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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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21
Out19

465 - Pérolas e Diamantes: Camaradas

João Madureira

 

 

No seu livro “A Tragédia de um Povo – A Revolução Russa 1981-1924”, Orlando Figes faz um retrato delicioso dos camaradas bolcheviques após a revolução de outubro de 1917.

 

No início de 1918, o próprio camarada Lenine (o camarada dos camaradas) endossou o projeto de abertura, em Petrogrado, de um restaurante exclusivo para os membros do partido com o revolucionário argumento de que os bolcheviques não poderiam continuar a luta de estômago vazio. “O proletariado compreenderá a necessidade de tal medida”, disse ele.

 

A partir de dito tão revolucionário, e após a derrota do general Branco Denikin, socializou-se o conceito e assegurou-se desde logo aos altos dignatários bolcheviques salários mais avultados, melhor alimentação, morada subsidiada em apartamentos e hotéis, acesso privilegiado a lojas, hospitais e casas de campo, carros com motorista, viagens ferroviárias de primeira classe, férias no estrangeiro e outras incontáveis prerrogativas antes apenas ao alcance da elite imperial. Para vilão, vilão e meio.

 

A partir daí, cinco mil bolcheviques e suas famílias passaram a viver no Kremlin e nos hotéis especiais do partido, no centro de Moscovo. As acomodações residenciais passaram a estar sob o cuidado de mais de dois mil camaradas empregados. Nessas acomodações principescas, havia salão de beleza, sauna, hospital, berçário e três grandes restaurantes, com camaradas cozinheiros instruídos em França. A partir de 1920, todos esses serviços passaram a ser gratuitos, para a nova elite vermelha. O orçamento do Kremlin passou a ser bem mais generoso do que o destinado ao bem-estar social de toda a capital soviética.

 

Em Petrogrado, os camaradas dirigentes da classe operária fixaram residência no Hotel Astória, que se transformou na sede dos sovietes. Como o fausto não era o adequado, o prédio foi remodelado de maneira a readquirir o esplendor que ostentava antes das devastações causadas pela revolução. Das suas suites, os camaradas dirigentes podiam pedir as refeições que lhes eram trazidas à cama pelos camaradas serventes de mesa, convenientemente educados para baterem os calcanhares na presença dos camaradas dirigentes. Era costume ver-se pelos corredores champanhe, caviar, perfumes. E também escovas dos dentes. A entrada no hotel era proibida ao público. À noite, carros ostentando bandeirinhas vermelhas com a foicinha e o martelinho, faziam fila no portão, esperando pelos camaradas da nova elite para os levarem à ópera ou a um banquete em Smolny.

 

Segundo Figes, o camarada “Grishka” Zinoviev, o camarada “dono de Petrogrado”, entrava e saía do Astória sempre acompanhado pelos seguranças da Cheka e por uma mão cheia de prostitutas, que variavam de um dia para o outro.

 

Aos principais líderes do Partido foram-lhes atribuídas propriedades confiscadas à nata czarista. Lenine teve direito ao solar que pertencera ao general Morozov; Trotski passou a desfrutar de uma magnífica residência de campo tomada a Yusupov; Estaline estabeleceu-se numa casa de veraneio de um antigo magnate do petróleo.

 

Nos arredores da capital, existiam dezenas de prédios que o Executivo Soviético distribuiu pelos camaradas mais influentes, para seu uso exclusivo. Cada um desses bolcheviques teve ainda direito a um séquito de camaradas criados, como nos bons velhos tempos da realeza.

 

Ainda segundo o historiador Inglês, os subornos, roubos e venda de bens públicos constituíram-se nos males endémicos do Partido. Foi um fartar camaradagem.

 

Quase tudo estava ao alcance de burocratas corruptos: géneros alimentícios, tabaco, álcool, combustível, moradias, armas e licenças especiais de todos os tipos.

 

Segundo um registo do camarada Zinoviev, era frequente encontrar as mulheres e as amantes dos chefes bolcheviques circulando “com uma vitrina de joalharia pendurada ao pescoço”. As suas casas eram decoradas com objetos valiosos recebidos em troca de favores.

 

Um funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros possuía em casa dois vasos Sèvres e um mosquete de prata que tinha pertencido a Pedro, o Grande.

 

Os camaradas mais corruptos eram mesmo os da Cheka.

 

Em suma, a corrupção era fruto do exercício irrefreável do poder.

 

A Rússia foi então entregue ao Czar vermelho Lenine e a mais quatro príncipes bolcheviques: Trotsky, Estaline, Kamenev e Krestinsky. Depois do morte de Lenine, Estaline encarregou-se de eliminar a concorrência. Mandou matá-los a todos e ficou ele a reinar.

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