Segunda-feira, 11 de Março de 2019

433 - Pérolas e Diamantes: A realidade e vice-versa

 

 

Há um provérbio árabe que diz: “Aquele que corre sozinho tem a certeza de chegar em primeiro.”

 

Eu costumo andar sozinho ou acompanhado por um ou outro amigo e, muitas vezes, por um livro. Costumo aprender muito com os livros. E com os amigos. E também com a cultura árabe.

 

Mas não pensem que as obras de ficção são fruto do acaso. Isso é que era bom.

 

Sabemos que “Vermelho e Negro” se inspirou no caso Antoine Berthet; que existiu uma Madame Bovary real chamada Delphine Coutier; que o Edmond Dantès verdadeiro se chamava François Picaud.

 

A ficção tende a assemelhar-se ao falso para parecer mais verdadeiro. E vice-versa. A realidade está cheia de sinais sem importância. Não se deve procurar a alegria sem aceitar o sofrimento.

 

As personagens dos livros têm, como escreveu Paul Smail, solas de vento, podem ir onde o acaso as leva.

 

A moralidade transformou-se em espetáculo em vez de ser uma virtude que se exerce. A moralidade tornou-se amoral.

 

Vivemos num mundo sem referências, onde os pais já não são pais, onde o bem e o mal estão fundidos num magma e a democracia é uma salada russa onde não se reconhece a verdade, onde todas as opiniões são válidas, onde tudo é subjetivo, onde de nada serve indignar-nos, onde ou somos todos culpados, ou todos inocentes.

 

Se reparamos bem, podemos ver que os que detêm o poder não o adquiriram pela sua coragem e muito menos pela sua virtude ou subtileza, mas antes pela sua falta de força moral, pela sua falta de cultura, pela sua desumanidade, pela sua histrionia, pela sua histeria, pela sua descarada demagogia, pelo desprezo pelos humildes e pelos longos anos de servilismo para com os grandes a quem acabaram por conquistar as suas cadeiras, as suas patifarias e as canalhices sem fim. Dir-me-ão que há exceções. Pois, até poderá haver, mas são elas as que confirmam a regra.

 

Parecem os fantasmas que povoam as paisagens de Gogol ou de Bulgakov, pois transportam consigo não a esperança, mas um espelho, e a promessa atraente da absolvição de responsabilidades.

 

Uma coisa sabemos, como escreveu László Krasznahorkai: “Quando julgamos que nos vamos libertar, na verdade estamos apenas a mudar as cadeias”.

 

Tenho de começar a fazer como John Steinbeck e testar o que escrevo com os cães. Mas primeiro vou ter de os comprar ou esperar que alguém mos ofereça. Ele tinha um chamado Angel que ficava sentado a ouvir, transmitindo ao escritor a sensação de que compreendia tudo o que havia para compreender. Já o Charley dava a entender que tentava sempre acrescentar qualquer coisa. Um dia, o seu setter ruivo roeu o manuscrito de “Ratos e Homens”. Nessa altura Steinbeck deu-se conta de que o cão devia ser um crítico literário excelente.

 

É claro que já não há escritores tão sortudos, nem cães tão amantes da literatura. Os tempos mudam. E nem sempre para melhor. Antigamente é que era.

 

O escritor americano sabia que ser alguma coisa pura requer uma arrogância que não está ao alcance de qualquer um.

 

Por vezes também a mim a escrita me parece estranha e mística. A minha poesia ressente-se disso. Já a prosa liberta-me das minhas dores verbais.

 

Claro que faço o melhor que sei e posso, mas sem me levar muito a sério. Há por aí escritores ditos importantes que passam a vida a lançar o arpão à imortalidade. Pensam-se o Capitão Ahab lutando contra Moby Dick. O mar engole-nos a todos. Coitados dos peixes.

 

A santíssima trindade da escrita assenta numa pessoa interior que especula, numa outra que critica e numa terceira que procura a síntese. Também é necessário alguma dose de pecado.

 

Steinbeck, depois de uma conversa com dois editores e um revisor, concluiu que o leitor é estúpido e incapaz de compreender ideia nenhuma; que também é tão inteligente que descobrirá qualquer tipo de erro; que não compra livros breves; que não compra livros longos; que é em parte imbecil, em parte génio e também possui uma parte de ogre; que não se tem a certeza de que sabe ler.

 

Também todos sabemos que os escritores são cruéis, conflituosos, cheios de opiniões, mal-humorados, pouco razoáveis, nervosos, depressivos, irrefletidos, tristes e irresponsáveis. E também irascíveis, mal-educados e insuportáveis. E egomaníacos. E grande parte deles nem sequer possui a decência de terem sucesso.

 

Afinal, para que raio servem?


publicado por João Madureira às 07:00
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