Segunda-feira, 12 de Agosto de 2019

455 - Pérolas e Diamantes: A fé e os desejos

 

 

Nietzsche, apesar de considerar o curso de teologia maçudo e de ter grande interesse na filologia clássica, entrou para a faculdade de teologia. Ao mesmo tempo tentou corrigir a sua ignorância do mundo juntando-se a uma confraria de estudantes (Burschenschaft). Esperava discussões eruditas e debates parlamentares, mas deu consigo a levantar canecas de cerveja e a entoar as canções básicas da confraria. Descreveu essa atividade intelectual como um movimento confuso e desconcertante de excitabilidade febril.

 

Mas a rotina impôs-se. Como em todas as confrarias, ajaezava-se à maneira, fazia vénias em todas as direções e marchava ataviado com as faixas e os bonés da irmandade, cantando com energia. Os destacados membros da confraria frequentavam os bordéis de Colónia. Mas o nosso estimado filósofo contratou um guia para lhe mostrar a catedral e outros locais célebres.

 

Pediu então ao guia que o levasse a um restaurante. O guia pensou que o motivo de pedido tão insólito se devia ao facto de Nietzsche ser um rapaz envergonhado. Em vez disso, levou-o a um bordel.

 

Ou seja, de repente encontrou-se rodeado por meia dúzia de criaturas vestidas de ouropéis e escumilha que o olhavam fixamente. E expectantes. Perfeitamente atónito, e impelido pelo instinto, resolveu fazer aquilo que sabia: sentar-se ao piano e tocar um ou dois acordes. A música, segundo confessou, acelerou-lhe os membros e passados uns instantes estava lá fora ao ar livre.

 

Isso é o que sabemos de forma oficial. Mas alguns creem que Nietzsche não se limitou a tocar alguns acordes ao piano e sair, tendo ficado lá dentro para os fins habituais, pois contraiu sífilis, de onde resultaram os seus problemas posteriores de saúde física e mental.

 

Na Páscoa subsequente ao incidente do bordel recusou-se a receber o sacramento da comunhão, na igreja.

 

Podemos dizer que Nietzsche, não estando ainda a sofrer de uma perda total de fé, já carregava grandes dúvidas.

 

Nietzsche escreveu então à sua irmã: “Toda a verdadeira crença é, realmente, infalível; realiza aquilo que cada pessoa crente espera encontrar nela, mas não proporciona o menor apoio para o estabelecimento de uma verdade objetiva... Aqui os caminhos dos homens separam-se. Se quiseres alcançar a paz de espírito e a felicidade, então tem fé; se quiseres ser um discípulo da verdade, então, procura.”

 

Os desejos, quando satisfeitos, só dão lugar a mais desejos.

 

Em Basileia era um jovem que se vestia de velho para personificar a sabedoria, era um estudante universitário a fazer-se passar por professor, era um filho exasperado a fazer-se passar por um bom filho perante uma mãe irritante e também um filho amante e dedicado à memória do seu falecido pai cristão mas que entretanto estava a caminho de perder a fé cristã.

 

Foi na Suíça que encontrou Wagner, onde o grande compositor, a expensas do rei Luís, compunha as suas sinfonias e, em momentos de descontração, ordenava ao seu fiel criado Jacob que o conduzisse num barco a remos por entre os bandos de cisnes brancos de Lohengrin que cruzavam o lago, até ao local onde se formava o eco com que Guilherme Tell provocava o seu pérfido adversário, Landvogt Gesser, gritando insultos que soavam pelas montanhas num escárnio sem fim. Wagner, segundo Sue Prideaux (Eu Sou Dinamite – A Vida de Friedrich Nietzsche), gostava de berrar obscenidades com o seu forte sotaque de Saxe e ria a bandeiras despregadas quando o eco lhas devolvia.

 

Eu isto até compreendo. O que não consigo perceber é o facto de as fêmeas dos animais não terem vómitos durante a gravidez. Os humanos, em muitos aspetos, são uns animais falhados. Por isso é que as mulheres ganham corpo e contam as luas.


publicado por João Madureira às 07:00
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