Segunda-feira, 1 de Outubro de 2018

411 - Pérolas e Diamantes: Honi soit qui mal y pense.

 

 

A escritora Hélia Correia disse que as pessoas que se põem a escrever e a insultar no anonimato lhe fazem lembrar os lupanares romanos onde os indivíduos iam à noite fazer tudo o que lhes apetecia.

 

O New York Times contou que Trump, ainda enquanto candidato republicano, terá delineado um plano para comprar todas as histórias que National Enquirer  tinha dele. Segundo fontes bem informadas, essas histórias são relativas à década de 80 e estavam relacionadas essencialmente com os casos extraconjugais, processos judiciais e batotas em jogos de golfe, o desporto preferido do atual chefe de Estado.

 

Com toda a intenção de dar bronca, Spike Lee realizou um filme (BlacKkKlansman: O Infiltrado, galardoado com o Grande Prémio do Festival) que termina com imagens reais da manifestante Heather Heyer a ser morta no desfile de supremacistas brancos de Charlottesvile, em 2017.

 

Em Cannes, perante os jornalistas, Lee esteve cinco minutos a discursar, com muitos palavrões pelo meio, referindo-se ao presidente dos EUA como “son of a bitch” e criticando-o por não condenar publicamente o Ku Klux Klan (KKK), o famoso grupo racista.

 

Exibindo uns óculos sisudos, muito de acordo com o seu semblante, afirmou o que já se vai tornando uma evidência preocupante: as pessoas vão-se apercebendo que a ascensão da extrema-direita não se encontra apenas confinada aos Estados Unidos, está  acontecer um pouco por todo o mundo.

 

O filme narra a incrível história, mas verdadeira, de um polícia negro, Ron Stallworth, que nos anos 70 se infiltrou no KKK, com a ajuda do seu parceiro branco.

 

Este filme é a oportunidade para se falar verdade, identificando o KKK, como direita alternativa, que, à semelhança dos grupos neonazis, são organizações terroristas que gozam de muita impunidade acrítica.

 

Spike Lee sofreu da “síndrome da impossibilidade Trump”,  pois nunca supôs que uma pessoa que afiançou que “podia estar em plena Quinta Avenida, matar alguém a tiro e mesmo assim não perderia votos” pudesse ser eleito Presidente do EUA. Nem a brincar.

 

Talvez estejamos a viver anos de forma perigosa.

 

Ao contrário do pronunciamento soft do filme de Wenders (Pope Francis: a Man of his Word, que a revista Variety classificou como um “retrato superficial com muito pouca personalidade), Spike Lee resolveu exibir uma soqueira de ouro incrustado com palavras “LOVE” (amor) e “HATE” (ódio).

 

Esta referência vem da sua admiração pelo filme de Charles Laugthon, de 1955 (The Night of the Hunter – A Sombra do Caçador).

 

Spike diz que viu o filme quando ainda andava na escola de cinema da Universidade de Nova Iorque, onde é professor há 25 anos. A película impressionou-o devida à sua realização e à escrita do argumento. Lembra-se, sobretudo, de Harry Powell (Robert Mitchum) ter tatuado na sua mão esquerda “HATE” e na mão direita “LOVE”.

 

Lembra aos incautos que, depois de morrer, ainda vão analisar os seus filmes e reparar que esses temas são transversais em todos eles.

 

A luta entre o amor e o ódio é uma das suas principais influências. Foi por isso que tirou as suas soqueiras do armário para ir exibi-las na passadeira vermelha de Cannes.

 

Spike Lee, como alguns escritos de Deleuze e de Guattari, e ainda a música de John Coltrane, recua e avança em duas direções. No fundo esse é o eterno objeto dos filósofos, que nos remete para uma dupla pergunta: “O que irá acontecer? O que acaba de acontecer?”

 

Todos eles dizem que gostariam de conseguir falar de trás para a frente, de começar uma frase a meio e de a completar seguindo em duas direções ao mesmo tempo. O canto dos pássaros é disso um bom exemplo.

 

Como diz Pedro A. H. Paixão “é preciso saber esperar pelos momentos em que se pode falar”. Quem trabalha em arte sabe como é insuportável estar fechado num espaço ideológico específico.

 

Identifico-me, por vezes, com o filósofo italiano Giorgio Agamben, pois é possível encontrar nele um pensamento de esquerda preciso, assim como um de direita. Isso é o que se pode definir como como um pensador autónomo, o que é raro hoje em dia.

 

Quem pensa assim é, frequentemente, apelidado de direita pelas pessoas de esquerda e apelidado de esquerda pelas pessoas e direita. Sentimo-nos sempre no lugar errado, o que pode ser frustrante, mas também é libertador.

 

É habitual as pessoas formarem tribos intolerantes. E se algo de importante acontece fora do âmbito das suas ideias e normas, elas fecham-se, evitam integrar-se, não assimilam.

 

Por isso, hoje a arte é, sobretudo, de atenção.

 

Há pessoas que fazem distinção entre prosa e poesia. Dizem que a prosa é escrita para os amigos, destinada às pessoas que conhecemos e que fisicamente sabemos quem são. Para pessoas concretas. Já a poesia é escrita para os leitores desconhecidos, para uma espécie de interlocutores secretos, situados na posteridade.

 

Dizem que a arte não é absolutamente necessária, mas, se repararmos bem, é a única coisa que prevalece e que passa como testemunho de geração em geração, de século em século, de milénio em milénio. Tudo o resto se transforma em pó, cinza e nada.

 

Atualmente vivemos um ambiente de policiamento correto que, por incrível que pareça, nasceu como um bem mas vai-se transformando em mal. Claro que tudo isso também é fruto da exposição gratuita das ideologias pessoais.

 

Honi soit qui mal y pense.

 

Propostas: Música:  Wake Up & Make Love with Me – Ian Dury; Leitura: História Natural da Estupidez – Paul Tabori; Viagens: http://www.destinosvividos.com/douro-royal-valley-hotel/ Restaurante: http://www.destinosvividos.com/melhores-restaurantes-porto/.


publicado por João Madureira às 05:00
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 13 seguidores

.pesquisar

 

.Outubro 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9

19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Poema Infinito (427): O d...

. Olhares

. Olhares

. 413 - Pérolas e Diamantes...

. ST

. ST

. Músicos

. Poema Infinito (426): O t...

. ST

. O Ferreiro

. 412 - Pérolas e Diamantes...

. Na aldeia

. Na aldeia

. Na aldeia

. Poema Infinito (425): A h...

. Na aldeia

. Na aldeia

. 411 - Pérolas e Diamantes...

. No jardim

. No elevador

. No museu

. Poema Infinito (424): A r...

. AR

. No museu

. 410 - Pérolas e Diamantes...

. Interiores

. Interiores

. Interiores

. Poema Infinito (423): O p...

. Interiores

. Interiores

. 409 - Pérolas e Diamantes...

. No Porto

. Passadeira de flores

. Passadeira de flores

. Poema Infinito (422): O v...

. Passadeira de flores

. Na igreja

. 408 - Pérolas e Diamantes...

. ST

. No Barroso

. Sorriso

. Poema Infinito (421): O d...

. No Barroso

. Sorriso

. 407 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. No Barroso

. No Barroso

. Poema Infinito (420): As ...

.arquivos

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar