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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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29
Jan10

A história dorme uma longa sesta

João Madureira

“Esta tarde, porém, a história dorme uma longa sesta como normalmente sucede entre o fim de uma guerra e o início de outra. Mais de cem mil soldados soviéticos preparam a retirada do Afeganistão depois de se verem reduzidos a comer fatias de pão barradas com graxa de sapatos, e esses homens que vemos nas imagens televisivas são os vencedores indiscutíveis. Preparam-se para a paz e, porque são indivíduos cautelosos, vieram a Bahawalpur comprar tanques enquanto aguardam o final da guerra fria. Cumprida a missão daquele dia, apanham o avião de regresso a casa. Com os estômagos cheios, esgotaram os assuntos de conversa inconsequente. Nota-se a impaciência própria de gente educada que não quer ofender ninguém. Só mais tarde é que as pessoas dirão: Reparem nessas imagens, reparem como caminham, com passos cansados e relutantes, salta à vista que estavam a ser conduzidos ao avião pela mão invisível da morte.

As famílias dos generais vão receber uma generosa indemnização e as urnas envoltas em bandeiras, com instruções rigorosas para não as abrirem. As famílias dos pilotos serão detidas e encerradas em celas com os tectos salpicados de sangue, durante uns dias, e depois mandadas embora.

(…) O que encontraram entre os destroços do avião não foram cadáveres, não foram mártires de semblante sereno, como pretendeu o exército, não foram homens desfigurados e estropiados, não suficientemente fotogénicos para serem mostrados na televisão ou as famílias. Despojos. O que encontraram foram despojos. Pedaços de carne agarrados aos fragmentos dispersos do avião, ossos calcinados a assomarem por entre o emaranhado de metal retorcido, membros decepados e rostos convertidos numa massa de carne rosada. Ninguém poderá dizer se o caixão enterrado no cemitério de Arlington não contém partes dos despojos do general Zia ou se quem jaz sepultado na mesquita Faizal de Islamabade não são os despojos da estrela mais brilhante do Departamento de Estado. A única coisa que se pode afirmar com toda a certeza é que essas urnas não contêm os meus despojos.

É verdade, eu fui o único que se salvou.

(…) Até me levaram de regresso a casa.

(…) Os culpados cometem os delitos e os inocentes são castigados. É assim o mundo em que vivemos.

(…) É certo que se pode acusar os nossos homens de uniforme de muita coisa, mas nunca de serem imaginativos.

 

O Caso das Mangas Explosivas Mohammed Hanif Porto Editora

 

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