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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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17
Jun19

447 - Pérolas e Diamantes: Divagações

João Madureira

 

 

Não sei se hei de ficar triste ou contente, pois descobri que partilho o meu dia de aniversário com mais nove milhões de pessoas na Terra.

 

Tudo é uma questão de fé. Até a fé o é. E mesmo a Mafia, que resulta apenas de uma alteração de Mia Fida, que significa “Minha Fé”: aquilo em que creio, o meu credo.

 

A ironia é uma espécie de escape perante a contrariedade. Ou perante a incredulidade dos imbecis.

 

É um aforismo agustiniano: Uns têm sorte, outros têm paciência. O que tarde se aprende não traz experiência, traz desilusão.

 

Andam para aí a peneirar a verdade para com ela fazerem bolinhos de retórica. A receita é a de sempre: dar com uma mão o que depois tiram com a outra.

 

Raymond Aron meteu o dedo na ferida quando referiu que “as ideologias ditas de esquerda encobrem muita mitologia e mistificação”.

 

A esquerda muitas vezes tem razão. Muitas vezes não. Nisso é como a direita.

 

O que custa mais ver na esquerda é a mentira por omissão. Os seus propagandistas omitem sempre o que não lhes interessa, até a verdade.

 

Raymond Aron pôs um ponto final nessa filosofia da hipocrisia: “A política ainda não descobriu o segredo para evitar a violência. Mas a violência torna-se ainda mais desumana quando se crê ao serviço da verdade, a um tempo, histórica e absoluta.”

 

Desinteressamo-nos da política quando lhe percebemos os limites. Mas não é por isso que nos deixamos absorver pela indiferença.

 

Há um certo sincronismo na amizade: faz-nos sentir que o mundo tem algum sentido.

 

Ao que se sabe, Descartes morreu vítima da necessidade de se levantar antes de amanhecer, cerca das cinco da manhã, por ter de ir ler à rainha Cristina da Suécia lições de filosofia.

 

Já Stendhal aprendeu a escrever com simplicidade e clareza por ter estudado as ordens de batalha de Napoleão.

 

Meus caros amigos, por alguma razão o músculo mais forte do ser humano é o da língua.

 

Também eu fui vítima de terrorismo. Eu e todos aqueles que ouvimos contar as mais famosas histórias infantis, que mais não eram do que um arsenal de armas psicológicas contra a gente miúda. Hansel e Gretel lá estavam para nos avisar de que serão abandonados pelos pais; o Capuchinho Vermelho informava-nos de que cada  desconhecido pode ser o lobo mau que nos comerá; a Gata Borralheira obrigou-nos a desconfiar das madrastas e dos meios-irmãos. Já o Ogre, dos contos de Perrault, foi o mais eficiente de todos pois ensinou-nos a obediência e espalhou o medo entre a cristandade.

 

E também nos ensinaram muitas mentiras. Afinal, os europeus não inventaram quase nada, limitando-se a copiar os chineses e guardando o segredo bem guardado. Foi a China quem inventou quase tudo. A seda nasceu lá, há cinco mil anos. Foram eles que descobriram, denominaram e cultivaram o chá. Foram também os chineses os primeiros a extrair sal de poços profundos, a usar gás e petróleo nas suas cozinhas e nos seus candeeiros. Criaram os arados de ferro e as máquinas semeadoras, debulhadoras e ceifeiras, dois mil anos antes dos ingleses mecanizarem a sua agricultura. Inventaram a bússola mil e cem anos antes de os barcos europeus começarem a usá-la. Descobriram que os moinhos de água podiam dar energia aos seus fornos de ferro e de aço, mil anos antes dos alemães. Imprimiram livros seis séculos antes de Gutenberg e dois séculos antes usaram tipos móveis de metal nas suas imprensas. Inventaram a pólvora há mil e duzentos anos e o canhão um século depois. Há nove séculos, criaram máquinas de dobar seda com bobinas movidas a pedal, que os italianos copiaram com dois séculos de atraso.

 

Inventaram ainda a porcelana, a roca , o leme, a acupuntura, o baralho de cartas, o futebol, a lanterna mágica, a pirotecnia, o papagaio de papel, o papel-moeda, o relógio mecânico, o sismógrafo, a laca, a pintura fosforescente, os carretos de pesca, a ponte suspensa, o carrinho de mão, o guarda-chuva, o leque, o estribo, a ferradura, a chave, a escova de dentes e outras minudências.

 

Viver no século XXI é uma mistura de verdade com relativismo, que nos permite misturar ironia e sinceridade, construção com descontração e esperança com melancolia.

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