes de esquecer, mas não de perdoar. Mas os verdadeiros bandalhos não são capazes nem de uma coisa nem de outra.

 

Esses são abstratos e cruéis. Não, não são brutais. São cruéis. Não conseguem ter um contacto íntimo com as pessoas e muito menos com a verdade. 

 

Pode-se levar um cavalo até à água, mas não se pode obrigá-lo a beber.


publicado por João Madureira às 07:15
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