Segunda-feira, 18 de Março de 2019

434 - Pérolas e Diamantes: Polvorosa no galinheiro

 

 

Um velho ditado diz que a raposa pode mudar de pelo mas não consegue mudar de hábitos. Existe outro que reitera que por mais engenhosa que seja a raposa não escapa a um velho caçador.

 

Apesar das raposas nos andarem a dizer que vivemos numa sociedade multicultural, democrática e igualitária, a verdade é que vivemos numa sociedade de desigualdades. Não de disparidades vagas de pensamento, mas de concretas e palpáveis desigualdades sociais.

 

Desigualdade entre ricos e pobres, entre cidade e campo, entre regiões, entre interior e litoral. Desigualdade de desenvolvimento, de rendimentos, de alocação de recursos, de distribuição de riqueza, de cultura e de educação. São estas desigualdades sociais que estão a incendiar a Europa. E o mundo inteiro.

 

O galinheiro está em polvorosa. A raposa espera pacientemente a luta entre os galos. Fracos e confusos são mais fáceis de apanhar.

 

O conceito de desigualdade perdeu o seu sentido estreito para ganhar amplitude, deixou de ter um significado vago e intangível para se transformar numa realidade concreta. De facto, agravaram-se e amplificaram-se as contradições e os conflitos sociais.

 

O mundo de hoje é constituído por duas realidades distintas: de um lado estão os países ricos abarrotando de abundância e do outro existem os países pobres repletos de pobreza e enxameados de gente faminta.

 

Transformando esta realidade em teatro shakespeariano podemos dizer que enquanto num lado do mundo se representa uma comédia, no outro assiste-se a uma tragédia.

 

Os pobres queixam-se, muito a modinho, da sua situação, da sua infelicidade. Os ricos, imbuídos da sua experiência, e erudição, tranquilizam-nos: “O dinheiro não é o único critério para medir a felicidade.”

 

Os ricos sabem sempre o que dizer. Até sabem calar. A sua razão é hereditária.

 

De uma coisa os “nossos” pobres se podem orgulhar: de viverem num continente rico. É como se estivessem no terreiro de uma festa assistindo ao fogo de artifício, depois de comerem um frango de churrasco e beberem vinho carrascão, enquanto os outros, nos salões,  estouram as rolhas das garrafas de champanhe francês para regarem a lagosta que deglutem de forma organizada e certeira. Ninguém lhes pode levar a mal. São eles, os tais outros, quem faz girar o mundo. Sem a sua sabedoria, sem a sua árdua liderança, o mundo seria um caos. Sem eles, os outros que tais, a ordem não nasceria todos os dias ao mesmo tempo que o sol. Nem a cor dos burros seria parda.

 

A promessa dos ricos vai ser cumprida, era o que mais faltava: a concertação social acordou num subsídio para que todos os trabalhadores que ganham o ordenado mínimo possam comprar um bolicao diário. Ou seja, os pobres passam a ter, obrigatoriamente, direito a uma sobremesa doce. A fruta passa a ir para os lares, ou, então, para alimentar os refugiados dos países do terceiro mundo, que muito necessitados andam de vitaminas.

 

Os pobres também possuem a sua sábia filosofia e por isso gostam de ripostar aos tais ricos que apreciam relativizar não só a felicidade, como a sua falsa relação com o dinheiro: não há fome que não dê em fartura.

 

Um antigo filósofo chinês disse, para dar algum consolo aos pobres, que sobrevivemos na adversidade e perecemos no conforto.

 

Dizem que na Bíblia também alguém escreveu que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus.

 

Com tal maldição divina não é de estranhar que os ricos não tenham nenhum remorso em viver no luxo mais faustoso. Perdido por cem, perdido por mil.

 

Tanto os ricos como os pobres têm fome. Mas enquanto os ricos têm fome de dinheiro, os pobres têm fome de política.

 

Uma coisa todos sabemos: arroz cozido nunca volta a ficar cru.

 

Ninguém tira da cabeça aos néscios que a ascensão e queda dos regimes ditatoriais e despóticos, que a afirmação de novas nações, que a renovação dos ideais políticos e sociais e que as invenções tecnológicas não passam de enredos de filmes ou telenovelas.

 

A beleza é uma ousadia. O poder é intemporal. As mudanças são imaginárias. A igualdade é uma crença.

 

É fácil acreditar que a defesa da liberdade, da igualdade e da fraternidade é uma espécie de humor.

 

Vá lá, não é humano confrontar esta gente com a realidade. Tem de se lhe dar muito pão e circo. A sabedoria do poder já vem de longe, de muito longe. E o que andou para aqui chegar.


publicado por João Madureira às 07:00
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