Segunda-feira, 5 de Novembro de 2018

416 - Pérolas e Diamantes: Populismos e outras tolices

 

 

 

A esquerda, apesar de manter a centralidade da relação entre opressor e oprimido, pensa ter evoluído no conceito transferindo estes termos para outros protagonistas. Os opressores são os capitalistas, os burgueses, os brancos, os colonizadores, os homens, os heterossexuais e os religiosos. Já os oprimidos serão os colonizados, os não brancos, os homossexuais ou pessoas de sexualidade alternativa, os globalizados e os livres-pensadores.

 

Mas agora, o conservadorismo adotou a forma de populismo.

 

Roger Scruton (autor do livro Tolos, Impostores e Incendiários) desconfia. Para ele, “populismo é a palavra usada pela esquerda para se referir ao povo quando o povo não a escuta […] Quando o povo toma uma direção diferente da que lhe estava destinada pelos intelectuais de esquerda, a esquerda conclui que o povo está a ser manipulado por demagogos”.

 

Mas parece que não existem apenas “populismos” conservadores ou reacionários, há-os para todos os gostos: Syriza, na Grécia; Podemos, em Espanha; Lega Nord e 5 Stelle, em Itália; Front National, em França; Freiheit Partei, na Áustria; Alternative für Deutschland, na Alemanha.

 

São muitos e variados os “populismos” que têm vindo a ganhar votos e a eleger deputados.

 

Para Jaime Nogueira Pinto, os partidos do “arco constitucional”, e os seus “intelectuais orgânicos”, atribuíram a estes perturbadores o epíteto de “populistas”, que é uma designação depreciativa associada à demagogia, oportunismo, ausência de ideias, “caudilhismo, radicalização na ação política e sectarismo social e étnico”; para contrastar com o discurso obeso dos “partidos da democracia representativa instalada, supostamente mais sábio, sóbrio, moderado, maduro, legítimo e objetivo”.

 

Na sua opinião, devido a uma longa presença no poder, que moldaram “aos seus princípios, práticas e tabus, ameaçados  dentro das regras do jogo democrático pelo voto do povo usado como arma, os partidos do sistema procuram defender-se, desqualificando o adversário, o estranho, o inimigo. Foi sempre assim que os civilizados, os ilustrados, as elites, trataram os que se amontoavam às portas das cidades e que queriam entrar”.

 

Um facto é evidente: os designados como populistas têm por inimigo comum os partidos sistémicos, denunciando as oligarquias políticas, económicas e mediáticas que acusam de terem “usurpado ou confiscado o poder do povo”, criando “uma falsa legitimidade” ou uma ilegítima representação dominada pelos poderes paralelos.

 

O populismo de esquerda é, essencialmente, antiglobalista económico, criticando as economias de mercado e o capitalismo, que diz combater através de medidas sectoriais mas de alcance tendencialmente global e, portanto, internacionalista.

 

Já o populismo de direita, sendo também antiglobalista, criticando o “capital internacional financeiro” privilegia a nação como estrutura defensiva, defendendo medidas protecionistas.

 

Os populistas de esquerda dizem-se herdeiros inconformados das Luzes, saudosos da sua revolução inacabada, netos de uma utopia igualitária ainda por cumprir, porque foi traída, dizem, pelos socialismos reais, ou pela corrupção e rendição ao capital da esquerda anémica que ocupa o poder. No entanto, exigem mais igualdade, mais laicizado e tendem a negar as identidades que a direita considera naturais: religiosas, nacionais e familiares.

 

Já os populistas de direita desconfiam de tudo: desde o progresso à mudança voluntarista, valorizando, ao contrário da esquerda, as pequenas comunidades, a família, a identidade nacional, as tradições ancestrais. São ainda críticos dos mecanismos transnacionais, nomeadamente a União Europeia ou o denominado mundialismo económico. Gostam, no entanto, de afirmar que não são contra a economia de mercado e a democracia representativa.

 

Estes dois populismos são inimigos figadais. O de esquerda, composto por intelectuais, estudantes, jovens e alguns velhos nostálgicos do Maio do 68, defende o multiculturalismo e a integração plena e acelerada dos imigrantes, mesmo extracomunitários. O de direita advoga precisamente o contrário, o que leva a que a esquerda acuse a direita de fascista, racista e xenófoba.

 

Isso não inibe essa esquerda de integrar alianças eleitorais e mesmo de governar. É esse o caso do Sirysa que, chegado ao governo, resolveu abandonar os seus “sãos” princípios, acabando por se resignar às políticas de austeridade impostas pela UE. Cá se fazem, cá se pagam.

 

Já o Podemos decidiu ter um pé dentro e outro fora do sistema. Em Itália, o 5 Stelle também faz parte do governo com a Lega Nord. Por cá, o BE, resolveu, para não destoar, viabilizar um governo socialista, possibilitando, dessa forma, derrotar o partido mais votado, o “reacionário” PSD de Passos Coelho.

 

O principal efeito dos partidos populistas de esquerda europeus, e também latino-americanos, nomeadamente na Venezuela e no Equador, tem sido o de contribuírem para a crise e a ruína dos partidos da esquerda tradicional, socialistas e comunistas. No entanto, não têm o relevo ideológico e o papel político dos movimentos e partidos de direita. Ainda vão ter de percorrer muito caminho.


publicado por João Madureira às 07:00
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