Segunda-feira, 23 de Julho de 2018

402 - Pérolas e diamantes: A sustentabilidade da imbecilidade

 

 

 

Tal como Niall Fergunson, do The New York Times, também eu não consigo ler no ecrã de um computador com prazer. Para isso tenho de ter um livro impresso com papel e tinta, “de preferência um robusto paperback”.

 

Tal como James Ellroy, penso que é a ler que se aprende a escrever. “Mas, na realidade, não posso dizer como é que eu aprendi.” Ellroy acha que foi Deus quem lhe deu esse dom, pois chegou-lhe de forma misteriosa a partir dos livros que leu. A mim foi mesmo o Diabo em figura de gente.

 

Mas o mundo literário, apesar do seu brilho exterior de civilidade, é um lugar estupidamente convencional, cheio de egos incomensuráveis.

 

Mesmo assim, a realidade está sempre a superar a ficção. Como escreveu Philip Roth, “ninguém podia imaginar que o grande desastre americano do século XXI não seria um ‘Big Brother’ orwelliano, mas a figura ridícula e sinistra do bobo arrogante da commedia dell’arte”.

 

Na carta do editor do último número da revista LER, Francisco José Viegas refere que os dados disponíveis no Eurostat (2011) informam que apenas 5,2% da população portuguesa lê mais de 10 livros por ano, que é metade da percentagem da taxa da Espanha (11%) e muito menos do que a Estónia (21,9%), a Alemanha (22,1%), ou a Finlândia (24,4%). Há ainda 9 % de portugueses que leem entre 5 a 9 livros por ano.

 

Sigamos então o bom exemplo do Presidente da República e procuremos aquilo em que somos mesmo bons: a única contabilidade em que Portugal fica no topo é na honrosa categoria “não leu um livro”, em que nos classificamos no segundo lugar – entre os países da UE, apenas a Roménia nos bate.

 

FJV tem razão, a crescente desvalorização da literatura no ensino do português é cada vez mais evidente. Proliferam por aí os textos em “português normal”, o que, a curto prazo, contribuirá para a banalização da literatura, agora mais conhecida por “entretenimento”, onde se misturam o bom e o mau em doses idênticas, desde que apresentem as denominadas “dimensão cultural” e “festiva”.

 

FJV propõe que se avalie a qualidade do ensino relacionado com a leitura, para ver até que ponto ela reflete e amplia a crescente banalização do banal.  

 

Fala-nos a seguir de uma sua participação num encontro relacionado com bibliotecas escolares, onde ouviu as costumeiras cantilenas. Primeira: que o digital providencia um “absolutamente notável” progresso da civilização, e que esse progresso é inquestionável. Segunda: que é necessário transformar a leitura numa “atividade inclusiva”, provavelmente banindo “livros difíceis” e “incluindo cada vez mais literatura popular que diga alguma coisa às pessoas”. Terceira, em jeito de lamento: a vida é como é.

 

De facto, “o lero-lero da ‘inclusividade’ e da ‘leitura inclusiva’ não é mais do que uma desculpa para perpetuar essa banalização do banal nas nossas escolas”.

 

E termina com duas questões pertinentes: quantos livros leem os jovens das escolas secundárias portuguesas por ano? Quantos livros leem os professores de Português por ano?

 

A festejada atriz Beatriz Batarda já deu o mote, quando afirmou: “Não gosto de Gil Vicente. Desprezo Shakespeare.” Pois lá bem diz o povo: o comer e o coçar está no começar.

 

Alguns, os tais do politicamente correto, já falam de uma literatura sustentável. O que até originou que um livro que denuncia o racismo seja considerado perigoso porque usa palavras racistas.

 

Numa escola americana do Mississípi, a leitura de Não matem a Cotovia, de Harper Lee, apenas pode ser feita com uma autorização expressa dos pais, uma vez que nele se usa a palavra “nigger”. Os bem-pensantes consideram que essa expressão racista, bem como muita da linguagem da obra, pode incomodar as almas sensíveis das crianças, que, tal como nós, abominam o racismo. Já não basta afirmar que o livro de Harper Lee é uma denúncia amarga do racismo, torna-se necessário fazê-lo de forma apropriada e “sustentável”. Ó raio de palavra. Ó c. de gente.

 

Na Califórnia corre um folheto, exarado pelo Departamento de Educação do Estado, que recomenda aos pais que tenham em atenção a cor do cabelo dos bonecos, a forma como se vestem, se utilizam sotaques regionais, se os meninos brincam com carros, se as meninas se vestem com cores suaves, se as personagens das “minorias” desempenham papéis secundários, se eventuais diferenças de classe social são ou não nomeadas como injustiças, se existem diálogos que fazem prever comportamentos transfóbicos, se a opinião subjetiva do autor parece racista ou sexista ou outra coisa qualquer.

 

A ideia parece ser a de que os pais, os editores, os jornalistas, os bibliotecários e os professores passem a fazer de Santa Inquisição, passando todos os livros a pente fino e, muito provavelmente, queimem em público os maus exemplos. Pelo caminho que isto leva, e com a nossa irremediável tendência para seguir orientações estrangeiras, não tarda nada a que idêntica lei seja aplicada em Portugal. O mundo está a ficar cada vez mais estúpido.

 

Como se isso ainda fosse pouco, uma mãe inglesa, ou melhor, uma mãe de Bragança que vive na capital britânica, pediu para que o filme Branca de Neve e os Sete Anões não fosse mostrado ao seu filho de seis anos, iniciando mesmo uma petição pública para que a proibição se estendesse por muito tempo, porque, na sua douta interpretação, o momento em que o príncipe desperta Branca de Neve com um beijo configura uma situação de “abuso sexual”. Esta púdica e inocente mamã não quer que o seu jovem rebento fique com a ideia distorcida de que as raparigas podem ser beijadas enquanto dormem. Mesmo que seja por um angélico príncipe à moda antiga. 

 

Propostas: Música: Bundle - Soft Machine; Leitura: Babbit de Sinclair Lewis; Viagens: http://www.destinosvividos.com/douro-vinhateiro-roteiro-miradouros-percursos-pedestres/; Restaurante: Pensão Flávia – Chaves.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 13 seguidores

.pesquisar

 

.Outubro 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9


22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. ST

. O cavaleiro

. ST

. Poema Infinito (427): O d...

. Olhares

. Olhares

. 413 - Pérolas e Diamantes...

. ST

. ST

. Músicos

. Poema Infinito (426): O t...

. ST

. O Ferreiro

. 412 - Pérolas e Diamantes...

. Na aldeia

. Na aldeia

. Na aldeia

. Poema Infinito (425): A h...

. Na aldeia

. Na aldeia

. 411 - Pérolas e Diamantes...

. No jardim

. No elevador

. No museu

. Poema Infinito (424): A r...

. AR

. No museu

. 410 - Pérolas e Diamantes...

. Interiores

. Interiores

. Interiores

. Poema Infinito (423): O p...

. Interiores

. Interiores

. 409 - Pérolas e Diamantes...

. No Porto

. Passadeira de flores

. Passadeira de flores

. Poema Infinito (422): O v...

. Passadeira de flores

. Na igreja

. 408 - Pérolas e Diamantes...

. ST

. No Barroso

. Sorriso

. Poema Infinito (421): O d...

. No Barroso

. Sorriso

. 407 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

.arquivos

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar