Segunda-feira, 10 de Junho de 2019

446 - Pérolas e Diamantes: Densas banalidades

 

O que mais me incomoda nos portugueses é a sua “tendência natural” para as meias tintas, para a conciliação ou mesmo para a subserviência.

 

Eu aprecio a insubmissão e todas aquelas pessoas que ostentam o orgulho de decidir. Viver apaticamente é frustrante. Aprecio quem vive de inquietação, abalado pela ironia e duvidando da inércia.

 

O problema nas nossas vidas costuma acontecer quando, como Macbeth, nos damos conta de que o bosque que pensávamos quieto se começa a mexer.

 

Bem sentidos, os espaços que nos são queridos podem ser, ao mesmo tempo, limitados e infinitos. Deles, podemos alcançar o mundo.

 

Não sei porquê, mas os membros das elites de agora possuem sorrisos indecisos, como se em vez de olharem para as pessoas se olhassem a um espelho permanentemente colocado à sua frente. Gostam muito de jogar, o que acaba por ser um derivativo para a agressividade dissimulada. Fingem recusar o luxo. Costumam utilizar um tom assumidamente entediante: o da hostilidade dos privilegiados para com os privilégios.

 

E lá se vai o mundo rural onde se costumavam viver as várias experiências de uma sabedoria diferente. Já poucos são os que sabem em que altura do ano canta o rouxinol ou chilreia a cotovia, como se faz o pão, como se secam os figos, como se cora o linho, como se ceifa o trigo ou o centeio, como se plantam e arrancam as batatas, como se munge uma vaca, como se alimenta um reco, como nascem os vitelos, como se junguem os bois ou se pisam as uvas no lagar.

 

Ao que dizem os livros dos deuses, foi sentado no seu trono no Olimpo que Zeus escolheu o deus do comércio. A escolha foi quase imediata, só podia ser Hermes. Ofereceu-lhe então um par de sandálias com pequenas asas de ouro e encarregou-o de promover o intercâmbio mercantil, a assinatura de contratos e, ainda, de salvaguardar a liberdade de comércio. Hermes foi escolhido por ser aquele que melhor mentia.

 

Ao que tudo indica, os políticos pós-modernos foram amaldiçoados pela Deusa Hera, mulher oficial de Zeus, que numa cena de ciúmes amaldiçoou a ninfa Eco, que tinha muita graça, pois as suas palavras pareciam nunca ter sido antes ditas por nenhuma boca. Eco sofreu o pior dos castigos, pois foi privada de voz própria. Desde essa altura é incapaz de dizer, apenas consegue repetir. Os tempos modernos transformaram essa maldição numa grande virtude.

 

Passei os meus anos de juventude empenhado na defesa da ideia de um mundo melhor. Depois reduzi-o à escala de uma região e de uma cidade. A seguir estreitou-se ainda mais. Agora esse ideal tem o tamanho de nada.

 

Para um jesuíta dizer meia mentira e já dizer meia verdade. Mas eu não vou por aí.

 

Agora penso como Aristófanes, um escritor conservador que defendia as tradições como se acreditasse nelas, que a única coisa sagrada é o direito ao riso.

 

Sinto-me a viver numa cidade onde nada acontece e por isso tudo é importante. Apesar disso, a sua beleza triste continua a seduzir-me.

 

Subo e desço as ruas velhas e já não vejo as crianças a brincar. Mas a velha melancolia ainda por lá anda. As ruas imobilizaram-se no tempo. E não foram só elas.

 

As pessoas parecem-me indiferentes e as árvores domesticadas.

 

Ao Tâmega sucedeu-lhe o mesmo que ao Douro, não encontrou cantores. Galarins desse género só os teve o Mondego e o Tejo. Como diria a Sibila: por aqui as epopeias foram raras e as musas mimosas, mas não ardentes. Em vez do tanger melodramático das guitarras, por cá apenas soaram o repique ou o dobrar dos sinos.

 

Ao que consta, Camilo Castelo Branco gostava de quem sabia chorar. E até se tornou um escritor especialista nesse tipo de romances. Eu não consigo apreciar os especialistas das lágrimas. Sempre desconfiei deles. Desses e dos que ostentam o riso fácil e chocalheiro. Desconfio que são vinho da mesma vasilha. É tudo pinga contrafeita.

 

Dizem por aí os apologistas do politicamente correto que vivemos num tempo de grandes verdades. A mentira já vem de longe e fez-me lembrar um desabafo da escritora Agustina Bessa-Luís: “Já disse numa dessas entrevistas que as grandes verdades não me impressionam. Estamos a viver numa sociedade de verdades engarrafadas. Se as bebermos, não sei se não serão uma zurrapa.”

 

Para mim o cair da tarde em Chaves ainda continua a ser uma hora irreal. Mas as conversas não deixam de ser densas de banalidades.

 

Camilo costumava dizer que quem aniquila a velha nobreza é o ridículo da nova.


publicado por João Madureira às 07:00
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