Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018

414 - Pérolas e Diamantes: A incerteza da coisa certa

 

 

Dizia a minha avó que é estúpido fazer inimigos. O meu avô costumava responder que antes isso do que ser simplesmente estúpido. Eu fazia que não ouvia.

 

Aprendi nos livros que em condições ideais, o assobio gerado por uma bomba em queda livre pode alcançar até oito notas da escala diatónica. E que, por vezes, chega a reproduzir toda a escala cromática. Mas a quem é que isso interessa? Possivelmente nem aos músicos. Pois!

 

No livro Central Europa, de William T. Vollmann, Chostakovich, em pleno cerco de Leninegrado, segundos depois de cair uma bomba, conseguiu ouvir as notas agudas emitidas pelas vítimas, mas parece que ninguém abordou a possibilidade de se dirigirem para um abrigo antiaéreo. Um dos gritos chegou a prolongar-se por mais de quinze minutos. O compositor soviético conseguiu perceber que estava desafinado, sem dúvida em virtude da deficiente respiração, provavelmente pelo facto de a boca estar demasiado dilatada. A sua principal preocupação foi apurar se não se tratava da sua querida Elena.

 

Mais tarde atacou as teclas pretas e brancas de um piano, e os espaços vazios entre elas, como se fossem artifícios do sarcasmo, que era, segundo os críticos, a sua marca autoral. Uma mera variação do sadismo dos nazis e, por ventura, dos seus próprios camaradas.

 

No mesmo livro, a um “nazi dos bons”, as bonitas paisagens da Turíngia sugeriam-lhe as imagens de um livro por abrir. Dava-lhe prazer quando a sua amante Coca lia para ele. A verdade é que nunca achara a poesia gratificante, nem mesmo em tempo de paz. As suas lembranças tinham mais a ver com o suave sol alemão, “envolto pela aura de um passado glorioso; naquela época, que aos olhos do presente parecia etérea”, antes ainda de o seu Führer ter chegado ao poder.

 

O livro também aborda a desnazificação da Europa. Aos soldados alemães levaram-nos para Leste em vagões, fazendo-os viajar por “linhas ferroviárias de bitola tão estreita como os estranhos segmentos de notas que abrem a Oitava Sinfonia de Chostakovich”. Segundo diziam, a maioria tinha as minas Russas como destino. Também contavam que os mineiros dos contos de fadas alemães eram tão ricos que usavam pregos de ouro para pregar as solas das botas. Os mais otimistas, que sempre os há, desejavam que na União Soviética, onde nascia o sol que iluminava o mundo, também fosse assim. A seguir aos comboios, foram enfiados em camiões. Depois foram forçados a andar vinte e quatro horas seguidas. Para leste. Sempre mais para leste, sem que lhes fosse sequer permitido beber um copo de água imunda.

 

Quando os deixavam descansar um pouco, quase sempre durante a noite, olhavam para as suas mãos calejadas e perguntavam em voz alta se haveria alguma hipótese de serem salvos por uma mina alemã esquecida na Floresta de Hürtgen.

 

Seguiram-se as paradas em Moscovo, o ritual de humilhação que antecedeu  a condenação a cavar buracos na terra Russa e a trabalhar até à morte.

 

Marcharam pela Praça Vermelha enquanto as pessoas lhes cuspiam na cara. Um dos personagens do livro, para aguentar a humilhação, fingiu que era ainda um herói da Legião Condor a marchar diante do estandarte da suástica levantado ao alto numa avenida da Madrid de Franco, de braço direito estendido, gritando Sieg Heil.

 

Chostakovich continuou a viver entre um pesadelo e outro – o terror nazi e o terror comunista – compondo música. Tornou-se cínico como a “sua” Lady Macbeth. A sua amante perguntou-lhe como conseguia viver com o seu masoquismo. O compositor russo disse-lhe que não se preocupasse, pois o momento exato em que o peixe morde o isco é irrelevante. Naquela altura já nem com ele se preocupava. Estava disposto a assinar tudo mesmo sem ler, desde uma confissão de traição à Pátria como a ficha de adesão ao Partido. Só queria que o deixassem em paz. A ele e à sua música.

 

Os críticos musicais disseram que a Opus 110 inclui, aqui e ali, alguns acordes respigados do passado, como os gritos de Pedro III depois de beber o vinho envenenado. No entanto, diziam também que era redutor afirmar que esse quarteto não passa de uma mera releitura da sua Sétima Sinfonia, expurgada dos seus presumíveis erros iniciais, nomeadamente a destilação da agonia de Leninegrado expurgada da sua dimensão propagandística.

 

O que ali perdura não é Leninegrado mas sim a brumosa e doirada tranquilidade da velha São Petersburgo. O pequeno Mitya de mãos dadas com a sua mãe, a qual ele depois desenlaçava para apanhar uma folha que flutuava ao sabor da brisa. 

 

E também Akhmatova e Gumilyev, o seu primeiro marido, fuzilado por alegados crimes de traição contrarrevolucionária, que nunca aconteceram. O casal perambulando por entre o nevoeiro em busca de poemas. Depois de um gesto de cortesia, Akhmatova vira-se para o pequeno Mitya, repara nos seus olhos e comenta para o marido: “Eis o meu príncipe de olhos cinzentos.” Depois desaparecem por uma São Petersburgo “cor de catacumba adentro: castanho, amarelo e dourados fundidos numa só mancha, tal como acontece habitualmente com as coisas mortas, e dissolvendo-se na terra húmida.”

 

Dizem que foi dessa substância negra que detonou a Opus 110, projetando milhares de fragmentos metálicos de betão armado em seu redor.

 

“Há momentos em que fazer a coisa certa implica magoar-nos a nós mesmos, mas isso não significa que não seja, ainda assim, a coisa certa a fazer.”


publicado por João Madureira às 07:00
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