Segunda-feira, 7 de Outubro de 2019

463 - Pérolas e Diamantes: Antes pelo contrário

 

 

A nossa democracia parlamentar talvez sofra com o facto de ter advogados a mais e estadistas a menos. Por isso as leis são tão tortuosas e as fraudes imensas. São os grandes escritórios de advogados de Lisboa e do Porto que fazem as leis, as defendem e as ajudam a aprovar. Muito destes insignes ilusionistas são até ilustres deputados. São o Estado dentro do Estado.

 

Esta nossa democracia parece um negócio dos partidos, entre partidos e para os partidos. Quem está de fora racha lenha. Diz quem sabe que este é o caminho para o abismo. 

 

A democracia não se defende contra os partidos, mas contra o seu monopólio.

 

Os partidos têm tido o monopólio do poder há demasiado tempo. Tem de haver uma mudança. Pode ser um desafio estranho e difícil. Mas é necessário.

 

Agora existem duas classes distintas: os empregados e os desempregados. E entre elas existe uma mobilidade incrível. A verdade é que os sindicatos andam um pouco à nora com esta nova realidade.

 

O neoliberalismo passou a significar uma governação feita por conservadores e reacionários e o socialismo uma governação exercida por socialistas. Tanto o capitalismo como o socialismo, que aprendemos a identificar, é agora impraticável. A prática traiu a teoria. Ou revelou-a. O que vem a dar no mesmo.

 

Os cidadãos já aprenderam a julgar as ideologias dos partidos não pelas suas estimáveis intenções, mas pelos atos praticados enquanto governam.

 

A verdade é que ninguém consegue modificar a realidade aos gritos. Chegou ao fim o hábito arreigado de pensar de forma dicotómica. A questão já não é a de se ser a favor ou contra.

 

A História não está do lado de ninguém. Por exemplo, a teoria marxista que explica que todo o desenvolvimento histórico é um produto de mudanças na infraestrutura económica revelou-se falsa. O desenvolvimento histórico resulta tanto da vontade política, como dos processos materiais.

 

Até a esquerda radical trabalha calmamente nos seus ótimos gabinetes para a queda da hegemonia da burguesia, gozando dos frutos desta sociedade burguesa que dizem detestar e combater.

 

Os ideólogos marxistas como Zizek pensam que o pensamento suprime a realidade, quando se faz à esquerda. Ou seja, a realidade é de direita. A esquerda é outra coisa.

 

A esquerda tradicional defende que o mundo se divide entre esquerda e direita. Ou seja, se não formos de esquerda então somos de direita. A verdade é que esta estúpida dicotomia já foi chão que deu uvas.

 

Basta ouvir um militante de esquerda para ficarmos a saber que a direita é incapaz de fazer algo de positivo socialmente. Tudo nela cheira a bafio e sabe a ranço ou a arroz de lampreia. A ser assim, a direita também pode argumentar que a esquerda igualitária possui o sabor do sangue da morcela ou do arroz de cabidela.

 

A verdade é que os pensadores de esquerda, através de uma campanha intimidatória, teimam em tornar inaceitável ser-se de direita. Consideram mesmo que é uma coisa contranatura.

 

Mas os gulags revelaram-se máquinas de extermínio tão eficazes como os campos de concentração nazis. Quase sempre identificam a direita com o nacional-socialismo. Por isso os argumentos da direita são inaceitáveis, as perspetivas irrelevantes, o caráter enviesado e a sua presença no mundo um erro. Nem a direita é assim, nem a esquerda é assado.

 

E a teimosia continua. Por exemplo, Adorno continua a defender que a alternativa ao sistema capitalista é a utopia. Ou seja, se o seu argumento for honesto, quer dizer que a alternativa não existe.

 

Se eliminarmos a lei, a propriedade, os costumes, as hierarquias, a família, a negociação, o Governo e as instituições, sobra o quê?

 

Destruindo tudo isto, substituem-no por quê?

 

A igualdade continua a ser uma questão de fé, pois mesmo aqueles que mais acirradamente a defendem não acreditam verdadeiramente nela.

 

Não é marginalizando e condenando o opositor que podemos modificar a realidade. Dessa forma podemos é comprometer o futuro.

 

Tanto a esquerda como a direita sempre sentiram mais prazer em minimizar o adversário do que em se elevar.

 

É do consenso geral que a nossa sociedade não necessita de uma abolição dos poderes, mas antes da sua mitigação. Uma sociedade democrática tem de assentar num poder consentido, onde os conflitos são resolvidos de acordo com uma conceção de partilha da justiça. A ideologia não pode substituir o paciente trabalho da lei.

 

E quem assim pensa é de esquerda ou de direita?

 

Provavelmente nem uma coisa nem outra. Antes pelo contrário.


publicado por João Madureira às 07:00
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