Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2019

425 - Pérolas e Diamantes: A generosa hostilidade

 

 

Nos tempos mediáticos em que vivemos, existem dois tipos de gatunos: o que rouba e vai parar à cadeia e o que furta e vai parar à televisão.

 

Na televisão também por lá moram os escritores de hoje. Os escritores de sucesso. Esses, sabemos, escrevem para vender livros, para ganhar fama e dinheiro, ou dinheiro e fama.

 

E os outros? Os outros escritores? Porque se mortificam a armar ao pingarelho?

 

Mas por que raio é que se escreve? Qual a razão de se ser um dedicado turista do inútil? Começa-se a escrever por acaso e, depois de começado, fica-se prisioneiro dessa atividade.

 

A verdade, como veem, pode ser uma inutilidade. E as inutilidades também podem ser muito úteis. Aos escritores inúteis, mas não adulterados, nem subservientes. Aos escritores inconvenientes.

 

Ai como custa saber da autêntica irrelevância da verdade.

 

Penso que sonho pouco. Por vezes, acordo sobressaltado, banhado em suor. Encolhido. Então estico-me, espero que o meu coração serene e ponho-me a pensar na morte da bezerra. Para mim, as noites não possuem poder mágico, nem são irresistíveis, como muitos apregoam. Só oiço o farfalhar das folhas das árvores, os cães a ladrar e, por vezes, o miar agoirento dos gatos.

 

Os meus sonhos são visões recorrentes, por vezes estupidamente idênticas. O que é triste e monótono. São como o tempo que corre. Como os tempos que vivemos.

 

Os meus sonhos são como fotografias. Não possuem mistério. São como a realidade: errados e aborrecidos.

 

Há pessoas que passam a vida a ensinar que em tal época as pessoas pensavam isto ou aquilo, e, de seguida, a partir de tal data, pensou-se que...

 

Há outras que, por não gostarem da erudição repetitiva das anteriores, passam a escrever livros para que tal presunção não seja tão altiva.

 

Os fundamentalismos modernos dizem que as suas ideias são novos métodos de pensamento. Estou em crer que não passam de discretas formas de agressão.

 

Defendem um pensamento anónimo, um saber sem sujeito, uma tradição sem identidade.

 

São uma espécie de últimos marxistas criticando a crítica da dialética crítica. Apresentam-nos o mundo como um espetáculo, como um jogo. Por isso, a atitude razoável tem de ser mágica. Para eles, ou se aceita o sistema ou se faz a sua irrupção, no sentido de o abanar para depois apanhar os frutos caídos no solo. O problema é dos que estão verdes.

 

Eu não acredito em determinações unívocas.

 

Quando alguém mais distraído toca temas tais como continuidade, exercício efetivo da liberdade de pensar e escrever, ou a articulação da liberdade individual com as determinações sociais, logo as bravas gentes se põem a gritar que se está ou a violar ou a assassinar a História. Podem mesmo acusar-nos de estarmos a fazer a defesa da burguesia.

 

Pobre burguesia que não possui outra muralha que a nossa humilde pena.

 

Eu sei. Eu sei. A ironia não chega.

 

Nem a poesia.

 

Pode ser a impressão que dá, mas a política não está forçosamente votada à ignorância.

 

Foi o Maio de 68 que me fez “rescindir o contrato” ideológico com os revolucionários marxistas-leninistas. Eles diziam pretender fazer uma revolução. Eu considerava que devíamos ser a própria revolução.

 

Li um livro publicado nessa altura intitulado “Professores Para Quê” onde se dizia que “a universidade é um fragmento da sociedade capitalista” e que o melhor era tudo fazer para que ela fosse “de mal a pior”. De facto, o excesso... era mesmo excessivo. As revoluções também se fazem com estas imbecilidades. Há parvos em todo o lado.

 

Vertigens destas são sempre autodestrutivas.

 

Em 68, na França, havia gente com coragem para criticar os estruturalismo, então em voga. Goldmann, por exemplo, gostava de citar uma frase escrita por um estudante, no mês de maio, na ardósia de uma sala da Sorbonne: “As estruturas não descem à rua.” Para acrescentar: “Não são nunca as estruturas que fazem a história, mas os homens.”

 

A turba pretende sempre derrubar tudo, incendiar e arrasar. Aniquilar a burguesia. Depois só fica o silêncio e nos bairros algumas crianças que brincam com o que resta dos bibelôs partidos.

 

A prática do dia a dia ensinou-me que a precisão da teoria marxista-leninista e o seu proclamado valor científico são verdadeiramente secundários. E as notícias do mundo trouxeram até mim as lembranças horrendas dos campos de extermínio, dos gulagues e de outras aberrações humanas.

 

Também por isso, o mundo está cheio de gente parca de talento mas com sucessos de monta.

 

Eu já me habituei a suportar com ligeireza a sua generosa hostilidade. No entanto tenho de reconhecer, que, por vezes, me sinto agastado com as minhas teimosias.

 

É sempre a mesma ladainha. Depois de se prometer a mais completa liberdade, toca a reprimi-la a partir do momento em que se pretende exercê-la.


publicado por João Madureira às 07:00
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