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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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25
Fev19

431 - Pérolas e Diamantes: Mãozinhas de coentrada

João Madureira

 

 

Definitivamente não gosto do conceito vulgar de povo. Os generalistas usam esse termo como querendo designar um conjunto de pessoas sem interesse, cinzentas, sem requinte, envolvidas no obscuro da sua existência quotidiana.

 

Também não caio na asneira de aureolar o povo como encarnando toda a sabedoria, a pureza moral e a grandeza espiritual.

 

Mas o povo costuma ser crédulo e acreditar nas mentiras grosseiras dos dirigentes. Acreditam na igualdade que lhes prometem. E sorriem em retribuição dos sorrisos que veem estampados na cara dos dirigentes.

 

Não resisto a transcrever um trecho respigado do livro de Soljenitsin (O Primeiro Círculo), de um capítulo que fala de um preso no tempo do socialismo estalinista, cuja única orientação política era o trabalho agrícola: “O que Spiridon amava era a terra. O que Spiridon possuía era uma família. A sua religião era a sua família. A sua pátria era a sua família. O socialismo era a sua família. Era, por conseguinte, obrigado a dizer a todos os reis, padres e pregadores do bem, a todos os razoáveis e aos eternos, a todos os escritores e oradores, a todos os garatujadores e críticos, aos procuradores e aos juízes que se tinham interessado pela vida de Spiridon: ‘Por que é que não vão para o diabo?’”

 

Atualmente estamos bem mais necessitados de melhoramentos na moralidade pública, na defesa da verdade e da honestidade do que no melhoramento das estradas.

 

Todos os dias aparece nos jornais mais um caso de corrupção, desvio de dinheiro público, quando não de roubos descarados, protagonizados por políticos e afins. O erário público está a saque. É um fartar vilanagem.

 

Os nossos dirigentes aprenderam a fornecer-nos palavras engenhosas e a dar réplicas certeiras que nos fazem rir à gargalhada ou desfazermo-nos em lágrimas. São capazes de vender a alma ao Diabo para aparecerem no telejornal das oito para dizer-nos que nos vão dar com uma mão o que mais tarde nos vão tirar com a outra, consolando-nos com o dito de que enquanto o estadulho vai e vem folgam as costas.

 

A inoperância também pode ser uma qualidade política, que o diga a oposição, que se esforça sobretudo por cair no ridículo respondendo em alemão a perguntas dos jornalistas portugueses ou entrando de calções curtos num lagar para pisar as uvas. A verdade é que nem a brilhantina do cabelo do senhor, nem o bronzeado das coxas da dama, disfarçam a incomodidade e o desnorte.

 

Para eles, tudo o que de mau lhes atribuem são apenas pormenores.

 

São também eles os responsáveis por se desaprender a autoridade, a moral, a decência, a dignidade e o sentido de honra. (Pausa). Honra lhes seja feita.

 

Talvez esteja na hora de dizermos que, connosco, os demagogos não se safam.

 

Não se provam factos com palavras.

 

Os políticos de agora têm todos alma de folha de Excel. E as pregações costumam não mudar, nada nem ninguém.

 

Afinal, quem é que nos estragou a democracia? E não vale a resposta falsa da Europa. Guterres fugiu de Portugal e do PS. Durão esgueirou-se do país e do PSD. Cavaco e Passos Coelho continuam a atoleimar que a situação é insustentável. Marcelo Rebelo distribui afetos como se os comprasse nas lojas dos chineses e António Costa sorri como se não soubesse fazer outra coisa. Afinal, o que é que eles sabem e não nos contam?

 

A confiança depende de uma compreensão clara do passado.  

 

Mas é impossível ir buscar a confiança recomendada pelos bonzos do regime aos gentios que deixaram o país pobre e desgovernado, que acumula milhões de dívida que jamais poderá pagar. Sócrates sabia daquilo que falava, por isso é que deixou de pensar na causa pública para pensar na sua vida privada.

 

Portugal está a rebentar pelas costuras que lhe fizeram os políticos desta nossa democracia de literatura de cordel: a segurança social, a saúde, o ensino, a justiça e o ordenamento urbano. Tudo é feito com atraso, sem rei nem roque. Portugal é, de norte a sul, uma improvisação.

 

Por isso, a pátria lusa é um coro de lamúrias. E Nossa Senhora de Fátima já esgotou o seu plafond de milagres com o país de Salazar, Amália e Eusébio.

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