Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2019

426 - Pérolas e Diamantes: Acelerações

 

 

Uma das coisas mais preocupantes destes tempos pós-modernos reside no facto de a maioria das pessoas não reconhecer a mentira e, o que é ainda mais grave, relativizar o próprio valor da verdade.

 

Nunca se desvalorizou tanto o discurso e o pensamento. O que é perigosíssimo. A cultura, a verdadeira cultura, não é relativa. E muito menos é um conceito. O que existe, e se transformou em moda, é o preconceito acerca dela.

 

Num lado acumula-se riqueza. Do outro acumulam-se as desigualdades.

 

Ao longo da História fomos desenvolvendo uma conceção de tempo que nos trouxe até esta situação caricata de o presente e o futuro ficarem reféns do passado. Ou seja, o presente e o futuro estão hipotecados.

 

Do ponto de vista simbólico, vai ser difícil recomeçar de algo. Estamos a fazer com que as gerações futuras não consigam ter o direito de principiar qualquer coisa de novo.

 

A solução passa por não mensurar pelo tempo o trabalho relacional, de ensino ou criativo, porque isso implica estabelecer uma relação com as outras pessoas que não é suscetível do incremento de produtividade.

 

Temos de deixar de lutar por guardar para nós o trabalhos das máquinas. O trabalho humano deve ser o das humanidades.

 

Bem vistas as coisas, o facto de umas pessoas terem muito dinheiro e outras terem pouco, significa, no limite, que umas pessoas podem comprar tempo de vida às outras. O que implica dizer que as outras pessoas não possuem outra coisa para viver senão o seu tempo de vida, que é, nem mais nem menos, do que o tempo de trabalho.

 

O tempo não acelerou. A nossa relação com ele é que é bem mais acelerada. A pressão é agora feita no sentido de que a atualidade se desatualize cada vez mais rápido.

 

Mesmo as lógicas do lazer, e do prazer, são de aceleração. Até no lazer temos de ser rápidos, temos de produzir. O prazer já não se compadece com carinhos. Fixa-se apenas no poder, não interessa se com efe ou sem...

 

O futuro do trabalho humano tem de ser relacional. Sobretudo com os outros, mas também connosco próprios.

 

É, no mínimo, curioso que quanto mais conseguimos criar condições para ter mais tempo livre ao longo da história, menos tempo livre temos. A verdade custa a aceitar, mas na Idade Média trabalhava-se menos do que na modernidade e nos dias de hoje trabalha-se mais do que na Idade Moderna.

 

Estamos na era da competição a todo o preço, aonde até jogar é uma tarefa muito complicada.

 

O trabalho devia assentar mais na realização do que na dominação social. O trabalho continua a ser um mecanismo pelo qual alguma gente mantém a maior parte das pessoas dentro de uma ordem de dominação social.

 

A grande ideia vem já desde a “Utopia” de Thomas More: devemos libertar o trabalho do rendimento.

 

O pós-modernismo deu nisto, na apropriação totalitária das questões que envolvem o controlo dos indivíduos.

 

Desde que vi o filme “Blade Runner” que sou muito sensível à inteligência artificial que um dia, penso, poderá ser humana. Não vem longe o dia em que se realizará um pacto social reunindo humanos transformados por máquinas e máquinas inteligentes com propriedades humanas.

 

Será uma revolução que acarretará riscos tremendos, mudanças brutais. Há coisas que mudarão radicalmente.

 

Isso exige criar um critério claro para distinguir o que são atividades consideradas trabalho humano e aquelas que devem ser deixadas às máquinas.

 

Existem movimentos políticos que estão dispostos a aceitar a mentira por acharem que ela vem ao encontro da sua agenda.

 

Isto só é possível porque, como referi em cima, houve uma grande desvalorização do discurso e do pensamento. Existe uma espécie de banalização do valor do discurso. Todos falam o mesmo. Todos dizem o mesmo. Todos defendem o mesmo. O que os divide é a cafeína no café. Tudo é igual. Tudo pode ser usado. Tudo é meio. Mcluhan já nos tinha avisado: o meio é a mensagem.

 

Dizem que a intenção é democratizar. Mentira. O seu objetivo é massificar, tornar tudo igual. Não há discurso melhor ou pior. Tudo é uma questão de opinião.

 

Como nada é perdurável, nada é verdadeiro.

 

O filósofo André Barata, em entrevista ao “Negócios”, sintetizou: “Quem quer argumentar numa rede social está condenado ao mito de Sísifo porque argumenta, defende a sua causa e pode dar-se por satisfeito porque conseguiu apresentar bem os argumentos, mas além de ser martelado com ‘likes’ e ‘dislikes’, ao fim de uma semana aquilo tudo já passou, já foi esquecido. Tem de recomeçar outra vez.”

 

Repito: até a propagandeada ideia do lazer é falsa. Até o lazer está colonizado pelo mecanismo da produtividade. E o prazer também, convém que se diga.

 

Os orgasmos já não se atingem, utilizam-se e gastam-se como os jóqueres.


publicado por João Madureira às 07:00
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