Segunda-feira, 8 de Outubro de 2018

412 - Pérolas e Diamantes: A mentira e a vontade do engano

 

 

O camarada N. V. Krylenko, que acabou executado pelo perfume escarlate da sua própria  argumentação, defendeu, como bom militante bolchevique, que não se deviam executar apenas os culpados. A morte de inocentes causaria nas massas, que tanto dizia amar, uma impressão ainda mais forte.

 

Esse era o tempo dos salvadores, das fábulas cabalísticas.

 

Na Europa Central, o espírito do Terror Vermelho, Lenine, justificando-se ideologicamente com Krupskaya, mas amando nas entrelinhas, e nos entrefolhos, Inessa Armand, ou mesmo Apollinaria Iakubova (Lirochka), argumentou que todos os atos de crueldade praticados por engano seriam perdoados, mas os atos de misericórdia não seriam tratados com a mesma indulgência.

 

Então e o que é que os outros camaradas proletários faziam? Pois, sorriam. A sua cara parecia festa, embora a alegria fosse igual à de um aleijado quando dança.

 

Conta-se até uma anedota engraçada a propósito da revolução, da informação e da realidade.  Uma chusma de kolkhozniks (camponeses) que ganhara um prémio chega a Moscovo com os sapatos sujos de estrume. O camarada guia explica-lhes que acabaram de chegar à capital mundial do progresso e da abundância e da liberdade e de tudo o resto que eles já deviam saber. No fim da explicação, um dos camaradas camponeses ergue timidamente a mão e diz: “Camarada-guia, ontem dei um grande passeio pela cidade e não vi nada disso!” O guia já habituado à ignorância e à falta de informação dos camponeses, respondeu prontamente: “O Camarada devia dar menos passeios e ler mais jornais.”

 

Bismark, em 1878 já se tinha apercebido do que era governar nos tempos dissolutos das revoluções: “Já me apercebi que, muitas vezes, a minha decisão já está tomada antes sequer de concluir o raciocínio.”

 

Heidegger, que era, segundo dizem, uma pessoa pragmática, quando se deu conta do poder destruidor dos mísseis, tentou filosofar: “O olhar ascendente aponta na direção do céu, no entanto permanece cá em baixo, na superfície da terra.” Não sabemos é se o enigmático pensamento foi do agrado dos seus amigos nazis.

 

As revoluções são sempre formas ritualizadas da destruição de um poder e da construção de um novo. Os rituais facilitam as coisas, ajudam-nos a sobreviver. Antigamente, carregavam-se todos os pecados de uma cidade no lombo de um bode, expulsava-se o bicho do burgo e este ficava livre de pecado. Foi o que os nazis fizeram com o povo judeu.

 

Nas estepes russas encontra-se facilmente uma imensidão nevada. É o nada protegendo-se contra o nada. Foi o que a revolução ofereceu ao povo russo: uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma.

 

Santa Teresa, desde há séculos que vinha avisando: as preces atendidas fazem correr mais lágrimas que as súplicas não satisfeitas. Onde Deus põe a mão nasce logo a confusão. E não é por mal, como todos sabemos.

 

Chostakovich, o mal amado músico soviético, foi acusado publicamente de fazer música autoirónica. Afinal, o que é que um génio, para não enlouquecer, podia fazer na pátria dos sovietes?

 

Queriam com isso dizer que não era totalmente honesta. E quem é que na União Soviética de Estaline podia ser honesto? Nem o próprio, senão tinha acabado, como a quase totalidade dos seus companheiros que participaram na Revolução de Outubro, assassinado pelos seus camaradas nas masmorras da Lubianka. Estaline podia ser um serial killer, mas não era burro.

 

Dizem que nada é o que parece, mas o ditador comunista sabia que as coisas parecem aquilo que quisermos que pareçam.

 

Mas voltemos a Chostakovich, desde cedo que aceitou o seu destino, pois tinha nascido para não encaixar em lado nenhum. O que fizeram com ele foi uma comédia de enganos. Por isso começou a fingir.

 

E. Mravinsky considerava que a autoironia da música de Chostakovich mais não era do que uma dissimulação que transmitia uma falsa impressão de emotividade. A sua música escondia (bem, na URSS nada parecia aquilo que era) um sentimento lírico extraordinariamente profundo e cuidadosamente protegido do mundo exterior. E amava duas mulheres. Dizia que o amor era uma espécie de fé. Mas quem é que pode (sobre)viver desejando dois deuses?

 

Todos sabemos que Estaline e Hitler foram a cara e a coroa da mesma moeda totalitária. Mas a coincidência que mais me impressionou foi a de ambos preferirem os filmes da Disney.

 

Um idiota encontra sempre alguém mais idiota.

 

Existe sempre uma tentação exageradamente grande em toda a natureza humana. De facto, quando nos passam para a mão um martelo, todas as pessoas no nosso entorno começam a parecer-se suspeitosamente com pregos.

 

Mas uma coisa também todos sabemos: independentemente da responsabilidade que se possa atribuir a Hitler e a Estaline, qualquer mentira da dimensão da protagonizada pelo comunismo e pelo nazismo não depende apenas da qualidade com que se mente, tem de haver gente com vontade de ser enganada. 

 

Propostas: Música:  With the Wild Crowd! Live in Athens, Ga – The B-52’s; Leitura: Se esta rua falasse – James Baldwin; Viagens: http://www.destinosvividos.com/ilha-de-sao-jorge-a-ilha-das-fajas/ Restaurante: http://www.destinosvividos.com/pregaria-guimaraes/


publicado por João Madureira às 07:15
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