Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018

410 - Pérolas e Diamantes: Entre a sugestão e a afirmação

 

 

Lendo os clássicos, neste caso os clássicos modernos da opinião cultural portuguesa como Eugénio Lisboa, ficamos a saber que quando se chega a determinada idade, a propensão normal é para confessar tudo, falar verdade.

 

Em meados da década de 90 do século passado, o prestigiado ator inglês John Gielgud, considerado um dos maiores intérpretes de Shakespeare, resolveu dar uma entrevista a um jornal de prestígio lá da sua ilha grande.

 

Resolveu despejar o saco. Declarou que detestava Shakespeare porque o considerava um chato; que, mesmo que parecesse o contrário, não entendia uma grande parte da obra do dramaturgo mais famoso do mundo; que quando se decidia ir à estante buscar um livro para ler, nunca lhe ocorria escolher uma obra de Shakespeare. Estava aborrecido com a afamada importância do bardo; jamais, confessou Gielgud, jamais lera, com algum pormenor, uma obra do autor de Hamlet. Representara sempre com base na intuição porque era completamente frívolo.

 

Também Lope de Vega, o grande dramaturgo Espanhol, no seu leito de morte, pediu, para espanto de todos, que lhe trouxessem depressa não um padre, mas um médico. Quando este chegou a sua casa, o dramaturgo explicou-lhe, com palavras simples e urgentes, que necessitava de saber com segurança quanto tempo tinha de vida. Precisava, antes de morrer, de fazer um confissão de tal ordem que não concebia, depois dela, continuar a viver e a encarar o seu semelhante.

 

O médico examinou-o com cuidado. Informou então de que se queria desabafar o fizesse com celeridade, porque efetivamente tinha muito pouco tempo de vida.

 

Então lá vai, disse Lope de Vega, com alívio: “Confesso que acho o Dante um enorme chato.” Depois morreu, em paz. Alcançou o que desejava, descarregar o saco.

 

Bem vistas e meditadas as coisas, quantos não se finaram entulhados, sem terem tido a coragem de se confrontarem com um dilacerante desabafo final? Talvez dessa forma se tivessem eliminado muitos mitos. Mas a coragem não é para qualquer um.

 

Já Miguel Tamen, diretor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, numa entrevista à LER, resolveu desabafar antes que lhe dê o fanico.

 

Nos seus livros, o filósofo prefere a sugestão à afirmação. Diz que apenas se limita a relacionar coisas diferentes, sugerindo dessa forma que coisas diferentes são parecidas ou distinguir entre coisas que as pessoas pensam que são parecidas.

 

E faz isto à procura de quê? Pois à procura de perceber coisas que não percebe e às quais não pode aceder comparando-as com coisas que conhece um pouco melhor ou com outras coisas que lhe parece que são parecidas. Perceberam? Pois, a filosofia continua uma disciplina complicada.

 

Apesar de não sentir nenhuma responsabilidade ou peso especial por ser português (este professor e filósofo com formação lisboeta e pós-graduação americana), sente uma grande afinidade “com pessoas que não aldrabam aquilo que não percebem e tentam clarificar e explicar bem aquilo que percebem, sem que, em nenhum momento, achem que podem dissolver todas as suas incompreensões.” Entenderam? Pois, a filosofia continua a ser aquilo que sempre foi.

 

Numa coisa coincidimos, até porque entendi o alcance da sua resposta: “A propósito de humildade, desconfio muitos daqueles professores que dizem que aprendem sempre muito com os seus alunos. Eu não aprendo praticamente nada com os meus alunos.”

 

O problema é quando não se aprende nem com os alunos, nem com os professores.

 

É ele por um lado e eu por outro. Coincidimos, apesar de divergirmos. Ou vice-versa, o que é muito filosófico. Pois, aí está sugerido um arzinho da nossa graça. Perceberam? Pois, a filosofia e etc...

 

Tamen cita a seu belo prazer uma frase de Saul Bellow: “Eu ensaboo, vocês barbeiam.” Eu até posso concordar. Mas o grande problema é que Bellow era escritor.

 

O filósofo confessa: “Sou alérgico à noção de discípulo, à ideia de que a excelência de um aluno é medida pela maneira como ele se parece com os professores que teve.” Fosse assim em política e outro galo cantaria.

 

Depois marra contra George Steiner, que, na sua opinião, não é crítico literário e muito menos filósofo. Acha-o simplesmente um fala-barato, pois dá-lhe sempre a impressão de que sabe coisas que não sabe, porque é alimentado “pelo modo misterioso como fala de coisas que não são nada misteriosas”.

 

E como é que se reconhece um fala-barato na academia? Na sábia opinião de Miguel Tamen, “os critérios são sempre os mesmos dentro e fora da academia: é preciso tempo. Às vezes não se reconhece um fala-barato à primeira.”

 

Lembraram-lhe que há quem diga que os falsários estão cada vez melhores também a esse nível. Ele respondeu, relembrando-nos o princípio do Presidente Lincoln: não se consegue enganar toda a gente durante todo o tempo.

 

É mesmo verdade, a filosofia ainda é o que era: isso. Perceberam?

 

Filipa Melo, a senhora que o entrevistou o senhor, definiu-o como um daqueles meteoritos que por vezes surgem em Portugal: Um “manifesto opositor da autoindulgência, do paternalismo do Estado e das instituições, das grandes convicções pessoais como da pedagogia dos chamados grandes valores estéticos”.

 

E rematou, como se fosse preciso: “A sua ideia de universidade é democrática, iconoclasta e crítica, no sentido revolucionário da palavra. Vá-se lá saber se este espírito extraterrestre conseguirá atingir o solo.”

 

Orson Welles já morreu, e a rádio está em estertor, mas, mesmo assim, rezo para que Deus nos apanhe confessados.

 

Propostas: Música: Stepmother City – Sainkho Namtchylak; Leitura: Isso não pode acontecer aqui – Sinclair Lewis; Viagens: http://www.destinosvividos.com/visitar-obidos/; Restaurante: http://www.destinosvividos.com/shiko-tasca-japonesa-porto/.


publicado por João Madureira às 07:15
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