Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018

404 - Pérolas e Diamantes: A volta ao carrossel

 

 

Estamos em 2018 e, digo-o com certo pesar, apercebo-me de que as mudanças produzidas em Portugal afinal não são tão profundas como parecem. Sobretudo nas estruturas produtivas, nas estruturas empresariais, na organização das cidades, na organização dos espaços físicos e no território.

 

Os edifícios, o casario a crescer, o desaparecimento dos bairros de lata nas grandes cidades, as rotundas, os repuxos e, sobretudo, as autoestradas, deram-nos uma ilusória aparência de modernidade.

 

Mas, atenção, as autoestradas são a coisa mais fácil de fazer. Por isso encheram os bolsos de políticos, banqueiros e construtores. Foi fácil aos poderes públicos portugueses apostar nas rodovias. Criaram um departamento de expropriações, preencheram cheques e mandaram vir empresas para as construir. Não tiveram de mudar nada, nem mentalidades, nem estruturas produtivas, nem organização de trabalho, nem organização de empreses, nem estudar as primeiras letras, nem fazer o secundário e muito menos entrar na universidade. Com o que havia, fizeram tudo. Numa coisa se esmeraram: na criação das Parcerias Público-Privadas que endividaram o país até ao próximo século.

 

António Barreto tem razão: “A globalização, a metrópole, as massas, a rapidez, o automatismo, a competitividade e a uniformidade, geraram valores contrários à comunidade humana, ao pensamento, à qualidade estética, ao brio e à compaixão. Nem sequer a dimensão do que se ganha é suficiente para se esquecer o que se perde. Pode até ganhar-se mais. Mas o que se perde é uma amputação da humanidade e da cultura”.

 

Agora predominam os eventos, até os comentadores televisivos parecem licenciados em economês, pois falam na forma de “gerir” as relações amorosas, ou em “priorizar” os sentimentos. Utilizam, vá-se lá saber porquê, uma linguagem mecânica, dominada pela produção económica, pela tecnologia, pelo êxito comercial e pelo sucesso mediático.

 

Talvez por isso tenha surgido a necessidade da ideia da “geringonça”.

 

Independentemente dos preconceitos ideológicos, ou outra tralha sociológica e axiológica, temos de reconhecer que com a “geringonça” temos hoje a economia a crescer, o desemprego a baixar, o défice em valores nunca vistos, a dívida a cair e o investimento estrangeiro a aumentar.

 

É um facto que ninguém estava à espera que em pouco mais de dois anos os resultados positivos fossem tantos. Nem todos os resultados decorrem necessariamente da atividade deste Governo, é verdade, e é um facto, que a Europa está a crescer como nunca, mas temos de reconhecer que o executivo de António Costa tem demonstrado habilidade e jeito para fazer negociações entre o que é social e o que é empresarial, entre o que é económico e o que é europeu. A paz social facilita o aproveitamento desta conjuntura. O Governo tem mostrado capacidade para aproveitar e explorar a nosso favor esses resultados.

 

O mais preocupante é que, pelos vistos, os portugueses ainda não se decidiram definitivamente se toleram a corrupção ou se escolhem o primado absoluto do Estado de Direito.

 

É aflitivo observar o que se tem passado na última meia dúzia de anos: os processos que não chegam ao seu término, os processos que não se fazem, os casos de corrupção que não têm fim, as investigações, os atropelos às investigações, o desaparecimento de CD’s com escutas e as constantes quebras de segredo de justiça como tentativas óbvias de boicotar os processos e absolver os prevaricadores.

 

Necessitamos de um Estado de Direito que funcione, com meios de investigação, meios processuais, capacidade e forças de investigação, de instrução e capacidade de procedimentos judiciários.

 

É preocupante saber que há gente condenada há dez anos a não cumprir pena, pois continua a usar e a abusar de recursos, de procedimentos, garantias e mais não se sabe bem o quê. É verdade que em Portugal quem tem dinheiro não vai para a cadeia.

 

Perante estes problemas, nós adiamos, adiamos, adiamos.

 

E a Esquerda continua a insistir na retórica e na reivindicação, enquanto a Direita vai defendendo o seu, já que gosta mais de dinheiro do que de ideias.

 

Uma coisa também vos confesso. Isto de tratar sempre de dar opinião vai construindo a nossa própria solidão.

 

Termino citando de novo António Barreto: “Você diz mal de A e depois de B e depois de C e depois de D. E às tantas pensa “Oh, Diabo”! Já dei a volta ao carrossel. A independência é uma grande virtude, mas é uma grande solidão. E pode ser triste.”

 

Propostas genuinamente pessoais e pagas do próprio bolso: Música: Deran – Bombino; Leitura: Também os brancos sabem dançar – Kalaf Epalanga; Viagens: http://www.destinosvividos.com/visitar-peneda-geres-ermida/; Restaurante: Aprígio – Chaves


publicado por João Madureira às 07:15
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