Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018

422 - Pérolas e Diamantes: Ser ou não ser... exilado

 

Os dias estão muito curtos de luz, o inverno chegou tarde como cada vez acontece mais.

 

O sol bate enviesado sobre as árvores do campo.

 

Na cidade, na nossa cidade, onde antigamente as raparigas ociosas paravam diante das montras das lojas, homens velhos e esgueirados fumam agora cigarros intranquilos com as calças baixas na cinta.

 

Antigamente, com as calças cerzidas e enrodilhadas na cintura, esganavam os kentuckys como quem se alimentava de nicotina, alcatrão e desilusão.

 

E também se emborrachavam com a fantasia e o desespero dos néscios.

 

As paisagens eram então descomplexadamente bonitas, apesar de mais paradas. E as estradas eram sinuosas, mas sustentadas. Hoje são anoréxicas e instaladas nas sobras das pedreiras.

 

Há um vazio nas coisas que me custa a compreender.

 

Apesar disso, a vastidão do céu continua a mesma.

 

Mas de pouco serve.

 

Continuam a chocar-me, e a inquietar-me, as fotografias de mulheres alemãs a chorar com emoção nos desfiles nazis.

 

E também as que se maquilham como se estivessem a servir de modelo a um cangalheiro de vaudeville.

 

E as que militam na esquerda e tendem para a comida vegetariana radical.

 

E as de direita que apreciam embrulhar a sua militância nas graças, ou desgraças, de um bom bife da alcatra de um touro sangrado na arena.

 

As primeiras abusam das saladas.

 

As segundas economizam nas batatas fritas, apesar de cozinhadas em azeite biológico.

 

A vida moderna oscila entre cenas tempestuosas intercaladas por momentos de solidão.

 

A televisão costuma estar sempre pelo meio.

 

A chuva teima em esborratar as janelas com partículas de pó. Não tenho lareira para combater o frio. Ficou na aldeia, acompanhada do fumo que nos punha a chorar.

 

Houve tempos em que tinha um ar inocente. E era mesmo inocente.

 

Claro que escrevia poesia. Mas desisti porque os livros de poesia se vendiam mal. Ainda hoje publicá-los continua a ser um ato de caridade.

 

Penso em Pessoa e Cavafy que levaram vidas cinzentas em cidades de província.

 

Afinal, Lisboa e Alexandria continuam a ser cidades de província visitadas por turistas essencialmente provincianos.

 

Também Carlos Tê continua a versejar no Porto, que é a segunda maior cidade de província portuguesa.

 

Walt Whitman, um dos poetas preferidos de Pessoa, ofereceu mais exemplares do seu Folhas de Erva do que aqueles que vendeu.

 

Uma coisa continua igual: o movimento inexorável do fluxo do tempo, que é infinito.

 

Aposto na loucura: vou ter de publicar um livro de poesia.

 

Os baús antigos continuam a ter a sua utilidade secundária em guardarem dentro de si roupas, fotografias antigas, memórias e outra data de coisas.

 

Os edifícios da nossa cidade têm, neste tempo, a baça felicidade dos espaços suburbanos. A maioria parece vazia. Sendo deste lugar, parece que pertencem a outro.

 

Por aqui vive-se pacatamente, longe dos perigos e do bulício frenético das grandes urbes. Os vizinhos são boas pessoas, as ruas pacatas, os polícias sorridentes e bem-educados e até as quezílias com os presidentes da câmara são simpáticas. Vive-se numa tranquilidade de aldeia. As árvores e os jardins são bonitos e os objetos não caem do céu. Bem vistas as coisas, a aldeia de Astérix fica longe, lá no meio da Europa e da História.

 

De vez em quando deprimimo-nos, sobretudo quando sentimos a injustiça.

 

Por vezes é doce participarmos em sessões públicas de leitura. Somos bons. Somos bons a folhear as edições europeias de modas e artes correlativas, satisfazendo-nos com os ecos da vida sofisticada que por lá se leva.

 

Tento ser um bom tipo. Por aqui gosta-se muito deles. Talvez não o consiga. Mas sou um homem a sério.

 

Por vezes sinto uma sensação de exílio, mas depois penso que ninguém é um exilado na sua própria terra. Era o que mais faltava. Ser ou não ser... eis a questão.

 

Mal me lembro da minha infância e a minha mãe já morreu para ma recordar. Já não me recordo do que fizemos juntos. E deste modo lá se vai uma parte essencial da nossa vida.

 

Ainda me lembro do primeiro apartamento para onde fui viver com a Luzia e o Vasco. O Axel nasceu logo depois. Era um oitavo andar. Havia escassez, simplicidade e um amplo espaço para a felicidade. Havia as estações do ano, as árvores e a erva lá ao longe. E um sol maravilhoso que enchia o quarto enquanto dávamos banho ao Axel na banheira de plástico azul. Essa luz do mundo não a voltei a encontrar.

 

O problema da democracia e do progresso é que reduziram de forma drástica os sítios onde toda a gente se pode encontrar. Um “Olá, com vais?”, dito de viva voz acaba por ser um cumprimento de luxo. Agora vivemos em bolhas. Em bolhas informáticas. Onde cada um fala com todos e não fala com ninguém. Onde todos sabemos daquilo de que falamos mas ninguém sabe aquilo que diz.

 

Como não há filtros, também não há travões.


publicado por João Madureira às 07:00
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