Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018

421 - Pérolas e Diamantes: É do espírito...

 

É do espírito do rebanho, é do espírito de manada. É da praxe. Primeiro batem em ti, depois bates tu nos que vêm a seguir. O problema é dos que não conseguem bater. São desprezados por aqueles que batem e por aqueles em quem não batem.

 

Condecorações aos vivos, lendas aos mortos. Dessa forma, todos ficamos contentes.

 

No fundo, os portugueses são uma espécie de ilusionistas que passam a maior parte do tempo a enganar-se a si próprios. Já há muito que perderam a noção do ridículo.

 

Instalou-se entre nós um falso sentimento de compaixão pelas pessoas, mas, sobretudo, pelos animais. E pelas distintas minorias. Como se tudo fosse igual ou valesse o mesmo. Todos os “bolsonaros” deste mundo se alimentam das sobras que esses equívocos geram.

 

Esta pretensa superioridade moral, que tudo vê sob o olhar do relativismo, mais não é, em termos civilizacionais, do que uma autêntica caça aos gambozinos.

 

Afinal Cristo também foi vítima de maquinações políticas, um herói infeliz num processo armadilhado.

 

Penso então nos cães, naqueles que fazem o que os donos querem, que lhes saltam para o colo, lhes lambem as mãos, que dormem ao seu lado, no canapé, onde os senhores autorizam, porque os amam.

 

O patrão é sereno, como a água tépida do lago. Mas nunca se sabe o que está no seu fundo. Por isso, o cão não deve enervar o patrão, porque pode ser posto na rua, quando se está tão bem dentro de casa.

 

E na casa existe um lugar tão bom para um cão.

 

Quando os brancos estavam no poder, nessa época os brancos enforcavam. Eram eles os que enforcavam. Depois chegaram os vermelhos. Eles, os que combatiam os brancos que enforcavam. Eles, os vermelhos. Então os vermelhos passaram a enforcar. Primeiro os brancos. E depois até os vermelhos que eles diziam que tinham passado a comportar-se como os brancos e a conspirar com eles. A verdade é que os que eram enforcados, fossem de que cor fossem, sofriam os mesmos insultos e, depois, sacudiam os pés da mesma maneira, fosse qual fosse a cor em nome da qual eram executados. Numa coisa coincidiam os brancos e os vermelhos: a corda não está nada mal. Sempre é mais confortável do que a bala, porque o tiro nem sempre acerta. Depois tem de se disparar de novo. E, se não morreu, tem de se disparar na nuca.

 

Afinal, bem vistas as coisas, os seres humanos são diferentes dos animais. Governam-se e deixam-se governar, roubam e deixam-se roubar. Matam e deixam-se matar. Vão a centros comerciais, a restaurantes, a comícios e a concertos. Vão para os parlamentos. Votam e deixam-se votar. Votam e deixam-se levar.

 

Mas os animais não sabem denunciar, nem caluniar, e, se roubam, têm as suas razões, pois não podem ir às lojas, talhos ou aos restaurantes.

 

Depois penso em mim. Sim, a minha moral é uma forma de disciplina resultante do treino a que fui sujeito em família e na escola. A minha fé reside numa espécie de budismo que respeita as tradições. O resto procurei-o por iniciativa própria. Ou pedi-o emprestado.

 

Em  pequeno gostava de participar nas piadas dos adultos, mesmo que tivesse de fingir que as entendia.

 

Lembro-me muito bem daqueles pais que odiavam as pessoas por serem ricas e, no entanto, eles próprios queriam ser ricos. O dinheiro era, e é, sempre um problema.

 

Afinal, só compreendemos como nos devemos comportar e apreciar as coisas quando estas nos são retiradas.

 

A autenticidade, aprendi-o à minha custa, nem sempre é uma boa ideia.

 

Apesar dos fatos de boa fazenda, das camisas engomadas e dos sapatos engraxados, é bem verdade que se pode tirar um rústico da província, mas não o contrário.

 

A dita cultura desses letrados baseia-se em citar a ondulação das ervas, o privilégio dos túmulos, a compreensão da pátria, a errática da verdade e as confissões públicas da reconciliação.

 

Fazem lembrar aqueles amantes de consolação fingida, seduzidos por si próprios, hipnotizados pelo transe do poder, que fingem despertar do feitiço quando já não lhes resta outra solução.

 

Dizem que sentem a beleza quando ela é ordem, luxo, calma e volúpia.

 

Chopin é um bom prelúdio para as despedidas. O desaparecimento é a única certeza.

 

Vou até a janela e olho lá para fora. O céu está brumoso. O brunheiro cansado. O sol turvo. As condições meteorológicas são cada vez mais curiosas.

 

Já deixei de correr de um lado para o outro. As mudanças já não são excitantes.

 

Penso então nos criados na política, e da política, nos seus costumes, nas suas superstições engraçadas. Riem-se porque sabem o que andam a urdir. Rimo-nos porque não sabemos aquilo que andam a tramar.

 

Ainda mal são chegados, perdem-se logo na azáfama da partida.

 

Tanto os bons como os maus hábitos demoram o seu tempo a adquirir.

 

Não devemos apressar nem os homens nem a sua humanidade. Quem prega nem sempre o faz a partir daquilo que sente. Muitas vezes nem entende aquilo que diz, apenas sente o apelo de dizer.


publicado por João Madureira às 07:00
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